O olhar da raposa

| 13 Jan 21

Cinema, O Mal não Existe, Mohammad Rasoulof

Uma imagem do filme O Mal não Existe, de Mohammad Rasoulof.

 

Infelizmente, são ainda muitos os lugares deste mundo onde a pena de morte continua a existir e a ser praticada. Sirvam de exemplo estas notícias do Público de sexta, 11 de Dezembro e Domingo 13 de Dezembro: “Trump autoriza onda de execuções como não se via há 124 anos”; “Alfred Bourgeois é o segundo executado em dois dias pela Administração Trump”; “Irão executa jornalista por inspirar protestos de 2017 contra o regime”.

Infelizmente, como escreve o Papa Francisco na Fratelli Tutti, “durante décadas, pareceu que o mundo tinha aprendido com tantas guerras e fracassos… Mas a história dá sinais de regressão” (FT, 10 e 11).

Felizmente, a Igreja continua a ser uma voz e uma luz cada vez mais forte e veemente na defesa da pessoa e da vida, na sua oposição e condenação da pena de morte: “Hoje, afirmamos com clareza que ‘a pena de morte é inadmissível’ e a Igreja compromete-se decididamente a propor que seja abolida em todo o mundo” (FT, 263). Temos muito que trabalhar.

Vêm estas palavras a propósito do filme O Mal Não Existe, de Mohammad Rasoulof. Trata-se um realizador iraniano, menos conhecido do que Kiarostami ou Jafar Panahi, cujo objectivo é denunciar as injustiças, opressão e falta de liberdade existentes no Irão. Por essa razão, e como é habitual, já esteve detido e impedido de sair do país. Este é o seu primeiro filme estreado entre nós.

Um filme feito com o coração que procura pôr diante dos nossos olhos a realidade da pena de morte no Irão, não a partir do ponto de vista dos condenados, mas precisamente daqueles que a executam ou se recusam a executar uma ordem como essa, com as consequências daí inerentes.

O estratagema escolhido por Mohammad Rasoulof é contar-nos quatro histórias diferentes, ao que parece a partir de casos verídicos, e levar-nos a perguntar de que lado é que nos colocamos. Como nos situaríamos nós diante do dilema?

Por essa razão se invocou a propósito deste filme, a questão da “banalidade do mal” de Hannah Arendt, transplantada neste caso para o Irão, onde a “banalidade” da pena de morte é dramática. Somos apenas peões que executam ordens sem as questionar, como quem não tem alternativa? Ou, apesar de tudo, é possível recusar-se e assumir todos os riscos e consequências de uma tal opção? Como é possível ser-se um “homem normal” – pai atento, marido paciente, filho cuidadoso – e carregar no botão para enforcar com a maior das tranquilidades? De onde vem a força para não seguir em frente e retirar o banco, e arriscar tudo em nome da liberdade de consciência? A vontade e alegria de estar com a namorada no seu dia de aniversário, aproveitando os três dias de licença concedidos a quem mata em nome do Estado, podem justificar tal acto? De onde vem a serenidade e a paz para um pai que recusou uma execução mesmo sabendo que lhe seriam negados todos os seus direitos, até o de ver crescer a filha?

Não é fácil o julgamento e o filme torna-se interpelante por isso mesmo. Cada uma das histórias põe-nos perguntas e caminhos diferentes. Vale a pena parar para o ver, mesmo nestes tempos de horários estranhos. É que é demasiado fácil deixar-se escorregar pelo plano inclinado da lei e da ordem. E é demasiado difícil e exigente manter-se firme e fiel na estrada que não desiste nunca do “carácter sagrado” de cada pessoa, seja ela quem for, tenha ela feito o que for, para voltar ao Papa Francisco.

 

Nota
“O olhar da raposa” do título refere-se a um momento decisivo, já na parte final do filme, que revela àquela filha a opção que o seu pai tinha tomado e com que ela não estava a conseguir lidar, a partir do momento em que soube a verdade. É um pequeno detalhe, mas que fica na retina…

O Mal Não Existe, de Mohammad Rasoulof
Com Baran Rasoulof, Mohammad Seddighimehr, Mahtab Servati
Drama, Acção
Alemanha/Irão/República Checa, 2020, Cor, 151 min.

 

Texto publicado também no número de Janeiro da revista Mensageiro de Santo António.

 

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