O meu divórcio e o voto de pobreza

| 20 Dez 2021

Ordenação de novos jesuítas na Sé Nova de Coimbra. Foto © Ricardo Perna

 

Chegámos à conclusão de que os nossos feitios não se davam e que nenhuma das partes tinha interesse em prolongar tão sofrida paciência. Assim foi que abandonei a Companhia de Jesus, depois de 15 anos em que ela me enriqueceu espiritual e intelectualmente. Tudo a bem, mas não sem dor da minha parte. Por muito que o famoso voto de obediência me incomodasse, gostava daquela companhia. E quantos amigos ganhei durante esses anos! Aliás, continuo a tirar proveito desse passado. Enfim: um divórcio bem sucedido.

Foi nas meditações de quem entra numa nova vida (em 1967) que me dei conta do valor dos meus votos; e que, entre todos, o mais precioso e fundamental para uma vida 100% humana era o voto de pobreza.

Antes do divórcio, não tive razão de muitas queixas quanto ao voto de pobreza. Não faltaram férias, passeios (sobretudo a pé, o que me facilitou o serviço militar), livros, filmes… E o tempo era tão bem aproveitado que não dava para desejar coisas próprias da sociedade de consumo. O que mais me terá custado foi não ter a pasta de dentes ou sabonete preferido e ver (só nos primeiros anos) o meu querido relógio de pulso a ser usado por outro colega. O desprendimento em pequenas coisas.

A pobreza era uma constante ao longo de todo o dia, no que quer que fizesse. Gerava o desprendimento fundamental de todos os benefícios ou qualquer vantagem pessoal decorrente das acções. O que ocupava todo o meu esforço era fazer o melhor possível aquilo que tinha a fazer ou que achava ser bom e (por que não?) agradável de fazer.

Não precisava de ganhar dinheiro (que não faltava para o que fosse conveniente): todo o ganho era ter contribuído para um mundo com valores mais altos, o que incluía melhor justiça, melhor organização social, melhor entendimento entre as pessoas conhecidas ou totalmente desconhecidas, sem as avaliar pelo aspecto físico, tipo de trabalho ou região de origem. Podia ter essa liberdade espiritual porque não nos faltavam os meios necessários para uma formação de topo: desde viagens de formação a uma vasta gama de material de apoio mais o incentivo de mestres e companheiros.

Era a concretização do riquíssimo sentido de “pobreza”. O “dinheiro” não é um Deus mas o meio mais flexível de investir no desenvolvimento de cada pessoa, o que inclui o ambiente mais agradável possível – que, por sua vez, permite a capacidade de investir no pleno desenvolvimento da sociedade.

Ao longo da vida, como professor funcionário público, vi bem como igual vencimento não indicava igual “sentido da pobreza” a que me refiro. E reparei melhor como a ganância de dinheiro corrompe e mesmo impede a elaboração e execução de projectos movidos por esse espírito de pôr em primeiro lugar o enriquecimento da sociedade e, portanto, das potencialidades e bem-estar de cada pessoa. E também que um projecto tem que ser cuidadosamente elaborado, com discernimento aplicado a todos os factores intervenientes, dando muita importância aos efeitos secundários (onde se esconde o dinheiro egoísta).

E mesmo que o projecto não seja exequível, deve continuar a ser uma fonte de ideias e informações. Projectos como deve ser custam dinheiro… e por isso não podem ser deitados fora só porque não são “politicamente correctos” ou porque são “demasiado correctos”…

Qual foi o projecto de Jesus? Para já, a crer nas histórias (meio lendárias) do nascimento, mostrou, pela sua vida, que não é preciso “nascer rico de dinheiro”. Então, rico de quê? A resposta envolve a história da Humanidade e a responsabilidade cultural de todas as sociedades. Ainda hoje se discute se o Reino de Deus pode ter um sentido preciso. Vale a pena meditar por que é que o Papa Francisco fala tanto de pobreza como condição absoluta para uma Igreja credível, assente na autoridade (que tem a mesma raiz indo-europeia de aumentar) e não no poder ou grandiosidade. Sem “espírito de pobreza”, ninguém está apto para dedicar a vida a cuidar do desenvolvimento e investimento do que é ser religioso.

E que estas linhas se transformem num cartão de Boas Festas.

 

P.S. – A revolução franciscana ou a resposta que veio de longe

 

 

Nada mais nada menos do que de 1906.

Acabara de enviar esta reflexão precedente quando um amigo me veio oferecer as maravilhosas Divagações de um Terceiro, do muito ilustre pensador aveirense Jaime de Magalhães Lima. Publicadas pelo autor em 1906, e reeditadas pela Câmara Municipal de Aveiro em 1956, com um prefácio do bispo D. João Evangelista de Lima Vidal. São uma longa meditação sobre “a revolução franciscana”, que Magalhães Lima chegou a partilhar com o bispo de Aveiro. O Santo de Assis era para ele o grande revolucionário de toda a civilização na sua complexidade. E logo nas primeiras páginas, enriqueceu deste modo a pobreza das minhas perguntas latentes:

Porque além de uma religião e de uma moral, além de uma solução das nossas responsabilidades com Deus e com os homens, esse princípio da pobreza determina uma ordem das coisas sob a nossa dependência, prescreve uma ciência, uma higiene e uma estética, e sobretudo uma economia, só por si regrando uma disposição perfeita das realidades terrenas, de harmonia com as realidades psicológicas imperativas que previamente a exigiram e traçaram. O que para o Santo fora em seu arrojado início um ímpeto de amor cristão, tinha de ser e foi, pela expansão natural da sua energia o princípio e base de uma filosofia, e o alento de uma arte, e o largo e inabalável alicerce de um sistema económico das sociedades, mais seguro em seus bens que quantos outros diversos havíamos conhecido.

Usando palavras do “meu” comentador, a ruptura dos “esponsais da Igreja da Idade Média com a pobreza” quebrou o florescimento de uma nova civilização.

Em toda a conjuntura, porém, a condição económica será o índice e o definidor da condição religiosa, e a religião esvai-se em mero delírio e inanidade final, se não logrou transfundir-se no governo constante da nossa existência concreta e se não lhe deu uma forma, não só expressiva e simbólica, confessando a aspiração íntima, mas também activa e tangível, impondo uma ordem das coisas tangíveis.

Bem-haja, meu ilustríssimo amigo e que nos continue a acompanhar nessa eterna Boas Festas e nesse eterno Ano Novo.

 

Manuel Alte da Veiga é professor aposentado do ensino universitário.

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