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O maior mistério da vida

| 30/10/2021

Cemitério. Finados

“A relação entre vivos e mortos não irá desaparecer, porque o ser humano é dotado de memória e de vivos e duradouros sentimentos solidários que os ligam aos seus antepassados.” Foto © Rosalina Araújo e Armando Brito.

 

A correria dos familiares para os cemitérios no Dia dos Fiéis Defuntos é um ritual que se vai repetindo ano após ano, transformando estes espaços públicos em jardins, salpicados de flores, onde a saudade e os silêncios se entrelaçam.

Na verdade, a morte sempre foi, ao longo da história, um mistério e celebração para todas as civilizações, desde as mais primitivas às desenvolvidas. Revisitando o passado, pelos testemunhos documentais que nos foram deixados, hoje podemos compreender com algum elevado grau de fiabilidade, as diversas manifestações culturais deste insondável mistério.

Se as formas de lidar com a certeza da morte se foi alterando com o passar dos tempos, a substância, a forte relação entre vivos e mortos não sofreu grande alteração. Esta realidade foi-se mantendo bem viva e interrogativa. Só que o lidar com os mortos muito dependeu dos lugares, dos tempos e das formas culturais de cada comunidade humana. Se para alguns povos a morte é apenas a passagem de uma vida para outra, tida como melhor, para outros é entendida como uma tragédia que cava um vazio, uma espécie de muro intransponível. Se para algumas culturas é uma festa, com danças e músicas celebrativas, para outras a morte é acompanhada de luto pesado, de choro, de uma tragédia avassaladora que permanece toda a vida.

Se recuarmos na história da humanidade, verificamos que não há muitos anos – os meus avós morreram novos e todos nas suas casas –, a sociedade ocidental lidava com esta realidade de um modo muito diferente de hoje. Com uma esperança de vida curta e uma elevada mortalidade infantil (cerca de 50%) e envolvidos numa sociedade religiosa, os nossos avós encaravam a morte com alguma naturalidade, como fazendo parte intrínseca da vida humana.

No ano e meio da pandemia que nos envolveu, lembremos de como eram assustadores os números de mortes diárias, revelados diariamente pelas televisões. Quem não se arrepiou com o seu número galopante, levando muitos a mudarem de canal, para não serem metralhados com as informações sobre as elevadas mortes que dia após dia aconteciam? Este ambiente pandémico mostrou-nos uma nova visão da morte em elevada escala. O mesmo se diga dos funerais, onde a presença dos amigos e familiares foi reduzida ao mínimo. A ocultação da morte tornou-se também uma experiência dolorosa para muitos familiares que nem sequer conseguiram fazer o luto devido aos seus entes queridos. Ocultar a morte acabou por acentuar ainda mais o que na realidade já vinha tendencialmente acontecendo.

Esta acentuação de um novo paradigma poderá deixar algumas marcas no modo como a nossa civilização moderna se irá comportar futuramente, com o mistério da morte. Morrer no frio silêncio de uma cama de hospital, sem o calor e o carinho de amigos e familiares, é a realidade para onde estamos a caminhar.

Contudo, a morte, como o maior mistério da vida humana, continuará a acompanhar todas as gerações futuras, como tem acontecido até aos nossos dias. Embora mudem as formas, a relação entre vivos e mortos não irá desaparecer, porque o ser humano é dotado de memória e de vivos e duradouros sentimentos solidários que os ligam aos seus antepassados. Acredite-se ou não numa outra vida para além da morte, desde a origem do Homo Sapiens do qual descendemos, os testemunhos documentais encontrados nas sepulturas revelam-nos que sempre os mortos foram honrados pelos vivos, cultivando a sua memória embora de diferentes modos.

Se, como sabemos, os cemitérios em Portugal foram oficialmente retirados do interior das povoações em meados do séc. XIX, o que acabou por acontecer foi dar origem a revoltas populares, sobretudo no Norte do país. Apesar desta medida, nunca as comunidades deixaram de honrar os seus mortos, sobretudo no Dia de Fiéis Defuntos em que os cemitérios se tornam o centro agregador de toda a comunidade que, neste dia do ano, quer demonstrar aos seus entes queridos que jamais os esquece, visitando as suas eternas moradas.

Se estes sentimentos com os antepassados são de louvar, mais importante será cuidar dos nossos idosos enquanto vivem, prestando-lhes todo o apoio material e afetivo de que necessitem, antes de eles morrerem.

 

Florentino Beirão é professor do ensino secundário. Contacto: florentinobeirao@hotmail.com

 

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