Vivemos em ilhas distantes entre si: mas de todas se avista Jerusalém.
Contra a vaga da direita radical e de antisemitismo que assalta a França e a Alemanha e que tem expressão em vitórias eleitorais, gostaria de evocar o legado do meu tio-bisavô Fréderic Kohn-Abrest (1850-1893). Foi um ilustre jornalista, dramaturgo e ensaísta que viveu entre Paris e Viena e lutou nesses tempos longínquos para criar pontes entre os europeus. Sobre ele estou a redigir uma obra da qual voltarei aqui a falar.
Em 1850 nasceu em Praga o primeiro filho de Jacob Kohn e Sophie Altshul – meus trisavós maternos – e chamaram-no Friedrich. O pai dirigia uma fábrica de mobiliário. Aos 10 anos foi viver com os pais para Paris, onde recebeu formação aprofundada no Liceu Bonaparte ou Liceu Condorcet. Rapidamente descobriu a vocação de jornalista e tornou-se desde os 17 anos correspondente de jornais e revistas, como Le Temps e depois Le Rappel e Le Siècle, onde foi colega e amigo de Victor Tissot, e L’Indépendance, de Bruxelas.
Dotado de um perfeito conhecimento das línguas alemã e francesa e com grande requinte literário, deixou uma obra vasta com centenas de artigos sobre movimentos, episódios e personalidades das décadas europeias de 1870 a 1890: tanto o vemos escrever sobre as lutas operárias como sobre uma jornada em casa de Victo Hugo. Há registos da obra na internet. Nas crónicas dos diários franceses e belgas, e nas revistas culturais vienenses Die Gegenwart, Der Salon, Die Gartenlaube, foi à sua maneira uma testemunha dessas décadas fervilhantes de luzes e sombras europeias, do crescimento brutal dos impérios coloniais e de uma idade de ouro cultural; como leitor fervoroso de La Comédie Humaine era capaz de descobrir os rostos verdadeiros de Bismarck e de Napoleão III, por debaixo das máscaras e jogos de poder.
O meu tio Fred – chamemos-lhe assim – nasceu em uma família onde se repetem os nomes de Tiago (Jacob) Sofia, Matilde e Frederico, membros de uma burguesia que se incorporou na cultura europeia, prolongando o que se chama o movimento Haskalá. Após a revolução de 1848, o imperador Francisco José proclamou a autonomia da comunidade judaica de Viena, uma comunidade que, até ao cataclismo nazi, floresceu com grandes nomes da ciência, música, pintura, literatura, filosofia, do comércio e do design, e que a Europa homenageia: Kafka, Freud, Popper, Loos, Mahler, Schonberg; os nomes são tantos que o embaraço é apenas da escolha.
A partir de 1877, quando obteve a nacionalidade francesa, passou a usar o pseudónimo Paul d’Abrest e a chamar-se Frédéric Kohn-Abrest. A 25 de novembro desse ano, casou-se com Franziska (Fanny) Sulzer, a 16ª (!!!) e última filha do ainda mais famoso professor e compositor Salomon Sulzer. Franziska foi uma pianista consumada e mulher ilustre que mereceria uma outra crónica, dado o seu relevo na sociedade culta parisiense que lhe valeu ser retratada por Manet e ter obras musicais dedicadas por Massenet.

Franziska Kohn-Abrest, pintada por Manet, c. 1878
Austríaco de origem, cidadão francês e judeu de religião – assim se referia a si próprio o meu tio Fred – a sua obra jornalística, literária e historiográfica reflete estas múltiplas filiações e o desejo de estabelecer pontes liberais entre todas as nações, principalmente franceses, alemães e austro-húngaros. Além das suas crónicas das quais várias antologias foram depois publicadas em formato de livro, trabalhou como historiador, escrevendo Vienne sous François Joseph : 1848-1888 e Mémoires du comte de Beust, Ancien Chancelier de l’Empire d’Autriche-Hongrie. Desta vasta obra, e da sua defesa intransigente da liberdade quero apenas destacar as duas vertentes principais: cronista literário e correspondente de guerra.
Frédéric Kohn-Abrest tanto foi um promotor em língua alemã, da literatura e das artes francesas, como um promotor francófono do romantismo germânico. E tudo isto no ambiente carregado que se seguiu à guerra franco-prussiana de 1870 e à Comuna de Paris que ele tão bem descreveu e viveu aos 20 anos na frente de batalha! Em francês e em alemão elogiou Hugo, Balzac, Hector Malot e os Goncourts. Um dos seus grandes feitos foi ter descoberto as Memórias inacabadas de Heinrich Heine e tê-las tornado acessíveis ao mundo literário. Descreve essa difícil proeza e os terríveis poderes do dinheiro em um texto com sotaque maravilhoso balzaquiano, Dans les coulisses d’un livre (1884)
Como cronista das guerras e da beligerância europeias, Kohn-Abrest satisfez as necessidades de informação da opinião pública. Como jornalista credenciado pela Rússia e a Roménia, descreve em uma série de artigos as operações militares da Guerra Russo-Turca de 1877-78, em que as nações dos Balcãs se confrontaram com o Império Otomano, “o homem doente da Europa”. O seu trabalho foi reconhecido a par de jornalistas como Januarius MacGahan, Archibald Forbes, Francis Millet – e do catalão José Luis Pellicer, que o desenhou. Os despachos para os jornais diários de Paris e Viena foram publicados mais tarde, nos livros Guerre d’Orient. Campagne de 1877. Zig-Zags en Bulgarie (1879).
Após a guerra, a pedido do governo francês, realizou uma missão à Bósnia – que descreveu em Un printemps en Bosnie (1887) – para investigar a situação naquela região. Foi uma iniciativa de Foucher de Careil, o embaixador francês e muito conhecido por ser o tradutor e editor do filósofo Leibniz, e ele próprio um apaixonado e cultor da reaproximação europeia.
O meu tio Fred morreu muito jovem, aos 43 anos, a 25 de julho de 1893, nas termas de Bad Vöslau, perto de Viena, e foi sepultado na secção judaica do Cemitério Central. De certo modo, morreu a tempo, alguém que atravessou toda a Europa cujas luzes e sombras conhecia, e que sentia os idealismos da liberdade cada vez mais perturbados pela decadência da Belle Époque e pela ascensão do ressentimento político fascista. Em 1894, começava em Paris o processo Dreyfus que dividiu a França em dois partidos e simbolizou a luta entre a justiça e o anti-semitismo. A formidável campanha liderada por Mathieu Dreyfus, e depois secundada pelo agnóstico Émile Zola e pelo católico Charles Péguy permitirá corrigir o erro judicial, mas o mal estava feito.
O meu tio Fred certamente ficaria entusiasmado com a ideia de reabilitar alguém que, como ele, fez a sua escolha entre o trigo e o joio da Europa. E são esses tempos maus que estamos de novo a viver numa Europa muito diferente que tem de defender a sua independência num mundo globalizado mas de novo assaltada por impérios megalómanos e movimentos culturais decadentes.
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
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