O meio é a massagem

| 16 Out 20

Nas margens da filosofia (XXV)

 

Na minha crónica anterior, citei o filósofo canadiano Marshal Mc Luhan, lembrando a afirmação the medium is the message (“o meio é a mensagem”), por ele usada em Understanding Media.[1] Editado em 1964, o livro foi um sucesso. Três anos mais tarde, associando-se ao desenhador Quentin Fiore, Mc Luhan publicou uma pequena brochura intitulada The Media is the Massage (“O Meio é a Massagem”)[2], uma representação gráfica e criativa das teses defendidas na obra de 64. O título insólito deveu-se a um erro do editor. Mas o filósofo resolveu mantê-lo, servindo-se dele para um melhor aprofundamento das suas teses sobre os meios de comunicação. Aproveitando o termo massage, esclareceu os seus leitores quanto à relação existente entre message (mensagem), Mess Age (Idade da Confusão) massage (Massagem) e Mass Age (Idade das Massas). Afinal o engano foi positivo, pois proporcionou toda uma séria de aproximações.

McLuhan interessou-se pelos vários tipos de linguagem, analisando os diferentes suportes das mesmas – o gesto, a palavra, a escrita, a imprensa, a televisão e os diferentes media. Escreveu antes do boom internético a que hoje assistimos, mas as suas teses podem facilmente adaptar-se ao Facebook, Whatsapp, Instagram, Twitter e outras redes sociais.

Num outro livro – Mutations – analisou o modo como a tecnologia electrónica modela o futuro da educação e profetizou que a escola não tem necessariamente de se circunscrever a uma sala de aula.[3] Os meios de comunicação têm a sua química própria. A cultura do livro apela à reflexão isolada. O mundo da electrónica é o lugar do imediato e do global – a humanidade transforma-se em tribo na medida em que todos participam na vida e nas acções de cada um, ultrapassando a distância física com um mero clic no telemóvel.

Transportando para o século XXI as reflexões do filósofo canadiano, temos presente o modo como somos constantemente “massajados” pelas mensagens que nos são enviadas a um ritmo alucinante. Não só porque elas nos informam, enformam e deformam, mas sobretudo porque o seu objectivo é o de uma adesão imediata ao seu conteúdo, quer rindo do que nos é apresentado de um modo humorístico, quer sintonizando com as críticas que visam provocar a nossa indignação, quer comprazendo-nos com a beleza de determinadas imagens.

A imediatez das nossas reacções e o facto de não haver espaço para um distanciamento crítico constitui as mais das vezes o objectivo principal dessa “massagem” que se nos impõe e que sub-repticiamente nos conquista. Consequentemente, a distância relativamente aos posts, mems, vídeos e outro material que recebemos torna-se um imperativo ético.

Ao procurar uma ajuda contra o excesso de mensagens/massagens que constantemente nos interpelam, deparámos com o Manual de Sobrevivência para Tempos de Ignorância Organizada, publicado pelo padre Nelson Faria no Portal dos Jesuítas em Portugal, a 31 de Agosto 2020.

É um pequeno texto cuja leitura aconselhamos. Ao tentar responder às  questões que aí se levantam, ficaremos cientes de quem criou a mensagem, de que modo estão a tentar-nos convencer da sua verdade, que perspectivas e valores nela se transmitem, que razões levaram ao seu envio,  e outras tantas interrogações que certamente nos impedirão de sermos “massajados” ou anestesiados pela informações que constantemente nos assediam.

Embora McLuhan não tenha previsto a profusão de informações que os actuais meios electrónicos nos fazem chegar, ele tocou num ponto determinante da comunicação, ao enfatizar que os meios (the media) não são meros canais transmissores de mensagens. Para ele, os suportes mediáticos são determinantes na divulgação e recepção dos conteúdos.

Há que perceber a existência de um determinismo tecnológico, ou seja, a profunda influência dos meios de comunicação no modo como a informação é recebida. Não é o mesmo ler uma notícia num jornal ou recebê-la na televisão ou nas redes sociais. A publicidade tem perfeita consciência de que o meio utilizado tem uma influência determinante no conteúdo da mensagem.

As novas tecnologias transformaram profundamente a sociedade em que vivemos. Ao comparar as dificuldades com que determinados grupos etários lidam com os novos meios de comunicação, verificamos  a existência de um fosso geracional:  uma criança de três anos pega no telemóvel ou no ipad  para  procurar as suas histórias preferidas enquanto a maior parte dos idosos recorre a filhos e netos para conseguir aceder às sessões de zoom e de webinar que se tornaram de uso comum nestes tempos de covid.

Não interessa, quais Velhos do Restelo, lamentar-nos pela perda de um tempo em que o suporte de papel era determinante para a comunicação. Mas se acreditamos na importância do meio para a divulgação da mensagem, há que reconhecer (e fazer reconhecer) às novas gerações o valor dos livros, o prazer experimentado na leitura dos mesmos, a importância de os sublinhar, de copiar deles frases que poderão nortear a nossa vida, de os arrumar num espaço sem que os descartemos imediatamente depois de lidos. Porque os livros revisitam-se e falam-nos diferentemente nas diferentes épocas das nossas vidas.

A aldeia global de McLuhan abre-nos para um mundo interligado, onde as mensagens circulam com celeridade. Mas esta inegável vantagem proporcionada pelos actuais meios de comunicação exige, paralelamente, uma atitude de cautela e de distanciamento. Sem ela, as mensagens tornam-se “massagens” que impedem a nossa criatividade e nos transformam em meros receptores acríticos.

 

Notas 

[1] Marshal Mc Luhan, Understanding Media. The Extensions of Man, New York, Mentor, 1964, p. 9.
[2] Marshal Mc Luhan e Quentin Fiore, The Medium is the Massage, New York, Bantam Books, 1967.
[3] Marshal Mc Luhan, Mutations, Montréal, Hurtubise HMH, 1966.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa

 

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