O Mercado e o Templo (11): Amor às pessoas do mundo é a “arte de negociar”

| 21 Abr 2021

Comércio virtuoso e de sucesso é o de quem trabalha por dinheiro e, simultaneamente, por vocação. As duas coisas juntas. A riqueza, como a felicidade, chega procurando (também) outra coisa. É exemplar a criação de relações que tornou grande o toscano Francesco Datini. Pessimismo, cinismo, inveja e desconfiança são os grandes vícios capitais da empresa.

Pistoia (Itália). © Miguel Veiga

“A Europa foi criada, sobretudo, por monges e mercadores; espírito e comércio que, juntos, fizeram coisas maravilhosas.” Foto: Pistoia (Itália). © Miguel Veiga.

 

Quem observa de longe a vida económica acaba, frequentemente, por perder as notas mais bonitas deste pedaço de vida. Vê incentivos, reuniões, escritórios, algoritmos, racionalidades, lucros, dívidas. Quase nunca se dá conta de que, por detrás das estratégias, contratos e negócios, há pessoas e, entre estas, há algumas que, naquelas empresas, meteram a carne, todas as suas paixões e inteligência, a vida. De longe e de fora, vemos os rastos do trabalho; raramente vemos o corpo de quem deixa esses rastos, quase nunca vemos a alma. Mas, quando conseguimos ver as almas, naquelas mesmas empresas, vemos espíritos e demónios, anjos a subir e descer do paraíso.

As cartas, os diários e as memórias dos mercadores, dos séculos XIV e XV italianos e europeus, são fontes preciosas porque nos permitem entrar na alma das pessoas dos mercadores, na fase inicial desta profissão. A vida e as cartas de Francesco di Marco Datini (1335-1410) têm vestígios extraordinários a apaixonantes. Francesco era filho de Marco (de Datino), um talhante de Prato que morreu, juntamente com a sua mulher e dois dos quatro filhos, durante a peste de 1348. Francesco foi criado por Piera, a vizinha – a “escura” Idade Média também sabia fazer isto. Depois de um breve período em Florença, como aprendiz, aos quinze anos, parte para Avinhão onde, primeiro faz de moço de recados e, depois, começa a sua profissão de mercador. Fundou uma verdadeira multinacional, com empresas em Prato, Avinhão, Florença, Pisa, Barcelona, Valência, dispondo, ao fim da sua longa vida, de um património superior a 100 mil florins, que deixou para a beneficência. A Europa foi criada, sobretudo, por monges e mercadores; espírito e comércio que, juntos, fizeram coisas maravilhosas.

Durante os trinta e dois anos que passou em Avinhão, criou uma riqueza notável, a ponto de, quando voltou a Prato, ser chamado “Francesco rico” (Paolo Nanni, Ragionare tra mercanti: per una rilettura della personalità di Francesco di Marco Datini). Criou um inovador sistema empresarial, uma verdadeira holding; cada empresa tinha a sua autonomia económica e jurídica, mas a empresa florentina “Francesco Datini e companheiros” tinha as quotas maioritárias daquela complexa rede empresarial, que se espalhava pelas principais praças europeias, centrada na produção e comércio de lã, de seda e “de qualquer coisa que quisesse negociar”. Uma tal rede mercantil regia-se, sobretudo, por uma extensa e densa rede de relações. E é na arte do negócio, entendido como arte das relações, que se revela o génio de Datini.

 

O “habitus” faz o comerciante

centro comercial em Lisboa. © Miguel Veiga

“A nossa profissão comporta tantas coisas que se empata mais dinheiro do que vale um castelo.” Foto: centro comercial em Lisboa. © Miguel Veiga.

 

Com ele, esboça-se o carácter do mercador, o seu habitus, algo de muito parecido ao hábito do monge, entendido como postura existencial, um modo de estar no mundo. Fazer de mercador coincide com o ser mercador, a profissão com o destino. Numa carta, Datini escreve que, se tivesse de continuar a trabalhar apenas pelo dinheiro, não valeria a pena: “A nossa profissão comporta tantas coisas que se empata mais dinheiro do que vale um castelo” (carta de 1378). A sua jovem mulher, Margherita, numa carta de 1386, repreendia-o porque a “boa vida” que lhe tinha prometido nunca tinha chegado: “Sempre pregaste que terias uma boa vida… Disseste isto há dez anos e, hoje, parece-me que o repousar está mais longe que nunca; isto é culpa tua.” A atividade do mercador acaba por coincidir com a sua vida: “Decidi fazer como o médico que, enquanto viver, medicará” (1388).

Folheando as suas cartas, conservadas no Arquivo Público de Prato, impressionam algumas notas daquela ética mercantil. Em primeiro lugar, a relação entre o mercador e a riqueza. As virtudes que ele, sistematicamente, ensina aos seus sócios são muitas e nós, hoje, nem todas associaríamos à profissão de mercador. Recorda o risco (“quem deixasse de semear com medos dos pássaros, não semearia nada”), mas também lembra a temperança (“quem caça muitas raposas, perde uma e deixa outra”); elogia e velocidade (“quem faz rápido, faz duas vezes”) mas, ao mesmo tempo o saber contentar-se (“vale mais um tentilhão na mão que um tordo no galho”); encoraja a audácia (“ao homem de armas nunca faltaram os cavalos”) mas também a moderação (“disse, uma vez, um sábio mercador que o dinheiro ganhava dez por cento mantendo-o na caixa”).

Uma sabedoria de prática mercantil, temperada com a sabedoria antiga (Séneca, Cícero, a Bíblia), a dos provérbios populares que, juntas, levam Datini a elaborar a regra de ouro da sua ética dos negócios: não fazer da procura da riqueza o único nem o principal objetivo do comércio. O desejo exclusivo de ganhar é uma paixão que pode cegar, pelo que o mercador sábio deve, de vez em quando, olhar-se com olhos de um observador exterior e imparcial; como num jogo de xadrez, onde uma criança que observa os jogadores “às vezes, vê mais que eles, porque quem está a ver não está apaixonado pelo medo de perder ou ganhar” (1402), Para Datini, o grande vício do mercador, entendido como um grande erro, é a avareza, que impede também de ganhar, porque o mercador sábio, para ganhar, deve controlar a sua própria ambição do ganho.

Uma ética empresarial que remete diretamente para a ética das virtudes (que Datini conhece e ensina). Naquela visão do mundo, a virtude é entendida como atitude a cultivar para alcançar a excelência num determinado âmbito da vida. Os comportamentos, para serem virtuosos, não podem ser só e apenas instrumentais, porque é preciso uma determinada dose de valor intrínseco: uma ação deve ser praticada também porque é boa em si mesma e não apenas como meio para obter algo exterior à própria ação. Um atleta não será virtuoso (excelente) se competir apenas para vencer e não também por amor ao desporto em si, nem o será o cientista que faz pesquisas apenas para a fama e não por amor à ciência. Porém, no comércio, a dimensão externa ou instrumental é especialmente importante.

 

Trabalhar por dinheiro e por vocação

centro comercial em Lisboa. © Miguel Veiga (1)

“O empresário é, antes de mais, alguém que olha o mundo como um conjunto de oportunidades. Foto: centro comercial em Lisboa. © Miguel Veiga.

 

É difícil imaginar que um mercador atue apenas por amor ao comércio e pelas relações com os seus clientes e fornecedores, porque a obtenção de um ganho exterior à ação é parte da natureza do próprio comércio. Mas Datini recorda-nos que, sem uma dose de amor pelo comércio e pela profissão e missão, o “mercador” se desnatura (muda de natureza) e torna-se outra coisa – usurário, por exemplo.

O mercador virtuoso é, então, alguém que trabalha por dinheiro e por vocação. Portanto, é um mau mercador quem trabalha apenas por dinheiro (ou quem trabalha só por vocação, que pode ainda ser pior que o primeiro). E quem trabalha só por dinheiro, acaba por nem sequer fazer dinheiro, pois vai contra a natureza da própria profissão. É lei antiga do comércio que não enriquece quem faz de mercador apenas para enriquecer. Como que a dizer que a riqueza chega, como a felicidade, procurando (também) outra coisa. A ponto de, no final da vida, escrever que dedicou ao comércio “alma e corpo, não por avareza nem por vontade de ganhar, mas apenas porque me arrependi (desiludido) de todas as outras coisas” (1410).

Continuando a leitura das cartas de Datini, emerge também um segundo elemento ou virtude do “mercador civil”: um olhar positivo sobre o mundo e ainda mais sobre os homens, que permanece o seu farol existencial e comercial. Numa carta, de 1398, diz-nos qual fora a primeira razão que o impeliu a entrar numa sociedade com outros companheiros, na época de Avinhão: “O amor que eu tinha pelas pessoas do mundo”. Uma frase espetacular que mostra o pré-requisito para desempenhar, com proveito, a profissão-vocação de mercador.

Um empresário que não tenha “amor pelas pessoas do mundo” não se tornará um bom empresário. Sem olhar o mundo e as pessoas com um olhar bom e positivo, sem ver, num novo encontro, uma oportunidade para crescer juntos, sem dar confiança como hipótese de partida, não se pode exercer a arte do comércio. O empresário é, antes de mais, alguém que olha o mundo como um conjunto de oportunidades relacionais, que acredita que as pessoas são a sua primeira riqueza e que a riqueza dos outros é uma possibilidade também para ele próprio. Está aqui a sua capacidade de gerar, que nasce sempre da generosidade do olhar sobre os seres humanos. O pessimismo, o cinismo, a inveja e a desconfiança são os grandes vícios capitais da empresa.

E, como consequência desta segunda virtude “antropológica”, surge das cartas uma terceira virtude fundamental na vida e no sucesso de Datini: o seu cuidado das relações. Datini foi um grande tecedor de relações, de amizade e até mesmo de fraternidade: “Quando me associei a Toro di Bertto, em Avinhão, muitos gozaram comigo, dizendo: ‘Eras livre e fizeste-te escravo.’ Respondia que estava contente por ter companhia, por duas razões: uma, por ter um irmão, outra por ter alguém a quem temer para me livrar das jovens [raparigas]”. E, depois, acrescenta: “Como seria mais seguro e agradável o caminho havendo dois companheiros num negócio, que se amassem como irmãos?!” (1402).

 

A arte de cooperar e a arte do perdão
Times Square, Nova Iorque. © Miguel Veiga

“Sairemos desta crise e desta dor dos empresários, voltando a amar as pessoas do mundo.” Foto: Times Square, Nova Iorque. © Miguel Veiga.

 

Apesar das muitas desilusões que os companheiros lhe provocaram no decorrer da sua atividade comercial – “não há ninguém que não te traia 12 vezes por dia”, recordava-lhe, em 1386, a mulher Margherita – com a sabedoria dos antigos provérbios, concluía: “Quem tem companhia é senhor”. Para o mercador de Prato, a companhia é “o maior parentesco que existe” (1397), que compara a uma família e à relação entre irmãos. Quando uma amizade se quebrava, Datini convidava os seus sócios a praticar o perdão: “Salvo traição ou furto ou homicídio ou obscenidade ou adultério ou coisa iníqua a não perdoar, de todas as outras coisas o homem deve sempre procurar regressar ao amor do seu amigo” (1397).

A virtude cardeal do empresário é a arte de cooperar e a arte de cooperar não dura sem se aprender a essencial arte do perdão. Mesmo se as escolas de negócios de hoje, todas impregnadas pelas técnicas e pelos instrumentos e enfeitiçadas por metáforas erradas (as militares ou desportivas), esqueceram a força das virtudes gentis, as verdadeiramente essenciais para realizar esta difícil profissão.

O empresário sempre viveu e vive de muitas e diversas formas de vantagem mútua, é criador e consumidor da companhia e amizade, dentro e fora da empresa. Antes de mais, então, deveria educar-se e formar-se nestas virtudes; é este o carácter que deve cultivar. Praticando a gentileza, a amabilidade, investindo tempo, muito tempo, na escuta das pessoas, desenvolvendo todas aquelas artes que facilitam a criação e a manutenção dos bens relacionais, de que se compõe o primeiro ativo essencial, invisível mas realíssimo, da própria empresa, de que depende a sua primeira beleza. Francesco di Marco Datini sabia-o muito bem; nós temos de aprendê-lo de novo. Sairemos desta crise e desta dor dos empresários, voltando a “amar as pessoas do mundo”.

 

Luigino Bruni é coordenador da iniciativa A Economia de Francesco que decorreu em novembro sob impulso do Papa. Escrevendo regularmente no jornal italiano Avvenire, Bruni dedica esta série de crónicas (reproduzidas também no portal da Economia de Comunhão) à exigência de soluções criadoras para ultrapassar crises como a que vivemos, tomando o exemplo dos séculos XIV e XV, quando franciscanos e várias instituições católicas contribuíram para uma revolução económica e financeira na Europa. Este é o décimo primeiro dos textos da série que o 7MARGENS publica todas as quartas-feiras e sábados, aqui reproduzidos com autorização do autor.

Tradução: p. António Antão; revisão: p. António Bacelar; subtítulos do 7MARGENS.

 

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