
“Alik Martin depressa esqueceu as rotinas como administrativo numa empresa da Ucrânia e se entregou corajosamente ao trabalho duro das obras, primeiro em Peso da Régua, depois por Lisboa.” Foto: Direitos reservados.
Na primavera de 2001, o ucraniano Alik Martin desembarcou em Lisboa à procura de uma vida melhor.
Em Kyiv deixara os pais, uma parte da família mais chegada, a sua casa e o seu emprego. Na Ucrânia era cada vez mais difícil sobreviver. A grave crise económica “empurrava” centenas de milhares de ucranianos para fora do país. A maioria vivendo com salários mensais inferiores a 100 euros, encontrava nos países da União Europeia, entre os quais Portugal, uma alternativa para melhorar a sua qualidade de vida.
A imigração ucraniana ocupava então o primeiro lugar na lista das pessoas que vinham da Europa de leste para Portugal. Muitas pretendiam apenas permanecer um curto período em Portugal, outras optaram por uma estada mais prolongada, acabando por ficar aqui a residir permanentemente.
Alik Martin depressa esqueceu as rotinas como administrativo numa empresa da Ucrânia e se entregou corajosamente ao trabalho duro das obras, primeiro em Peso da Régua, depois por Lisboa. Até que resolveu “agarrar” a oportunidade de trabalhar numa fábrica de produtos alimentares, ainda que sem contrato.
Aprendeu português, partilhou o arrendamento de uma casa na Ajuda com outros conterrâneos e fácil e rapidamente se adaptou a uma nova cultura de trabalho, bem diferente da ucraniana e a outros aspetos da vida em Portugal que o encantaram: o sol e o clima, a comida e a cordialidade de grande parte dos portugueses.
E assim instalado se manteve até receber uma proposta de rescisão da fábrica onde trabalhava. Em tribunal, ainda conseguiu um acordo para receber uma pequena indemnização. Mas toda a estabilidade que conquistara até aí começou a decair e a sua vida a tornar-se mais difícil dia a dia.
Alik, contudo, não parou de se oferecer para trabalhar. E fez de tudo um pouco. Pintou paredes, trabalhou nas obras, concertou torneiras, montou móveis, arranjou persianas, restaurou chãos, fez cursos de formação. Às vezes com mais, outras vezes com menos dificuldades e recorrendo aos apoios possíveis, lá foi conseguindo sobreviver em Portugal.
E assim permaneceu, como uma espécie de ‘faz tudo, servindo os mais diferentes clientes.
Foi nessa “qualidade” que o conheci, quando precisei de alguém para fazer alguns arranjos em minha casa. Passou a ser a solução para tudo o que se estragava. Lá vinha o Alik, disponível e eficiente para reparar o que fosse preciso. Com a sua simpatia e sentido de humor (mesmo nos períodos de maiores dificuldades) caiu nas boas graças de toda a família. Sabia de música, de arte e de política. Tornou-se um amigo, o nosso amigo Alik, ucraniano mas que, por força dos anos que já aqui vivera, também já pertencia a Portugal.
No ano passado, Alik telefonou-me pedindo ajuda. Recebera uma carta do senhorio, dizendo que precisava da casa e dando-lhe um prazo para sair. Não havia como contestar legalmente a ação.
Aos 60 anos, sem trabalho fixo e sem dinheiro, decidiu que não lhe restava outra solução senão sair e tentar a sorte noutro país.
Ainda visitou a Ucrânia destroçada pela guerra, à procura de uma hipótese de trabalho. Mas lá, também já não havia lugar para ele.
Alik Martin tomou então uma decisão corajosa: vendeu móveis, eletrodomésticos, roupas, tudo o que tinha e partiu apenas com uma mala rumo à Irlanda onde tenta reiniciar a vida com apoio de um amigo. Não tem sido nada fácil. Há dias telefonou-me: “Não está fácil. Já não tenho 20 anos, a energia já não é a mesma. ´E sinto muitas saudades de Portugal, sobretudo do sol e da praia.”
Talvez Alik consiga voltar no Natal. Diz ele.
Quanto não lhe devemos nós pela vida a que ainda tem direito?









