O medo da morte nas epidemias da Idade Moderna: uma aula aberta, as permanências e as mudanças

| 23 Fev 21

 

Nos meses que vão de finais do outono de 1769 a meados de 1770, a cidade de Braga foi palco de cenas dolorosas de pânico e de morte, tendo por motivo uma potente epidemia de tifo e por epicentro o Hospital de S. Marcos, metido dentro do casco da urbe.

A desgraça foi que o mal veio juntar-se a outro mal, visto que, naquele inverno rigoroso, já o S. Marcos se encontrava sobrelotado de doentes, por causa de um surto de tuberculose pulmonar (a tísica, como era conhecida). Numa primeira vaga, a coisa foi complicada, mas ainda se aguentou. Mas nas duas fases que se seguiram o panorama tornou-se caótico. Com médicos, enfermeiras e auxiliares a morrer, uns, a pedir dispensa, outros, tornou-se comum o medo de ir para o hospital e encontrar doentes abandonados sem terem quem deles cuidasse. O pânico apoderou-se de toda a gente, cada qual posicionado numa escala invisível de “vidas suspensas”: os que temiam o contágio e os que temiam a morte.

Para poderem entrar no S. Marcos sem demasiados riscos, os médicos que havia exigiam que as entradas, enfermarias e corredores fossem previamente defumados e as autoridades púbicas mandavam queimar pela cidade ervas de cheiro para desinfetar os ares. A presença diária da morte escancarava-se nas casas e nas ruas.

O arcebispo, D. Gaspar de Bragança, ainda recém-chegado ao cargo, mobilizou tudo e todos para aplacar o que era por muitos sentido como castigo do alto. Confrarias, ordens religiosas, cabido e conventos, todos foram mobilizados para rezar, mobilizar, fazer procissões a rogar pela saúde. Fizeram-se descer as imagens dos santos protetores dos respetivos altares, em especial S. Sebastião, para as fazer circular pelas ruas, de modo a aproximá-las das cenas da tragédia geral e fazê-las ouvir melhor o clamor do povo. Em poucos meses, foram-se desta vida, nos cálculos entretanto feitos, mais de 1200 almas.

Este retrato pungente foi esta segunda-feira traçado, precisamente em Braga, pela professora e investigadora Marta Lobo Araújo, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, no decurso de uma aula aberta a que deu o título “Vidas suspensas: as epidemias na Idade Moderna”.

O que se passou naquele momento na cidade dos arcebispos – mostrou-o ela na sua intervenção – passou-se noutros momentos e em outros lugares sobretudo em cidades, do país e da Europa. E não só com o tifo ou a tísica. Outras vezes foi a peste bubónica, a malária, a varíola. Algumas existiam em estado endémico e explodiam em surtos, quando as circunstâncias (de guerras, de fomes) criavam o clima favorável. Outras vinham já como epidemias que se propagavam de outros países da Europa, por mar ou por terra, nas feiras, festas e romarias, no comércio, nas peregrinações ou na vida militar. Quando se dava conta, já elas estavam instaladas e a fazer estragos.

Compreensivelmente, como sublinhou Marta Lobo Araújo, as cidades eram mais propícias do que os campos, devido à densidade de habitantes e de contactos com outras paragens, às deficitárias condições de habitação e de higiene. Quando se declarava a epidemia, havia que, de imediato, encerrar portas e postigos da urbe, proibir a circulação de pessoas, impor quarentenas, por regra de 30 dias. E acelerar medidas de higiene para acautelar fontes de contágio: limpar as ruas de imundície, limpar fontes e fontenários, mandar pintar as frontarias das casas. Quem podia, fugia para longe, aguardando tempo asado para o regresso. Era o que acontecia frequentemente com a corte, que podia deslocar-se para Sintra, Óbidos, Torres Vedras, conforme a situação permitia.

Grave era quando à epidemia ou à peste se juntava a guerra ou a fome e pior ainda quando estes fatores se tornavam, ao mesmo tempo, causa e consequência da desgraça da gente miúda.

Fosse o tifo ou a peste bubónica, o terror era tal que muitos não ousavam sequer pronunciar-lhes o nome. Marta Lobo deixou-nos os substitutos usados para contornar a desgraça: “febres malignas e perigosas”, “mal contagioso”, “mal que Deus nos livre” ou, simplesmente, “o mal”.

 

Desgraçadas aquelas famílias onde se declarava um caso de contágio: o recheio de mobiliário tinha de ser destruído pelo fogo fora de portas, a casa destelhada, para entrar o sol e tudo fumegado para desinfetar. Desgraçados também os que tivessem de recorrer aos hospitais, em tempos de epidemia: sobrelotados, mal arejados, por vezes com mais de um doente em cada cama, não espanta que muitos os evitassem. Por alguma razão eram tidos por instituições para os pobres.

Enquanto durassem as medidas de controlo, verificava-se a circulação de pessoas e de bens, fiscalizavam-se os animais, suspendiam-se as oportunidades de ajuntamentos. Mas, como em todos os tempos, havia os infratores, os que procuravam subterfúgios e alegavam razões especiais para contornar as regras estabelecidas.

No debate que se seguiu à exposição de Marta Lobo, foram sublinhados alguns fatores que, até pela experiência de pandemia que todos temos vivido, parecem ser uma constante e uma permanência: as medidas de higiene e de bloqueio da propagação dos vírus, o trabalho do pessoal de saúde em condições de exigência e risco extremos, e, claro, o medo e o contacto de perto com a morte. A isso haveria que acrescentar ainda o papel da responsabilidade individual e o facto de os grupos sociais não serem todos atingidos do mesmo modo e com a mesma intensidade. Para usar uma expressão do debate, alguns têm a possibilidade de fugir ou resguardar-se do perigo e muitos não o podem fazer.

A par disto, importa colocar nesta abordagem comparativa aquilo de que hoje podemos dispor em termos de políticas públicas de saúde e de investigação científica (em relação com as vacinas). Não sendo uma panaceia e não prescindindo de outros fatores, estes aspetos apontam para um quadro bastante diverso do de outros tempos, se conjugado com uma elevação generalizada (ainda que muito desigual) das condições de vida. Mas também estes aspetos são ambivalentes. Por exemplo: se os países que têm acesso à vacina não se preocuparem com aqueles que não podem dispor dela, ou confiarem excessivamente nela, correm o risco de continuar a ter o problema da pandemia por resolver. Por outras palavras, a ciência não pode prescindir da solidariedade entre as pessoas e entre os povos.

Um ex-voto assinalando a cura de A. José Lopes em 1776.

 

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