Onze anos após ter cessado funções como presidente da Aliança Evangélica Portuguesa (AEP), o pastor Jorge Humberto Nobre está de volta à liderança da instituição. O regresso ao cargo que ocupou durante cerca de oito anos (entre 2008 e 2015) surge num momento de profunda transformação social e demográfica em Portugal. Aos 61 anos, e quando já pensava em reformar-se, o líder evangélico foi apontado como uma figura de consenso capaz de agregar as diferentes sensibilidades do movimento e restabelecer pontes institucionais. E decidiu dizer “sim” ao desafio.
Eram muitos os planos de Jorge Humberto para o futuro, mas regressar à liderança da AEP não estava, de facto, entre eles. “Jamais me passaria pela cabeça, ao fim de onze anos, voltar outra vez à direção da Aliança Evangélica Portuguesa”, confessou ao 7MARGENS, a poucas horas da cerimónia de dedicação dos novos órgãos para o próximo mandato de três anos, que acontece ao final da tarde deste sábado, 23 de maio, na Assembleia de Deus de Benfica.
O pastor, até agora à frente da Comunidade Cristã de Almeirim (pertencente ao Movimento das Assembleias de Deus), estava já focado em fazer a transição pastoral na sua própria comunidade, mas o cenário alterou-se quando foi abordado por outros líderes evangélicos que o identificaram como sendo a pessoa certa para assumir o cargo de liderança da AEP neste momento. “Eles contra-argumentaram e disseram que era uma pessoa consensual, não apenas dentro dos evangélicos, mas também fora”, recorda. Reconhecendo que, ao longo do seu percurso, tem sido um “bom construtor de pontes”, o pastor acabou por aceitar a responsabilidade: “Quem sou eu para não colocar os recursos que tenho mais uma vez ao serviço da Aliança Evangélica Portuguesa?”: eis a pergunta que o levou ao “sim” definitivo.
E a essa resposta afirmativa não foi alheia a sua experiência como maratonista, ele que recentemente completou a Maratona de Sevilha e está já a preparar-se para correr a Maratona do Porto, em novembro. “Afinal de contas, já estou habituado às longas distâncias…”, diz, meio a brincar meio a sério, reconhecendo que a disciplina e resiliência exigidas a quem faz corridas de longa distância pode, e deve, ser transposta para as restantes dimensões da vida.
Identidade evangélica em causa

O pastor Jorge Humberto (ao centro, de cachecol) durante a apresentação do calendário inter-religioso 2026. Foto: Direitos reservados
Além de pastor, “construtor de pontes” e maratonista, Jorge Humberto também tem formação na área das Ciências Sociais e Humanas, e essa formação ajuda-o a identificar com clareza as “alterações profundas” que se registaram no panorama religioso português nos últimos anos, impulsionadas sobretudo pelos fluxos migratórios, e que se constituem como as suas principais preocupações agora que assume novamente a presidência da AEP.
Entre elas, destaca o surgimento de algumas novas comunidades que põem em causa a identidade histórica do movimento: “Há a vinda de outras realidades, evangélicas algumas, outras com o nome de evangélicas, mas que não são evangélicas, e isso faz com que haja uma amálgama, haja uma confusão”. Segundo o líder, algumas destas “igrejas não estão creditadas por ninguém” e são lideradas por supostos “pastores que não estão credenciados por ninguém”, o que se traduz numa “certa anarquia” que deve ser combatida.
A par deste fenómeno, “o envelhecimento afeta muitas comunidades centenárias”, reconhece, enquanto as igrejas dos centros urbanos e do litoral se mostram mais rejuvenescidas, mas em muitos casos “não tão rejuvenescidas como seria desejável”.
Outra frente de preocupação de Jorge Humberto passa pelas movimentações políticas que visam alterar a Lei da Liberdade Religiosa. “Porque há um partido que acha que a lei é demasiado permissiva quando a lei sempre foi reconhecida como uma das mais bem feitas a nível europeu, parece que voltamos atrás 25 anos e corremos o risco de ver restringidos direitos que já haviam sido adquiridos”, lamenta, admitindo: “A concretizar-se, essa é uma mudança que sinceramente eu não pensei que viesse a acontecer”.
Uma corrida de fundo pela coesão identitária, autorregulação e diálogo

O pastor Jorge Humberto durante a Maratona de Sevilha, em fevereiro deste ano. O novo mandato promete ser também uma corrida de fundo. Foto: Direitos reservados
Para o novo mandato, uma das prioridades de Jorge Humberto Nobre passa, assim, por procurar unir as lideranças das diferentes igrejas evangélicas, combater o isolamento de algumas comunidades locais, e promover uma “autorregulação” interna: “É importante que a autorregulação exista também como forma de fazer a separação das águas. Se não fizermos isso, corremos o risco de se estabelecer o caos”, alerta.
Quanto aos eixos estruturantes da AEP, garante, continuarão a assentar nos pilares fundacionais de mobilizar e representar os evangélicos perante o Estado. Contudo, a estratégia de agregação será mais proativa. “Às vezes, nós pensamos que agregar é só vir de fora para dentro, mas agregar também é quem está dentro ir fora, ir à procura”, sustenta Jorge Humberto, anunciando que a direção irá promover reuniões in loco com pastores do Norte, Centro e Sul do país.
Ao longo deste novo mandato – em que sucede ao químico, teólogo e historiador Timóteo Cavaco -, o pastor pretende ainda reforçar o papel da AEP na esfera pública através de um triplo diálogo: intercultural, inter-religioso e ecuménico. Assumindo-se como “um dos fundadores do diálogo inter-religioso em Portugal”, o pastor elogia o ambiente “altamente saudável” que, apesar das mudanças sociais e políticas, continua a viver-se no país nesta matéria, e destaca a forte ligação de fraternidade que ele próprio mantém com líderes das comunidades islâmica, mórmon e hindu.
Relativamente ao diálogo ecuménico com a Igreja Católica, o presidente assume o compromisso de imprimir mais dinamismo aos contactos existentes: “Nós temos que virar esta página, porque [o diálogo ecuménico] está um bocado parado”. Para Jorge Humberto, evangélicos e católicos devem focar-se mais nas semelhanças e nos valores partilhados: “Precisamos de reforçar aquilo que temos em comum, independentemente daquilo que são depois as especificidades de cada um”. Admirador assumido do Papa Francisco e do cardeal Tolentino Mendonça, o novo líder recorda o essencial: “Acima de tudo, somos cristãos”.
A fechar este leque de prioridades, Jorge Humberto assume ainda ao 7MARGENS o desejo de estreitar laços com os meios de comunicação. O novo presidente da AEP acredita que o pensamento evangélico tem um papel ativo e construtivo a desempenhar no espaço de debate civil em Portugal. “Temos gente muito capacitada que pode dar um bom contributo, representando o pensamento evangélico” na esfera pública, afirma.
É com esta visão integrada que o pastor, sociólogo e maratonista se prepara para o tiro de partida de um mandato de três anos. Entre as exigências de autorregulação interna e a urgência de reforçar o diálogo ecuménico e inter-religioso, Jorge Humberto Nobre encara os próximos tempos não como uma corrida de velocidade, mas como uma maratona de fundo. Mais importante que a meta é o caminho que começará desde já a percorrer, procurando manter a Igreja Evangélica fiel à sua identidade histórica, mas de portas abertas ao mundo e focada no essencial que une todos os cristãos.










