O meu reino é deste mundo – os cristãos nos protestos pró-democracia de Hong Kong

| 14 Set 19

Joshua Wong, durante uma das manifestações pró-democracia deste Verão, em Hong Kong: “Há um consenso generalizado sobre o bem comum”, diz. Foto © Iris Tong/Wikimedia Commons

 

Um rapaz franzino, de 22 anos, cabelo em franja, numa escala entre Taiwan e uma esquadra de polícia, aterrou, esta semana, numa conferência do jornal alemão Bild. No final de um breve discurso sobre direitos humanos, proclamou, frente ao ministro dos Negócios Estrangeiros alemão: “Se estamos a viver uma nova Guerra Fria, Hong Kong é a nova Berlim”. O rapaz franzino é Joshua Wong.

O adolescente é a estrela da revolta dos guarda-chuvas amarelos, o movimento que, há cinco anos, paralisou por 79 dias as ruas de Hong Kong. Desde então passou uma temporada num instituto correcional de menores, sofreu detenções várias, fundou um partido e surge agora transformado em ícone geracional de uma cidade que há três meses desafia, abertamente, o poder da República Popular da China.

A gota de água foi uma proposta de lei de extradição de suspeitos para a China apresentada pelo Governo de Hong Kong, no Conselho Legislativo, o parlamento local. Mas, na origem da tempestade, esteve um crime passional.

A 8 de Fevereiro de 2018, um rapaz e uma rapariga saíram de casa, em Hong Kong. Viajaram para Taiwan e instalaram-se no hotel Purple Garden. Nove dias depois, a 17, só um deles regressava a casa. A meio de Março, Chan, de 20 anos, admitia às autoridades que tinha assassinado a namorada, Poon, de 21, grávida, em Taipé.

O caso era grave, só que as autoridades estavam de mãos atadas. Não podiam formalizar uma acusação porque o homicídio fora cometido em Taiwan e também não podiam enviá-lo para ser julgado, na Formosa, porque entre as duas jurisidições não valia nenhum acordo judicial de extradição.

No início deste ano, para resolver impasses do género, o Governo veio propor um acordo com Taiwan, que compreendia também a jurisdição de Macau e a da China continental, onde o sistema penal não apresenta garantias de justiça nem existe separação de poderes. O acordo foi a centelha que incendiou a pradaria.

A 4 de Junho, uma terça-feira, a evocação dos trinta anos do massacre dos estudantes de Tiananmen, mobilizara milhares de pessoas, no parque Vitória, no centro de Hong Kong. Como todos os anos, o parque, com a área equivalente a seis campos de futebol, estava repleto de velas e de gente. Mas, desta vez, a vigília alimentava uma nova semente. Aquelas duzentas mil pessoas compunham, apenas, um ensaio geral para o domingo seguinte, 12 de Junho, e para o mais quente Verão dos últimos cinquenta anos.

Como uma metástase num corpo enfermo, a violência e a indignação ocuparam as ruas de Hong Kong recordando os tumultos anti-britânicos de 1967, em plena Revolução Cultural.

Manifestação a 16 de Junho deste ano, em Hong Kong: a indignação ocupou as ruas. Foto © Voa/Wikimedia Commons

A lei bulldozer

A proposta de lei de extradição que o Governo apresentou no Parlamento, era uma iniciativa bulldozer. À boleia do homicídio do hotel Purple Garden, a emenda procurava satisfazer uma ambição de Pequim – evitar que Hong Kong se transformasse numa cidade refúgio de procurados e condenados no continente. Hong Kong mantém uma legislação ancorada numa mini-constituição acordada entre a China e o Reino Unido, tal como Macau entre Portugal e a China, que salvaguarda direitos, liberdades e garantias fundamentais e assegura a separação de poderes.

Se chegasse a ser aprovada, a proposta consumaria a enésima tentativa de intromissão do regime de Pequim na vida política de Hong Kong. Desde 2014, os casos sucederam-se mas o mais flagrante remonta ao Outono de 2015 quando desapareceram cinco livreiros de Causeway Bay, uma zona central de Hong Kong, onde publicavam e vendiam livros proibidos na China. Os cinco despareceram misteriosamente. Um deles surgiria meses mais tarde, em Abril, para voltar a desparecer. Outro terá sido mesmo raptado, em Hong Kong, levantando suspeitas de violação do princípio “um país, dois sistemas” e de que as forças de segurança chinesas estariam a actuar fora da sua jurisdição.

Os constantes episódios de interferência na autonomia de Hong Kong alimentaram a indignação e o receio sobre o futuro dos direitos civis e das liberdades públicas. Entre estas, o direito à liberdade de culto e religiosa.

Isto, apesar do horizonte de aparente apaziguamento entre Pequim e o Vaticano, que resultou nos acordos de Setembro de 2018 em que, entre outras matérias, a nomeação de bispos passou a levar o carimbo da Santa Sé e da Associação Católica Patriótica Chinesa, afecta ao Partido Comunista chinês. No terreno, porém, estes acordos só vieram causar maior inquietação entre os crentes. Se o clima era já de desconfiança recíproca, os acordos surgiram no pior dos tempos e, onde já ardia gasolina, esta controversa proposta só veio acrescentar fogo.

 

A ceia dos cardeais

Uma das figuras de proa deste movimento é o cardeal Joseph Zen, o mais velho arcebispo emérito de Hong Kong, crítico furioso do clima de apaziguamento entre a Santa Sé e Pequim e uma das vozes mais escutadas na defesa do direitos humanos.

Desde a transição de Hong Kong para a China, em 1997, não foi raro vê-lo desfilar em manifestações públicas a favor da democracia e em acontecimentos públicos ao lado de expoentes democratas. Nas inúmeras conferências de imprensa diárias em que pontuam jovens de máscara antigás, totalmente irreconhecíveis, ou nas várias redes sociais onde o movimento se estrutura, os organizadores da mobilização insistem que esta é uma causa sem lideranças.

Mas Zen, tal como outros líderes religiosos, deputados e activistas pró-democratas, tem vindo a assumir um protagonismo que muitos, entre as igrejas cristãs, logo no início dos protestos em Junho, consideravam ser pouco prudente. Invocavam a Carta aos Romanos, quando fala na sujeição aos poderes superiores – “quem resiste à potestade resiste à ordenação de Deus”, explicava, no South China Morning Post, o evangélico John Chan Wai, professor assistente de Teologia no Alliance Bible Seminary. “No entanto, a comunidade começou, de há cinco anos para cá (quando dos acontecimentos de Occupy Central) a reflectir sobre as relações entre religião e política. Por isso, desta vez, estão mais bem preparados para responder, sabem o que podem e não podem fazer – sabem mais o que devem fazer”, acrescenta ainda.

Daqui os cânticos que, nestes meses, se tornaram omnipresentes, quase hinos de protesto – “Sing Alleluia to the Lord”, o mais cantado – e as jornadas de oração, as marchas de oração que, inevitavelmente, acabavam por confundir-se com marchas de protesto. Pelo menos, aos olhos dos jovens agentes de polícia, eles próprios formados na escolas de Hong Kong, de maioria protestante, entrincheirados, nas ruas, entre dois poderes superiores – César e Deus.

Três meses e múltiplas investidas policiais depois, aquelas vozes cépticas reduziram-se a murmúrios. “Estar na rua e no protesto foi uma oportunidade de ir aonde vai o rebanho”, nas palavras de Joseph Ha, o bispo auxiliar de Hong Kong.

Este protesto significou uma oportunidade para a Igreja Católica recuperar uma geração de jovens afastada de instituições consideradas tradicionalistas, conservadoras, coniventes com os poderes.

Logo a 12 de junho, data da primeira carga policial contra os manifestantes junto ao Conselho Legislativo, o bispo Joseph Ha pernoitou várias noites com os manifestantes, antes ainda da invasão do edifício que ocorreu mais tarde, a 3 de Julho. “Onde o rebanho vai, o pastor vai atrás. O pastor condu-los e compreende as suas dores”, justificava.

No mesmo jornal South China Morning Post, uma das figuras oriundas do anterior movimento de contestação de 2014, o religioso Chu Yiu-ming notava que a Igreja compreendeu que estava a perder significado – “a não ser que fizéssemos caminho ao lado destes jovens, arriscávamo-nos a perder uma geração inteira”.

 

Subscrever a agenda dos manifestantes

“Salvem Hong Kong”, lê-se num dos post-its. Foto © Studio Incendo/Wikimedia Commons

 

À medida que as semanas foram passando, a actuação das forças policiais, descontrolada primeiro, paciente depois, caótica, por fim, golpeou a paciência das altas esferas da Igreja em Hong Kong.

Logo após a primeira grande manifestação dessa quarta-feira, 12 de Junho, a intervenção da polícia de choque veio provocar consternação geral – quatro dias e duas marchas depois, uma das manifestações reuniu dois milhões de pessoas. A líder do Governo acabou a pedir desculpas públicas mas não anunciou a cabal retirada da proposta.

Perante a brutal intervenção da polícia, tanto o cardeal John Tong, administrador apostólico de Hong Kong, actualmente em sede vacante, e o reverendo (protestante) Eric So, secretário geral do Conselho Cristão de Hong Kong, emitiram, em separado, duas declarações públicas de condenação dos acontecimentos dessa quarta-feira e à actuação policial frente ao LegCo.

Várias igrejas cristãs convocaram jornadas de oração em Hong Kong e outras confissões houve que, desde então, passaram a disponibilizar as instalações das igrejas para espaços de abrigo, refúgio, repouso e assistência logística aos manifestantes em fuga das cargas policiais.

Também a Comissão Justiça e Paz (CJP), organismo da diocese católica para as questões sociais, num dos fins de semana mais violentos desde o início dos protestos – em que agentes de polícia em perseguição a manifestantes em fuga penetraram nas carruagens do metro, carregaram e dispararam gás lacrimogéneo sobre os passageiros que se encontravam no interior – não hesitou em emitir um comunicado em que se refere à “repressão violenta” da polícia sobre os manifestantes pró-democracia.

A CJP foi mais longe no apoio aos manifestantes, subscrevendo a oposição à proposta de lei e censurando, sem peias, a actuação do Governo: “Não respondeu às exigências dos cidadãos e os polícias foram forçados a fazer cumprir a lei, causando sérias divisões sociais, que levaram ao ódio e à escalada dos confrontos.”

A CJP dizia ainda que, mesmo depois da chefe do Executivo ter manifestando a intenção de “estabelecer uma plataforma de diálogo para resolver as disputas sociais”, a polícia “deteve imediatamente vários membros do Conselho Legislativo e activistas sociais”.

A Comissão Justiça e Paz subscrevia ainda a agenda dos manifestantes e exigia que as autoridades dessem resposta às “cinco exigências, nem uma a menos”, um dos slogans mais escutados: a retirada integral das emendas à lei da extradição propostas pelo Governo; a criação de uma comissão de inquérito para investigar as ações da polícia; a suspensão de todas as acusações que pendem sobre os manifestantes antes que sejam conhecidas as conclusões dessa comissão; a suspensão imediata dos altos responsáveis policiais envolvidos e o fim das acções violentas; e, por último, reformas políticas para garantir o sufrágio universal, tanto para a eleição do chefe do Governo como para o parlamento local.

Esta posição do CJP foi tornada pública no mesmo dia em que a um dos seus elementos foi vedada a entrada, em Macau, pelas autoridades de fronteira sob alegações de que a presença do dirigente católico constituía um risco para a segurança da cidade que já teve administração portuguesa.

Um dia depois, segunda-feira, 2 de Setembro, centenas de funcionários do Hospital Queen Mary, em Hong Kong, formaram um cordão humano para condenar a polícia por ter negado primeiros socorros aos manifestantes que foram alvo da intervenção da polícia no metro de Prince Edwards.

Daqui a mobilização que muitas igrejas cristãs empreenderam ao longo deste Verão. Ao contrário do que aconteceu há cinco anos, durante o Occupy, em que várias lados, crentes e não-crentes, democratas de várias cores, acabaram por se dividir, a inaudita mobilização destes três meses parece encenar uma unidade antes improvável. John Chan considera que “a sociedade anadureceu”. “Há um consenso generalizado sobre o bem comum e já ninguém aponta dedos uns aos outros.” Entre os crentes, procura-se a resistência pacífica. São muitos os que acreditam que os cânticos de aleluia vencerão o gás e as lágrimas.

A China permanece em silêncio.

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