Inaugurado em Cambedo

O memorial na aldeia mista que acolheu refugiados antifranquistas

| 16 Jun 2024

Casas destruídas pelo exército em 1946, em Cambedo, Chaves. Foto © Filipe Ribeiro.

Casas destruídas pelo Exército português em 1946, em Cambedo, Chaves. Foto © Filipe Ribeiro.

A “solidariedade, coragem e sofrimento de que deu provas a comunidade local no acolhimento de fugidos do regime franquista” nas décadas de 30 e 40 do século XX está agora reconhecida no memorial inaugurado no dia 1 de junho em Cambedo, aldeia raiana do concelho de Chaves, em que algumas casas ainda mostram as marcas de morteiros disparados durante o cerco de 1946 pelos militares às ordens dos regimes opressivos de Portugal e Espanha.

O memorial, descerrado por Augusto Santos Silva, ex-presidente da Assembleia da República, refere de forma explícita a coragem da população durante a “operação militar concertada entre as ditaduras ibéricas que ali ocorreu em dezembro de 1946” e surge na sequência de uma petição que defendia “o direito à memória, à verdade e ao ressarcimento ético da comunidade”. O abaixo-assinado deu origem a um debate e votação de um voto de congratulação no Parlamento, aprovado por unanimidade pelos deputados da anterior legislatura a 11 de janeiro de 2024. A cerimónia da inauguração do memorial veio a ser integrada nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril.

Na cerimónia protocolar de inauguração do memorial, fixado junto à Capela de São Gonçalo, Augusto Santos Silva enalteceu “a importância de manter viva a memória das vítimas” de um período conturbado em que ficou vincado que “os valores da humanidade transcendem fronteiras”. “Além das questões de natureza política e ideológica, celebramos hoje, também, a dignidade humana”, referiu.

O deputado Rui Tavares, relator da proposta apresentada no plenário da AR em janeiro deste ano, esteve também presente em Cambedo, cuja história confessa conhecer devido ao documentário O Silêncio (2012), de António Loja Neves e José Manuel Alves Pereira, que apresenta depoimentos de pessoas que viveram de perto o trágico episódio. “Eu estava aqui, em Cambedo, em 2017, quando o filme foi projetado pela primeira vez. E, por isso, já conhecia a história” – confessa o deputado, que se mostrou feliz por participar “numa das últimas iniciativas daquela legislatura” que “fechou de uma forma inteiramente justa um ano de preparação das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril”.

Já em 1996, os 50 anos dos acontecimentos foram assinalados, por iniciativa dos galegos, com uma placa junto à mesma capela: “Em lembranza do voso sufrimento. 1946-1996”.

Memorial foi inaugurado na presença de Santos Silva, ex-presidente da AR. Foto © Filipe Ribeiro

Memorial de Cambedo foi inaugurado na presença de Santos Silva, ex-presidente da Assembleia da República. Foto © Filipe Ribeiro.

Aldeia cercada e bombardeada em 1946

Logo após o início da guerra civil espanhola, Cambedo, à semelhança de outras povoações raianas, acolheu centenas de refugiados e, posteriormente, guerrilheiros antifranquistas. “Para tal foi decisiva a existência de laços familiares e de amizade continuados no tempo e alicerçados numa cultura de fonteira consolidada ao longo dos séculos”, referiu ao 7MONTES Jorge Martins, um dos promotores da iniciativa.

Com o objetivo de desalojar estes guerrilheiros e reprimir a população que os acolhera, a 20 de dezembro de 1946 (sete anos depois da guerra civil espanhola ter terminado!), a aldeia de Cambedo foi cercada por forças militares espanholas e portuguesas, entre elas a Guardia Civil, o Exército português, a PIDE e a GNR, e bombardeada com morteiros no dia 22 de dezembro pelo regimento de Chaves.

Intencionalmente ocultada e deturpada pelo regime de Salazar, a “guerra do Cambedo”, como foi conhecida, provocou mortos, feridos e detidos (pela PIDE) e muita destruição. Os bens e a vida das pessoas que testemunharam os factos e a dos seus descendentes foram profundamente afetadas pela violência desmedida daquela ação repressiva. As marcas ainda perduram, entre as quais as ruínas de uma casa que não resistiu ao fogo dos morteiros. “Pode dizer-se que Cambedo pagou cara a ajuda e proteção dada aos vizinhos espanhóis. Além disso, durante décadas foi imposto à comunidade raiana um brutal ‘manto de silêncio’, só quebrado, em determinados momentos, pelas investigações científicas de ambos os países e pelas denúncias de alguns jornalistas”, explicou.

Face ao “silêncio reinante” sobre aqueles acontecimentos, um grupo de cambedences e familiares, apoiados por cientistas sociais nacionais e galegos e por associações cívicas que lutam pelo “direito à memória”, constituiu uma comissão promotora de uma petição à Assembleia da República. Depois da recolha de assinaturas, a petição foi apresentada em plenário a 29 de novembro de 2023 e baixou à comissão dos Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias. Foi depois aprovado por unanimidade, em janeiro de 2024, um voto de congratulação.

De referir que a solidariedade dos vizinhos para com os “fugidos” da violência e perseguição franquistas já mereceu o reconhecimento por parte do poder democrático galego em sucessivas homenagens, como por exemplo na inscrição na toponímia da cidade de Ourense em que existe agora uma Plaza de Cambedo da Raia.

Cambedo foi aldeia promíscua até 1864

Aldeia recorda solidariedade entre os povos vizinhos. Foto © Filipe Ribeiro.

Aldeia recorda solidariedade entre os povos vizinhos. Foto © Filipe Ribeiro.

Cambedo da Raia, Soutelinho da Raia e Lamadarcos eram conhecidas por aldeias mistas, ou aldeias promíscuas, por serem atravessadas pela fronteira até 29 de setembro de 1864, altura em que foi assinado, entre as duas monarquias, o Tratado de Lisboa, que fixou definitivamente os limites entre Portugal e Espanha.

A par destas aldeias, ali bem próximo (do outro lado da serra do Larouco) existia o Couto Misto (Couto Mixto) também com três aldeias: Santiago, Rubiás e Meaus. Tratava-se de um microestado independente, encravado entre Portugal e a Espanha, que não estava ligado a nenhuma coroa. Tinha leis próprias, direitos e privilégios, isenção de impostos e dava asilo a foragidos da lei, exceto para crimes de sangue.

Em 1864, os reinos de Portugal e Espanha chegaram a acordo para que as três aldeias promíscuas (Soutelinho da Raia, Cambedo e Lamadarcos) passassem na totalidade para o reino de Portugal, enquanto o Couto Misto passou para o domínio do reino espanhol.

 

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