O menino que roubou o chocolate

| 11 Abr 2022

Miúdos de rua no Rio de Janeiro, Brasil. Foto © Diogo Pereira | Unsplash

Miúdos de rua no Rio de Janeiro, Brasil. Foto © Diogo Pereira | Unsplash

 

Esta manhã, à porta do supermercado, como é habitual, estava um menino que pedia leite.

Não era o mesmo menino todos os dias: há um género de organização interna entre os pedintes menores dos bairros do Rio de Janeiro, e vão-se espalhando de modo a ocuparem alternativa e rotativamente, às portas dos estabelecimentos.

Compro o leite e entrego-o; e é neste momento que um homem de cerca de 50 anos, corpo forte e decidido, marrento e raivoso, esbofeteia o menino mesmo à minha frente; e grita “Vou-te cortar as mãos rapaz”…

À medida que lhe grito para que pare, o menino cai no chão, desmaiado por entre o sangue escorrido, a pressentir a morte.

O homem, do alto da sua imponência e orgulhoso da razão, gritava: “Esses moleques me roubando chocolates na venda, ué!” enquanto o povo passava indiferente, adormecido, desligado, gelado. A indiferença; só e apenas, naquele momento, a indiferença.

Peguei, no chão, a cabeça do menino, abriu os olhos e pediu-me, ainda atordoado, que não chamasse a polícia para o homem, porque ele saberia que era a ele que a polícia voltaria a machucar, “é que eu roubei o chocolate, tia.” confessou-me num olhar direto e profundo. “Não roubou, não, menino. Eu paguei esse chocolate pra você”, foi só o que consegui responder.

Senti vergonha de ser gente; vergonha daquele homem que à semelhança de tantos outros não se revê no crime social que comete contra os roubadores de chocolates; cuja lucidez fraqueja em reconhecer que são aqueles meninos as verdadeiras vítimas de uma sociedade estruturada para que os mesmos fiquem de fora. Aqueles meninos são roubados desde que nascem, sabotados por um sistema interessado na sua invisibilidade. Aquele menino arriscava a vida todos os dias para levar leite para casa, e não foi por ele que o homem da venda foi roubado, mas sim pelo próprio governo no qual votou. A raiva do homem não é contra o menino nem contra o roubo do chocolate, o menino é apenas um pretexto, o elo mais fraco onde a raiva pode ser descontada sem consequências. Afinal de contas, só os meninos sem lar – nem leite nem chocolate – conhecem verdadeiramente as profundezas da opressão.

 

Ana Sofia Brito é performer e artista de rua por opção, embora também mantenha a arte de palco; frequentou o Chapitô e estudou teatro físico na Moveo, em Barcelona.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

"Nada cristãs"

Ministro russo repudia declarações do Papa

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, descreveu como “nada cristãs” as afirmações do Papa Francisco nas quais denunciou a “crueldade russa”, especialmente a dos chechenos, em relação aos ucranianos. Lavrov falava durante uma conferência de imprensa, esta quinta-feira, 1 de dezembro, e referia-se à entrevista que Francisco deu recentemente à revista America – The Jesuit Review.

À espera

[Os dias da semana]

À espera novidade

Quase todos se apresentam voltados para o sítio onde estão Maria e José, que têm, mais por perto, a companhia de um burro e de uma vaca. Todos esperam. Ao centro, a manjedoura em que, em breve, será colocado o recém-nascido. É tempo agora de preparar a sua chegada, esse imenso acontecimento, afinal de todas as horas.

Bispo Carlos Azevedo passa da Cultura para as Ciências Históricas

Novo cargo no Vaticano

Bispo Carlos Azevedo passa da Cultura para as Ciências Históricas novidade

O bispo português Carlos Azevedo foi nomeado neste sábado para o lugar de delegado (“número dois”) do Comité Pontifício para as Ciências Históricas, deixando o cargo equivalente que desempenhava no Dicastério para a Cultura e a Educação, da Santa Sé, que há poucas semanas passou a ser dirigido pelo também português cardeal José Tolentino Mendonça.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This