O mal: um desafio à filosofia e à teologia ou a dimensão trágica da existência

| 11 Abr 20

A oração do Papa Francisco pela humanidade expressou a vários níveis a situação existencial que estamos a viver: era um ser humano só, de uma vulnerabilidade extrema e que, assumindo ambas, solidão e vulnerabilidade, procurava viver e partilhar com o conjunto dos humanos os recursos que a sua história de vida punha à sua disposição para poder viver o momento atual, com sentido e num horizonte de esperança no futuro.

Papa Francisco, durante a Oração pela Humanidade, na Praça de São Pedro.

O Papa Francisco, durante a Oração pela Humanidade, na Praça de São Pedro: “A metáfora fundamental da sua meditação foi a da tempestade”. Foto da transmissão vídeo nos canais do Vaticano.

 

A metáfora fundamental da sua meditação foi a da tempestade e o seu cinzel estruturante a exploração repetitiva da resposta/interrogação de Jesus aos discípulos assustados: “acaso não tendes fé?”

Assumiu, portanto, o Papa Francisco que não havia de perguntar nem porquê, nem para quê, nos foi dado enfrentar a presente situação, mas antes, orar apesar dela. Ou seja, perante a hecatombe em que vivemos mergulhad@s, o Papa não desenvolveu um pensamento nem gnóstico, nem jurídico, não procurando compreender ou explicar, nem julgar, mas apenas, consolar.

Assistir à oração do Papa Francisco reconduziu-me a um pensador da história da nossa contemporaneidade filosófica, Paul Ricoeur, sendo, no contexto das suas reflexões, que alinhavei meia dúzia de ideias que passo a partilhar.

1 – A primeira situação que obscurece a abordagem do mal é o facto de mal se referir tanto ao mal moral como ao mal físico ou cósmico; e o primeiro esforço a fazer é o de clarificar a diferença entre ambos, na medida em que o primeiro está nas nossas mãos erradicar, sendo, por isso a sua existência da nossa inteira responsabilidade; mas o segundo ultrapassa-nos completamente, expondo-nos, apenas, como vítimas e manifestando a nossa total impotência e vulnerabilidade.

Embora a pandemia do coronavírus seja polémica em relação à sua origem e a sua dimensão possa estar a ser potenciada pela destruição cega que a humanidade tem vindo a fazer da Terra, de facto, há nela uma dimensão estrutural que ultrapassa radicalmente a ação humana e a coloca do lado dos males físicos ou cósmicos. Nesse sentido, enfrentarmo-nos a esta pandemia situa-se naquele quadro de situações acerca das quais somos tentad@s a procurar as razões, numa atitude de interpelação e de perplexidade.

2 – Porquê? Porque é que procuramos encontrar as razões do mal cósmico? Isto é, porque é que nos escandalizamos com essa dimensão do mal em lugar de olharmos para ele como uma realidade igual a todas as outras com as quais coabitamos pacificamente? O que é que em nós não aceita simplesmente a existência do mal cósmico como mais um elemento constitutivo da realidade, levando-nos a falar de injustiça de situações como, por exemplo, as do sofrimento de seres inocentes ou de um cataclismo natural?

Parece claro que o recurso à classificação de injustiça para aquelas situações decorre do facto de estarmos a considerar que a moralidade é constitutiva do real, que o mundo deve ter uma ordem moral. O que, de alguma maneira, sem nos darmos conta, mostra que estamos a supor que o mundo decorre de um projeto e, portanto, estamos a partir do princípio que alguém ou algo é responsável por essas situações e, no fundo, pensamos que esse alguém ou algo tinha obrigação de agir de outro modo. Ou seja, está suposto na interrogação “como é que isto pode acontecer?” que o mundo é uma obra que alguém construiu, alguém, aliás, poderoso, por isso, o criou, e, como poderoso, tinha obrigação de intervir para erradicar o mal.

As respostas que, na nossa tradição, foram dadas para resolver esta situação, pela teologia e pela filosofia, vão desde a perspetiva da lógica da retribuição – o mal cósmico é o castigo dos pecados da humanidade –, à ideia leibniziana de que este é o melhor dos mundos possíveis, ou à perspetiva de Hegel de que o mal, como negativo, é um momento necessário do desenvolvimento do real e será superado por esse mesmo desenvolvimento.

3 – O filósofo Paul Ricoeur, para quem a questão do mal, a par da do tempo, constitui um pilar fundamental da reflexão filosófica, dialoga com o conjunto das respostas que a Tradição foi dando a esta temática, mas, no quadro do reconhecimento da finitude da razão perante o caráter misterioso do mal, vai apontar outras vias de enfrentamento com a problemática do mal.

Para ele, o mal é um enigma, um escândalo, mas temos de o assumir no quadro da dimensão trágica da existência humana; ou seja, temos de nos situar perante ele na perspetiva de um radical não saber que, contudo, não é paralisante mas aponta, necessariamente, para a construção de mediações imperfeitas, mantendo uma tensão entre o lógico e o trágico, no assumir de que o discurso humano é sempre aproximativo e penúltimo. Nesse quadro, Ricoeur afastar-se-á de todas as teodiceias, seja qual for o tipo de resposta que formulem.

Seguindo o pensamento ricoeuriano, podemos dizer que, de um certo ponto de vista, o mal protagoniza exemplarmente a dimensão trágica da existência, porque, por um lado, evidencia os limites das respostas teóricas e, por isso, por outro lado, obriga a encontrar outros modos de relação, nomeadamente, exige compromissos com a ação efetiva. Por isso, embora o tempo também resista a uma compreensão total da sua natureza, há uma diferença abissal ente a questão do tempo e a do mal. O primeiro é a condição de possibilidade do ser e do acontecer, enquanto o mal arrasta consigo a mancha e a inquietude do negativo e daí que imponha a saída dos quadros da mera teorização.

Uma das temáticas que preocupa Ricoeur na sua abordagem da questão do mal é retirar-lhe o seu caráter de substância, porque aceitá-lo como substância equivaleria a considerá-lo inteligível, pensável “porque pensar ‘ser’ é pensar ‘inteligível’, pensar ‘uno’, pensar ‘bem’’’ (Le Mal: 23); isto é, se pensar é realizar unificação e dar sentido, o mal é irredutivelmente impensável e, por essa razão, a problemática do mal exige outras mediações que tornem a vida humana compatível com uma existência em que existe o mal. Nas palavras de Ricoeur: “(…) o problema do mal não é apenas um problema especulativo: exige a convergência entre pensamento, ação (no sentido moral e político) e uma transformação espiritual dos sentimentos (ibidem: 31).

4 – Assim, para o filósofo, acercarmo-nos ao tema do mal adequadamente corresponde a abandonarmos a questão do porquê e também a da sua origem. Em relação ao mal há que afastar um pensamento regressivo, em busca das suas razões e da sua origem, e desenvolver um pensamento progressivo, um pensamento “para a frente”, em relação ao futuro.

Esta perspetiva de um pensamento progressivo transporta consigo um compromisso prático que assenta na renúncia de explicar o mal e, ao mesmo tempo, representa uma maneira de lutar contra ele, na medida em que implica discernir no meio da catástrofe modos possíveis de o ultrapassar. Não de o superar, à maneira hegeliana, mas de o integrar e de poder continuar a encarar a vida como possibilidade de um agir responsável e com sentido. Uma das formas humanas de lutar contra o mal consiste em fazer memória das vítimas, através da construção de narrativas sobre o seu sofrimento, num compromisso ético radical com elas. Narrar o sofrimento das vítimas representa não as deixar cair no esquecimento resgatando-as de um silêncio que as voltaria a fazer, de novo, vítimas, ao apagar o seu sofrimento da memória das culturas.

Mas esta renúncia à explicação teórica do mal, colocando-o na esfera da vida prática e assumindo-o como um facto bruto, tem uma ressonância profunda ao nível da fé e da sua vivência e que, tal como eu o interpreto, o Papa Francisco protagonizou na sua oração pela humanidade: trata-se de viver a fé como um desafio e como um risco – o risco de crer em Deus, apesar do mal.

 

Nota: o título retoma o de uma obra de Paul Ricoeur: Le Mal. Un défi à la philosophe et à la théologie. Genève, Labor et Fides, 1986.

 

Fernanda Henriques é professora emérita de Filosofia da Universidade de Évora

Artigos relacionados

Pin It on Pinterest

Share This