O Mercado e o Templo (2) – Não para amar o mundo, mas para cuidar do humano

| 20 Mar 21

Coordenador da iniciativa A Economia de Francesco, que decorreu em novembro sob impulso do Papa, o economista Luigino Bruni começou a publicar no jornal italiano Avvenire, onde escreve regularmente, uma série de crónicas sobre a exigência de soluções criadoras para ultrapassar crises como a que vivemos. Para isso, toma o exemplo dos séculos XIV e XV, quando franciscanos e várias instituições católicas contribuíram para uma revolução económica e financeira na Europa. Este é o segundo texto da série que o 7MARGENS está a publicar todas as quartas e sábados.

 

Montepios e Montes Frumentários[1] falam de uma finança
originária plural e de ações de equidade da Igreja.
Na Idade Média, contemplava-se o mistério divino no mistério humano
e não era o Papa, mas o pobre, o primeiro representante de Cristo na terra.

 

“Será interdito aos avaliadores aceitar presentes ou cortesias dos proprietários dos penhores ou de outras pessoas para dar às coisas um valor maior ou menor, mas deverão, nas suas incumbências, ser leais, justos e sinceros, sob pena de dez escudos por cada estimativa alterada”.
(Do Arquivo do Montepio de Imola)

 

Montepio

Piedade, símbolo cristão da assistência: Aqueles crentes eram capazes de dar o nome de “piedade” ao abraço mais íntimo entre o homem-Deus e sua Mãe. Foto © Miguel Veiga

  

O Renascimento, uma idade de ouro da Itália, não foi apenas o tempo de Miguel Ângelo, Leonardo, Leon Battista Alberti, Pico della Mirandola, Maquiavel e os Médicis. Foi uma idade extraordinária também pela ação de muitos franciscanos, construtores dos Montepios. Sem considerar este humanismo carismático, não compreendemos a Itália moderna e a Europa e não compreendemos o que foi a Igreja Católica entre a Idade Média e a modernidade. Estas diferentes instituições de crédito mudaram radicalmente a finança italiana desde meados do séc. XV até ao séc. XIX, quando aquelas sementes floresceram em Caixas Rurais e Caixas de Poupança. A banca, na Itália, nasceu plural e não para lucro.

Detenhamo-nos nas imagens dos Montepios. Antes de mais, a piedade[2], isto é, a imagem de Cristo morto nos braços de Maria. Porquê a piedade, como imagem dos edifícios, capelas, estandartes dos Montepios? Aquela imagem já era usada por entidades de assistência e pelos hospitais medievais. Simbolizava um dos momentos centrais da fé cristã, amadíssimo pelo povo que, naqueles séculos da vida conhecia sobretudo a dor, especialmente a das mães e das mulheres pela morte de muitos, demasiados, filhos e maridos. Estava representada em quase todas as igrejas e por muitos grandes artistas (Ticiano, Rubens, Miguel Ângelo). Um encontro entre a piedade cristã e a herdada dos romanos (o “pio” Eneias), que a ligava, sobretudo, ao cuidado dos filhos em relação aos pais idosos. O seu símbolo, o ícone, era o pelicano e a cegonha: a civilização romana chamou lex ciconiaria à lei que obrigava os filhos a cuidar dos pais, porque a lenda acreditava que as cegonhas o faziam. A piedade popular é sempre excedente em relação às teologias e aos dogmas das religiões.

Naqueles séculos, aquela cena central da fé era, portanto, traduzida como amor-piedade em relação ao próximo, especialmente para com os que sofriam. “O outro chorava de tal modo que eu morria de piedade” (Dante, Inferno, 5). A teologia tornava-se, imediatamente, antropologia; o próprio cristianismo revelava o rosto de Deus juntamente ao rosto do pobre. Aqueles crentes, muito mais interessados que nós pelo paraíso e pelo inferno, eram capazes de dar o nome de “piedade” ao abraço mais íntimo entre o homem-Deus e sua Mãe. Contemplava-se o mistério divino e amava-se o mistério do homem. Nisto, a Idade Média foi toda luz. Assim, para os franciscanos, mestres de piedade e de caridade, foi natural ver, no nascimento dos diferentes Montepios, um fruto da mesma raiz de piedade e de misericórdia – piedade, caridade e misericórdia, três palavras diferentes para a teologia, profundamente entrelaçadas e sobrepostas na piedade popular.

É fantástica a imagem mais popular de Bernardino de Feltre, que o representa ao lado de um Montepio e tendo na mão duas faixas com duas frases do Novo Testamento (em latim). A primeira: “Não ameis o mundo” (1 João 2, 15). A segunda: “Trata bem dele” (Lucas 10, 35). Duas frases que, juntas, mostram o humanismo dos Montepios. Não amavam nem seguiam a lógica do mundo (que, em João, é símbolo do mal) embora cuidassem dele. “Trata bem dele” é, de facto, a frase com que se conclui a parábola do Bom Samaritano, quando ele confia o homem ao estalajadeiro: “Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar”. Uma frase perfeita para o Montepio porque, ali, o Evangelho de Lucas associa um empresário (o estalajadeiro) ao ato de piedade mais bonito do Novo Testamento. O samaritano não pede ao estalajadeiro para hospedar grátis a vítima – segundo uma certa lógica, também o poderia e deveria fazer. Não: reconhece um preço justo a pagar a quem fazia o seu trabalho e aqueles seus “dois denários” fazem reconciliar a piedade com a economia – se os únicos denários dos Evangelhos fossem os trinta de Judas, teria sido uma péssima mensagem para todos os que têm de usar dinheiro para viver e fazer viver. Talvez não fosse intencional, mas, naquelas duas frases da bandeira está também o cerne da batalha dos franciscanos em favor do pagamento de uma taxa de juros sobre os empréstimos do Montepio.

 

Procissões sem festejar os pobres perdem o perfume do Evangelho
Ardina

Na Idade Média, o primeiro representante de Cristo no mundo não era o Papa; era o pobre. Foto: Monumento ao Ardina, em Lisboa. © Miguel Veiga

 

Há outros pormenores que enriquecem aquela primeira etapa fonte da finança solidária. O dia em que, após um longo período de preparação – frequentemente, o processo começava com as pregações dos frades, em tempo de Quaresma – o Banco, finalmente, era inaugurado, a comunidade fazia uma procissão da igreja franciscana para a sede do banco, com raparigas que cantavam e crianças vestidas de branco com o estandarte do Montepio na mão. Esplêndido.

Pietro Avogadro descreve uma, realizada em Verona, em 1490: “É levada em procissão, ao som de trombas e de flautas, para o Montepio, uma imagem feita com tal perícia artística e génio tão admirável a ponto de ser considerada, sem dúvida, entre as obras de arte mais raras. A obra apresentava-se com uma ampla base formada por telas. Os lados continham os símbolos de todas as virtudes, de admirável esplendor; no centro, a Pietà, o corpo inanimado de Jesus nos braços da mãe; depois, o apóstolo predileto. Auxiliavam este rito tão sagrado, trinta homens ligados ao culto, que transportavam a imagem do próprio Montepio, mostravam este momento altamente sagrado, com a maior edificação de todos”.

Procissões sagradas, bonitas e solenes como as procissões em honra do santo padroeiro, de Nossa Senhora ou do Corpo de Deus. Para aqueles franciscanos e para aquele povo, uma procissão para fundar um banco não era menos sagrada que as outras funções – não esqueçamos que, na Idade Média, o primeiro representante de Cristo no mundo não era o Papa; era o pobre. Também um banco diferente pode tornar-se um pedaço de paraíso. As procissões para festejar a Eucaristia ou os Santos que não são alternadas com procissões para festejar os pobres rapidamente acabam por perder o perfume do Evangelho. Também isto mostra a força profética do carisma de Francisco.

Tudo isto no Centro-Norte de Itália. E no Sul? No Reino de Nápoles, os Montepios tiveram a maior difusão sobretudo a partir dos inícios do séc. XVII (embora o Montepio de Aquila tenha surgido entre os primeiros, em 1466), também após uma longa e dura crise económica. Com duas características: não nasceram sempre nem sobretudo dos franciscanos nem de eclesiásticos, e eram quase todos com empréstimos gratuitos, embora a Igreja tenha tornado lícito, com a bula de Leão X, em 1515, a taxa de juros dos Montepios.

Sendo, geralmente, pequenas instituições, quase sempre sediadas no Convento ou nas paróquias, não tinham grandes despesas e, quase sempre, eram subsidiadas por instituições filantrópicas. Esta “gratuidade” absoluta não favoreceu a duração nem o crescimento dos Montepios no sul; pelo contrário, complicou-os. Escrevia Antonio Genovesi: “Por inícios do séc. XVI, começaram, nalguns lugares de Itália, os montes chamados de Piedade. Alguns homens, amantes da humanidade, para aliviar estas sanguinárias usuras, criaram postos privados, com pequenos fundos, em que se emprestavam pequenas quantias gratuitamente e as maiores com não muito juro. Estes montes foram, inicialmente, administrados com escrupulosa fidelidade, como são todos os primeiros estabelecimentos humanos criados no fervor da virtude” (Lições de Economia Civil, 1767).

Mas no Sul, também por causa de sua estrutura económico-produtiva, desenvolveram-se, sobretudo, os Montes Frumentários (ou montes granáticos, ou montes numerários na Sardenha, e com nomes parecidos também noutros países católicos da Europa). Eram instituições de crédito rural que tiveram, também graças ao grande impulso dado pelo Papa Orsini (Bento XIII), nascido em Gravina de Puglia (fundou o primeiro quando ainda era bispo de Benevento, em 1678). Também o franciscano lucerino, S. Francesco Antonio Fasani (1631-1742) se dedicou ao nascimento do crédito para os pobres. Este trigo foi honrado com o mesmo cuidado do maná e do pão eucarístico, porque também este pão fazia viver.

 

O trigo como dinheiro

Eram muitas as formas que a piedade credora tomou em Itália, naquele renascimento civil e económico. Foto: sede do Montepio Geral, em Lisboa, com o pelicano, símbolo dos Montepios. © Miguel Veiga.

 

Os Montes Frumentários usavam o trigo como dinheiro. Por vezes, nasciam como entes complementares dos Montepios (que forneciam crédito monetário). De facto, eram muitas as formas que a piedade credora tomou em Itália, naquele renascimento civil e económico. Entre estas, os Montes dos Dotes, Montes das Donzelas, Montes Matrimoniais que nasciam com o objetivo principal de garantir um dote às raparigas mais pobres.

Na segunda metade do séc. XVIII, no Reino de Nápoles, contavam-se mais de 500 Montes Frumentários, encorajados e sustentados pelos principais teóricos da Economia civil (A. Broggia, G. M. Galanti, J. B. Jannucci, D. Terlizzi de Feudis). Os Montes Frumentários não eram a título gratuito, até porque o juro em géneros sempre foi menos controverso que o juro em moeda. Os camponeses recebiam o trigo “com medida rasa” (do recipiente) e restituíam-no “com medida acrescida” e a diferença entre as duas quantidades era o juro, estimado, em média, à volta dos 5%.

Os Montes Frumentários desenvolveram-se como superação de um contrato agrário, chamado “de voz”, muito difundido no Sul, já na Idade Média. Este contrato era para os camponeses particularmente vexatório e usurário e alimentava formas de parasitismo e de exploração nas relações com os trabalhadores da terra. Foi Trojano Odazi, aluno de Genovesi e organizador da edição milanesa das suas Lições (1768), a demonstrar que o contrato “de voz” era um contrato cabresto.

De facto, naqueles contratos, o mercador, que possuía a preciosa liquidez, antecipava ao camponês dinheiro no momento de sementeira. Estes comprometiam-se a entregar ao mercador uma quantidade de trigo (ou de azeite, vinho, queijo) no momento da colheita. No contrato não era estabelecido o preço, porque seria aquele “de voz”, isto é, o anunciado na praça (as mais importantes eram Crotone, Gallipoli, Potenza) no tempo da colheita. Mas, obviamente, o preço de um produto, no momento da colheita, é baixo, havendo um excesso de oferta; e, assim, sobre aquela antecipação em dinheiro recebido, o camponês acabava por pagar um juro à volta dos 100% (ao semestre).

A observação destas injustiças levou os franciscanos, bispos e homens de boa vontade a imitar os profetas: ver, denunciar, agir.

Hoje, novos “contratos de voz” não faltam na nossa finança pós-moderna. Diferentemente dos séculos passados, estes contratos vexatórios não são visíveis a olho nu. Mas existem. O que nos falta são novos franciscanos, bispos e homens e mulheres de boa vontade que criem novos Montes Frumentários. Existem alguns, mas são demasiado poucos.

Um dos lugares que hospedou, de 19 a 21 de Novembro, A Economia de Francesco, foi o velho Monte Frumentário de Assis. Um sinal, uma esperança, ainda o mesmo apelo: “Trata bem dele”.

 

Luigino Bruni é o coordenador científico da iniciativa A Economia de Francesco; este texto foi publicado inicialmente no jornal Avvenire e na página da Economia de Comunhão e é aqui reproduzido com autorização do autor; tradução: p. António Antão; revisão: p. António Bacelar; subtítulos do 7MARGENS.
Próximo texto: Quarta, 24: A natureza dos lucros e o discernimento dos franciscanos – Há também um lucro bom.

 

Notas
[1] Monti frumentari (it): foram estabelecidos no final do século XV, em Itália, a fim de distribuir aos agricultores pobres, com a obrigação de devolver, o trigo e a cevada que precisavam para semear (NdT).
[2] Monti di Pietà (it) que traduzimos como Montepios ou, literalmente ‘Montes de piedade’ (NdT).

 

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