O Mercado e o Templo (14): Quando a fragilidade se tornou uma virtude económica e civil

| 2 Mai 21

A beleza moral do empresário não depende apenas da sua capacidade, porque a riqueza é e permanece tragicamente efémera. A virtude continua a combater a sorte. A literatura é metáfora do espírito de um tempo e ajuda a compreender também a ética mercantil da Idade Média.

“Pode-se – e deve-se – ler documentos, material de arquivo, crónicas sobre a ética mercantil entre a Idade Média e o Renascimento e compreende-se alguma coisa.” Foto © António José Paulino.

 

A literatura é reveladora do espírito de um tempo. Se, então, a literatura é grande, o espírito que ela revela transcende o seu tempo e o seu espaço. Quando, porém, a literatura é imensa, o seu espírito é para sempre e para todos. Pode-se – e deve-se – ler documentos, material de arquivo, crónicas sobre a ética mercantil entre a Idade Média e o Renascimento e compreende-se alguma coisa. Depois, um dia, relêem-se a Divina Comédia e o Decameron e compreende-se outra coisa, algo que lança uma luz diferente também sobre os documentos e sobre as crónicas.

Dante foi imenso por muitas coisas, não pela compreensão da sua nova economia: “Ele é completamente surdo ao sentido da economia” (Ernesto Sestan, Dante e Firenze, 1967, p. 290). Apesar de muitíssimo próximo do movimento franciscano, não seguia a linha de Pietro di Giovanni Olivi e dos outros frades teólogos-economistas que, observando os mercadores nas cidades, estiveram entre os primeiros a compreender que nem todo o comércio era selvagem, que nem todos os empréstimos com juros eram usurários. Dante permanece antes ligado a Aristóteles (e talvez a S. Tomás) e, assim, não entra no séc. XIV e na nova dimensão económica do Humanismo, onde a arte do negócio foi também civilização e virtude cristã.

Dante, pelo contrário, olhou os mercadores com olhar aristocrático, com a saudade de uma Florença nobre que já o não era. Os cidadãos urbanizados, enriquecidos graças aos comércios e aos bancos, são, para Dante, a primeira causa da decadência moral da sua cidade, do abandono da “cortesia e valor”: “A gente nova e súbitos ganhos geraram em ti, Florença, orgulho e excessos de que tu temes a influência” (Inferno XVI, 73-75).

A sua Comédia é atravessada pelo louvor ao trabalho agrícola, pelos valores do campo, pela ordem social assente nas virtudes cavalheirescas. A sua cidade “produz e espalha a flor amaldiçoada” (Paraíso IX, 131), o florim, que estava a corromper costumes e virtudes. E com a expressão “mulheres da cunhagem” (Inferno XVIII, 66), Dante indica a prostituição ou, talvez, a falsidade: “Quando um engana o outro, diz-se cunhar” (Ottimo, 1334 aprox.).

Não encontramos nem sequer um mercador no seu Paraíso e, quando Cacciaguida, seu trisavô, louvar Cangrande della Scala, descendente de uma família de mercadores, fá-lo-á precisamente pela “sua virtude em não se importar com prata nem cuidados” (Paraíso XVI, 61).

Sabemos que Dante coloca os usurários no Inferno, entre os violentos “contra Deus, natureza e arte” – os usurários somam esta tríplice violência: a usura é negar a lei de Deus, é contra a natureza e é negação da antiga arte negocial. Encontra-os sentados no chão, como na vida, mas já não no piso das praças de Florença, sobre o seu tapete vermelho que os identificava, mas em cima da areia ardente. E as suas mãos, usadas, em vida, sem parar, para manejar o dinheiro, usam-nas, agora, para se defenderem dos lapilis de fogo, como animais que, com as patas, sacodem os insetos (Inferno XVII, 49-51). Ali, Dante encontra, juntamente aos usurários florentinos, também Rinaldo degli Scrovegni, famoso usurário de Pádua, cliente de Giotto. Para Dante, diferentemente de Santo Agostinho, as doações dos usurários, à hora da morte, não são suficientes para os salvar: permanecem no Inferno; aquelas ofertas nem o purgatório merecem. A riqueza mal ganha não resgata a vida, mesmo dando-a, no fim, em beneficência.

 

A conversão graças aos pecados e não apesar dos pecados

Boccaccio, no Decameron, vê um mundo já mudado que mostra, ainda mais, toda a sua magnificência. Foto: Barcelona. © António José Paulino.

 

No Convívio, a visão que Dante tem do negócio e da riqueza em relação à virtude é confirmada e mais argumentada: “Não virtude, mas negócio” (Convívio I, 8). Os mercadores são chamados miseráveis: “Quanto medo é o de quem sente a riqueza junto de si, caminhando, permanecendo, não vigiando mas dormindo, não tanto de perder o haver, mas a pessoa pelo haver! Sabem-no bem os miseráveis mercadores que andam pelo mundo”. A única virtude do dinheiro está em privar-se dele, mas em vida: “Virtude… que não pode ser possuindo aquelas [riquezas], mas deixando de as possuir… Então, o dinheiro é bom quando, transferido para outros pelo uso da generosidade, já não possui” (Convívio IV, XIII). Aqui está tudo Boécio, mas também Séneca e muitos Padres da Igreja.

Mas também, no tema da economia, Dante nos surpreende com um golpe de teatro – os autores enormíssimos são maiores que as suas ideologias. A moeda, desprezada e ícone do demónio, encontramo-la no Paraíso, até como metáfora da fé. No diálogo entre Dante e S. Pedro, lemos: “Nesta moeda, examinados metal e peso, muito bem tem sido. “Mas diz: na bolsa a tens arrecadado?” – “Sim” – tornei – “tão redonda é, tão polida, que do bom cunho estou certificado” (Paraíso XXIV, 83-87). Regressa aqui a tradição medieval do Christus monetarius, de Cristo especialista em câmbio, capaz de distinguir a verdadeira fé (moeda) da falsa. Desde há alguns anos, sabemos (Codice diplomatico dantesco, 2016) que o pai de Dante realizava, em Florença, o trabalho de cambista e de emprestador, talvez de usurário. Talvez, por isso, o olhar negativo de Dante sobre o dinheiro.

Com Boccaccio, o cenário muda drasticamente. Diferentemente de Dante, Boccaccio vive numa família de mercadores. Ele mesmo tinha exercido, em Nápoles, em jovem, o comércio e conhecia de perto o mundo mercantil, os seus mitos, a sua cultura, os seus vícios e as suas virtudes (Vittore Branca, L’epopea dei mercanti, 1956).

Dante olha de fora e com distância um mundo novo que ainda não compreende e teme, do qual vê os desequilíbrios; Boccaccio, poucas décadas depois, no Decameron, vê um mundo já mudado que mostra, ainda mais, toda a sua magnificência. Vê-o a partir de dentro e vê os seus vícios juntamente às virtudes. O mundo dos mercadores torna-se a melhor representação da comédia do seu tempo, já não uma comédia divina, mas totalmente humana e mercantil.

“A virtude vence a sorte”, que era, na Idade Média, o mote dos reis e dos cavaleiros, com Boccaccio é transferida, decididamente, para a comunidade dos mercadores, que são os protagonistas de quase todas as suas obras. As suas virtudes são, também e sobretudo, as dos mercadores. Logo no primeiro dia, Boccaccio, enquanto vê os vícios dos mercadores, não deixa de louvar o usurário hebreu Melquisedec (I, 3), pelo modo como tinha conseguido, com a sua inteligência, sair da armadilha em que o tinha colocado Saladino (qual das três grandes religiões era a verdadeira?). Na segunda história do primeiro dia, o mercador Giannotto de Civigni é definido “lealíssimo e reto e de grande movimento de tecidos” que tinha “singular amizade com um homem judeu, chamado Abraão, o qual também era bastante reto e leal” (I, 24). Giannotto enviou Abraão a Roma, esperando que se convertesse, conhecendo de perto a cidade dos cristãos. Mas Abraão, depois de ter visto os piores vícios da Igreja romana, voltando para junto do amigo, diz-lhe: “Vejo, continuamente, a vossa religião aumentar e tornar-se mais lúcida e mais clara; merecidamente parece-se discernir ser o Espírito Santo o seu fundamento e sustento. Por isso, te digo que por nenhuma coisa deixarei fazer-me cristão” (I, 2, 27). A sua conversão não acontece, apesar dos pecados que vê nos cristãos, mas graças a eles.

 

Armas de guerra, mercadorias de paz

“Gastar a vida por coisas que não controlamos e de que dependemos para viver, é algo de moralmente precioso.” Foto: Toscana, Itália. © António José Paulino

 

Também na Novela de Messer Torello (X, 9), o Saladino, disfarçado de mercador de Chipre e chegado a Pavia para colher informações sobre a preparação da próxima cruzada, dá-nos um belíssimo quadro também da generosidade e das virtudes mercantis. O comércio é mostrado como profissão alternativa à profissão das armas, revelando-nos também uma grande vocação da economia de todos os tempos: dos portos donde zarparam e zarpam armas de guerra, zarparam e zarpam mercadorias de paz.

E poderíamos continuar… Boccaccio vive na ambivalência do seu tempo mercantil. Sabe descobrir os seus vícios, como os de Musciatto Franzesi, “riquíssimo e grande mercador em França”, que não tem nenhum escrúpulo de servir-se do notário Ciappelletto, que “tantas questões perversamente ganhas a jurar, sobre a sua fé, dizer a verdade era chamado… Ele era, talvez, o pior homem alguma vez nasceu” (I, 1, 7-15).

Mas, enquanto descreve os vícios destes novos heróis, Boccaccio sabe ver neles também as típicas virtudes. Também isto é grandeza. Com ele, cai a ética clássica que remonta, pelo menos, a Aristóteles e era central em Dante: a sorte atinge apenas os bens exteriores e, assim, a virtude deve orientar-se apenas aos bens interiores da alma, os únicos que não são vanitas.

Para Boccaccio, pelo contrário, o esforço pelos bens exteriores pode ser virtuoso justamente por causa da sua vulnerabilidade e fragilidade. Porque comprometer-se e ocupar-se com algo de incerto e não seguro é mais louvável que comprometer-se com coisas inquebráveis e seguras. Portanto, gastar a vida no comércio, um bem de natureza frágil e sujeito à desventura e quase nunca regido pela lei do mérito, torna o comércio digno de louvor. Depender da sorte, estar conscientes disso, aceitar esta dependência e, muitas vezes, por sua causa, falir, é uma virtude dos mercadores. Estamos perante uma viragem da ética clássica aristotélica, de Cícero e do primeiro século cristão, que ainda tem muito a dizer-nos, hoje.

No século de Boccaccio, a consciência moral do Ocidente cristão transformou a exposição da riqueza de vício em virtude. E disse-nos algo de importante: há um valor ético em comprometer-se pelos bens frágeis. Quase todos os bens o são, nas são-no, sobretudo, os bens que não controlamos, porque dependem da lealdade e honestidade dos nossos colaboradores, da retidão dos nossos clientes e fornecedores, da não corrupção da política e dos nossos concidadãos, das infinitas variáveis dos mercados, sobre os quais não temos controlo. Esta fragilidade como normal condição dos mercadores, foi vista como qualidade moral.

Um empresário tem a sua beleza moral justamente porque não depende apenas da sua capacidade, porque a sua riqueza é, sempre e tragicamente, efémera. A virtude continua a combater a sorte, mas a virtude do mercador está na consciência de depender radicalmente da sorte que deve combater e que nem sempre consegue vencer. Um dia, na Europa, compreendemos que gastar a vida por coisas que não controlamos e de que dependemos para viver, é algo de moralmente precioso e que mover-se, todos os dias, na borda do precipício não é apenas uma habilidade técnica; é também uma excelência ética. E que a inevitável vulnerabilidade da vida, se aceite, pode tornar-se virtude civil.

 

Luigino Bruni é coordenador da iniciativa A Economia de Francisco que decorreu em novembro sob impulso do Papa. Escrevendo regularmente no jornal italiano Avvenire, Bruni dedica esta série de crónicas à exigência de soluções criadoras para ultrapassar crises como a que vivemos, tomando o exemplo dos séculos XIV e XV, quando franciscanos e várias instituições católicas contribuíram para uma revolução económica e financeira na Europa. Este é o décimo terceiro dos textos da série que o 7MARGENS publica todas as quartas-feiras e sábadosaqui reproduzidos com autorização do autor.
Tradução: p. António Antão; revisão: p. António Bacelar; subtítulos do 7MARGENS.

 

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