O Mercado e o Templo (5): E a livre pobreza franciscana deu verdadeiro valor ao dinheiro

| 31 Mar 21

A recusa de qualquer riqueza pelos seguidores do Santo de Assis produziu inovações económicas fundamentais e manteve viva uma profecia ainda capaz de futuro. Os frades, não sendo utilizadores do dinheiro, tornaram-se mestres de uma outra economia, porque existem as moedas de Judas e as do Bom Samaritano.

Moedas antigas de escudo. © António José Paulino.

“A venda de todos os seus bens é vivida, pelo jovem Francisco, como libertação de todo o peso.” Foto: Moedas antigas de escudo. © António José Paulino.

 

A altíssima pobreza de Francisco foi algo de único na história. Um amor louco, absoluto, totalmente imprudente, o anti bom senso. Uma recusa radical do dinheiro e que gerou a mais profunda compreensão da natureza da economia.

No princípio da vocação de Francisco está o dinheiro. Na sua última venda “aparelha um cavalo, monta-o e, levando consigo tecidos vermelhos, parte veloz para Foligno. Ali, conforme o seu hábito, vende toda a mercadoria e, mercador feliz, até o cavalo! No caminho de regresso, liberto de qualquer peso, pensa na obra a que destinar o dinheiro” (Celano, Vita Prima, 333-4). Liberto de qualquer peso: a venda de todos os seus bens é vivida, pelo jovem Francisco, como libertação de todo o peso. Felix Mercator: Francisco liberta-se de pouco, porque quer tudo. Nunca se viu uma taxa de juro mais alta. Quando o sacerdote de São Damião recusa o seu dinheiro, Francisco, “verdadeiro desprezador da riqueza, atira-lho por um postigo” (335).

Na Regra de 1221, Francisco diz-nos em que sentido era um “verdadeiro desprezador da riqueza”. Ali, como nos explicou Paolo Evangelisti (a quem agradeço), no seu ensaio fundamental “O dinheiro franciscano, entre norma e interpretação”, a relação dos frades com o dinheiro ocupa um lugar central: “Nenhum frade, em nenhuma circunstância, tenha consigo ou receba de outros ou permita que seja recebido pecúnia ou dinheiro… porque não devemos ter nem atribuir à pecúnia e ao dinheiro maior utilidade que às pedras” (Regra não selada, Cap. VIII). Dinheiro e pecúnia, isto é, moedas e qualquer bem com um valor de troca.

Os frades são rapidamente definidos como homens “alheios ao dinheiro”. Os franciscanos não tinham apenas a proibição de receber moedas: nem sequer lhes podiam tocar com as mãos, nem com um pedaço de madeira, nem levá-las no alforge nem no capuz. Como se a moeda fosse coisa impura. Portanto, uma recusa radical, total, absoluta.

Os primeiros franciscanos comentadores da regra de Francisco (Ugo di Digne, Boaventura, Olivi…) debruçaram-se muito sobre a proibição de receber e manusear dinheiro, porque o consideravam um elemento fundamental da identidade franciscana, um atributo essencial da natureza do seu carisma. Nas primeiras gerações de franciscanos, a estranheza ao dinheiro e à pecúnia foi total, radical, incondicional: como Francisco interpretou o evangelho sine glossa (à letra), também os franciscanos procuraram interpretar Francisco sine glossa. E salvaram-no.

E, assim, enquanto o dinheiro invadia as cidades europeias, enquanto os leigos franciscanos manuseavam moedas todos os dias, os mosteiros continuavam a crescer nas suas propriedades, as igrejas e as catedrais brilhavam pela sua magnificência, os franciscanos permaneceram, com todas as suas forças, agarrados ao pináculo da sua altíssima pobreza e fizeram dela o seu primeiro prestígio.

 

Credibilidade pauperista, o grande objetivo
Convento franciscano do Varatojo, Torres Vedras. © António José Paulino

“Não só os conventos não devem possuir nada como não deve haver qualquer recipiente para as moedas.” Foto: Convento franciscano do Varatojo, Torres Vedras. © António José Paulino.

 

A credibilidade pauperista, entendida como separação do dinheiro, torna-se o grande objetivo do movimento franciscano. Tudo era sacrificado para a conservar, pois era claro que a profecia franciscana desapareceria se desaparecesse a altíssima pobreza, traduzida como via não-monetária. A começar pelo hábito, a que Francisco, na Regra, tinha dedicado uma atenção especial (de “preço e cor desprezíveis”). O hábito não faz o monge, mas o hábito faz o frade: “E todos os frades usem vestes humildes e seja-lhe permitido remendá-las com pano de saco e de outras peças” (cap. III).

Não só os conventos não devem possuir nada mas, nas suas igrejas, sóbrias em arquitetura, nas decorações e nos campanários não torreados, não deve haver qualquer recipiente para as moedas. Uma obsessão pelo dinheiro, podemos mesmo dizer, que envolvia também o trabalho dos frades.

Lemos ainda na Regra: “Os frades que são trabalhadores, trabalhem e exerçam a profissão que já conhecem… E, pelo trabalho prestado, possam receber tudo o necessário, exceto dinheiro” (VII). Porquê?  Qual a razão deste distanciamento absoluto da moeda? Não é simples responder porque, no coração dos grandes carismas, encontra-se um véu que torna imperfeita a visão da sua intimidade mais secreta. No entanto, algo se pode intuir, sobretudo, explorando a tradição dos primeiros séculos do franciscanismo. Fra Bartolo de Sassoferrato, por exemplo, oferece-nos alguns elementos. Ao reiterar que o frade que trabalha tem direito à recompensa, não exclui só a recompensa em dinheiro; exclui também a possibilidade de estabelecer um contrato para fixar montante da recompensa: “Contanto que não estipulem um contrato ou um acordo, tendo como objeto uma mercadoria” (citado in Evangelisti, p. 258).

Uma segunda proibição esta, que se nos apresenta como bizarra, sobretudo se vista com os nossos olhos. Mas podemos avançar uma hipótese. Estabelecer uma recompensa pelo trabalho, isto é, antes do trabalho ser realizado, podia levar o frade a fazer do dinheiro a razão do seu trabalho; a recompensa podia tornar-se a motivação para a obra. Temos aqui, talvez, a primeira raiz da distinção entre incentivo e prémio: a recompensa (não monetária) apenas podia ser aceite se fosse um prémio, não um incentivo.

De facto, o prémio é a recompensa por um comportamento virtuoso que seria efetuado, mesmo sem o prémio; por seu lado, o incentivo é a razão de uma determinada ação, que não nasceria sem aquele incentivo.  Portanto, o prémio é um encontro de reciprocidade e de liberdade e requer em quem atue uma componente essencial de gratuidade. Ao ponto de a recompensa, para os franciscanos, não dever ser certa e de, ao frade que não recebia uma recompensa por um trabalho, recomendar-se o recurso à esmola.

Isto permite-nos capar uma dimensão essencial, também no nosso trabalho, hoje totalmente esquecida. Os antigos franciscanos, ao afirmar que a recompensa não deve ser a motivação do trabalho, dizem-nos que o nosso salário, hoje, não pode ser a única e nem mesmo a primeira motivação do nosso trabalho: e quando o é, o trabalho perde liberdade.

 

Todo o bem é comum
Museu do Dinheiro, Lisboa. © António José Paulino.

“Os bens públicos são indivisíveis como a segurança nacional ou a atmosfera: não é possível dividir o bem, porque todos os utilizadores ‘usam’ todo e o mesmo bem público.” Foto: Museu do Dinheiro, Lisboa. © António José Paulino.

Uma outra chave para entrar no paradoxo monetário franciscano é-nos oferecida por Fra Angelo Clareno, outro grande mestre franciscano: “Eu chamo comunhão à vida perfeitíssima à qual é estranha qualquer posse pessoal”. Os bens humanos, segundo o frade das Marche, como as riquezas dos anjos “não são um bem delimitado, não são um bem que é preciso distribuir entre muitos e dividi-lo” (citado in Evangelisti, pp. 226-7).

Aqui, estamos perante uma outra inovação teórica muito importante, talvez diante da primeira definição dos bens a que a teoria económica (Paul Samuelson) chama “bens públicos”, que são uma espécie de bens comuns. A primeira característica dos bens públicos é, de facto, a indivisibilidade porque, como acontece com a segurança nacional ou com a atmosfera (bens comuns típicos), não é possível dividir o bem e confiá-lo aos diversos consumidores, porque todos os utilizadores “usam” todo e o mesmo bem público: “Por isso, estes bens, permanecendo íntegros perante os indivíduos, tornam igualmente todos ricos de modo que não dão motivos de apropriações individuais, sujeitas a controvérsias e a contestações” (Clareno).

Eis-nos chegados ao centro do nosso discurso. A revolução franciscana consistia em tratar os bens como bens públicos e comuns: todo o bem é comum; logo, um bem indivisível e não apropriável pelo sujeito individual. De tal modo público que pertence a todos e não apenas à comunidade franciscana. Regressa a fraternidade cósmica do Cântico do irmão Sol, expressa também noutras passagens da Regra e das Constituições: “Os frades, onde quer que estejam, nos ermos ou noutros lugares, tenham cuidado de não se apropriar de algum lugar e não o disputar com ninguém” (Regra, VII).

A proibição absoluta de manusear dinheiro e de ser proprietários de alguma coisa (sine proprio) era, portanto, uma via mestra para conservar esta dimensão “pública” essencial de todos os bens. É a apoteose da gratuidade: renunciar a uma capacidade e liberdade humana (usar dinheiro), que é parte do repertório da cada ser humano adulto, para se tornar garante e guarda de um valor comum. Francisco, como sentinela da vocação comum e não apropriável dos bens da terra: “Desejam não possuir nada, nada ter de seu, mas possuir, juntos, tudo” (Clareno).

Mas há mais alguma coisa a dizer. Os franciscanos da primeira e segunda hora, renunciando ao preço, descobriram o valor das coisas. Tornaram-se especialistas de estimativas económicas, de tributação, de mercado, conselheiros dos políticos para a dívida pública, teóricos da moeda.

 

A “cerca” que fez ver o infinito 
Foto: Convento franciscano do Varatojo, Torres Vedras. © António José Paulino

A dimensão absoluta de gratuidade fez dos franciscanos grandes especialistas e conhecedores da moeda e da economia, teórica e prática; foi a cerca que os fez ver o infinito. Foto: Convento franciscano do Varatojo, Torres Vedras. © António José Paulino.

Poucos, como os franciscanos dos séculos XIII e XIV, escreveram sobre economia e até mesmo de finanças. Aquela “cerca” fê-los ver o infinito. Justamente esta dimensão absoluta de gratuidade – “a fonte não é para mim” – fez dos franciscanos grandes especialistas e conhecedores da moeda e da economia, teórica e prática. Não sendo utilizadores, tornaram-se mestres de dinheiro: a grande produtividade da verdadeira castidade. E, com o passar dos séculos, observando os mercadores verdadeiros, compreenderam que o dinheiro não é apenas o de Judas porque, no Evangelho, existem também os dois denários do Bom Samaritano, que manuseava dinheiro e, assim, pode utilizá-lo ao serviço da fraternidade. Não usando o dinheiro, compreenderam o dinheiro; renunciando radicalmente à riqueza, compreenderam a riqueza; sendo mercadores para o reino dos céus, compreenderam os mercadores dos reinos da terra – e alguns destes mercadores compreenderam e continuam a compreender Francisco.

As centenas de Montepios que os Franciscanos Menores fundaram (sem serem os seus proprietários), a partir da segunda metade do séc. XV, não teriam nascido sem aquela fidelidade total ao não uso do dinheiro. Aqueles bancos diferentes foram o ancoradouro maduro daquela antiga castidade, daquela sua enorme competência florescida da proibição não negociável de manusear dinheiro: não podendo manuseá-la por si mesmos, usaram a sua competência apenas para o Bem comum. No hino em verso, composto por ocasião da morte do franciscano Marco de Montegallo, lemos assim: “Graças a ti, resplandecem os Montepios nas ilustres cidades de Itália. Fundaste os Montepios para aliviar os pobres” (Vicenza, 1496).

Se, em 2020, oitocentos anos depois da Regra não selada, milhares de jovens economistas se encontraram em Assis em redor de Francisco, se puderam repetir “todos os bens são bens comuns”, é porque, durante séculos, os franciscanos fizeram o possível e o impossível para salvar a sua altíssima pobreza, para não perder o seu tesouro maior: a credibilidade pauperista.

Rapidamente, sofreram condenações eclesiásticas, conheceram heresias, muitos fracassos e acusações de ingenuidade mas, sobretudo, tiveram fé no dado mais paradoxal do seu carisma. E, assim, salvaram-se a si mesmos e a muitos outros. O que torna vivas e duradouras as profecias é a resiliência às sábias recomendações da prudência. Os carismas só são salvos por quem os vive sine glossa, por quem lhe guarda as recomendações, evitando que sejam sugadas pelas ótimas razões do bom senso.

 

Luigino Bruni é coordenador da iniciativa A Economia de Francesco, que decorreu em novembro sob impulso do Papa. Escrevendo regularmente no jornal italiano AvvenireBruni dedica esta série de crónicas (reproduzidas também no portal da Economia de Comunhão) à exigência de soluções criadoras para ultrapassar crises como a que vivemos, tomando o exemplo dos séculos XIV e XV, quando franciscanos e várias instituições católicas contribuíram para uma revolução económica e financeira na Europa. Este é o quinto dos textos da série que o 7MARGENS publica todas as quartas-feiras e sábados, aqui reproduzidos com autorização do autor.
Tradução: p. António Antão; revisão: p. António Bacelar; subtítulos do 7MARGENS.

 

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