As Andorinhas de Cabul

O Milagre das Lágrimas

| 7 Jul 2023

O filme – uma animação para adultos, trazida à cena pela atriz e realizadora Zabou Breitman e a ilustradora Élea Gobé Mévellec – situado na cidade de Cabul, em 1998, retrata a sociedade afegã e a terrível e persistente opressão que as mulheres – mas também alguns homens – sofrem “às mãos dos taliban”.

 

Desta vez, não consegui ir a uma sala de cinema e acabei por ver, no meio de algumas coincidências, o filme (já de 2019) As Andorinhas de Cabul. Mas vamos às coincidências. Para além de passar na RTP2, na segunda-feira, 5 de Junho e estar disponível na RTP Play, foi também por esta altura que reparei nas primeiras andorinhas (pareceu-me que se tinham atrasado este ano), e que saiu uma notícia, no jornal Público de terça-feira, 6 de Junho, sobre “a pandemia de pensamentos suicidas”, que começava com esta citação dita por raparigas afegãs: “Estamos vivas, mas não estamos a viver… Estar em casa sem educação nem futuro faz-me sentir ridícula. Sinto-me exausta e indiferente a tudo. É como se nada mais importasse.”

Ora, o filme – uma animação para adultos, trazida à cena pela atriz e realizadora Zabou Breitman e a ilustradora Élea Gobé Mévellec – situado na cidade de Cabul, em 1998, retrata a sociedade afegã e a terrível e persistente opressão que as mulheres – mas também alguns homens – sofrem “às mãos dos taliban”: “A restrição das liberdades das mulheres acaba por sabotar a própria relação que os homens têm com elas, levando a que sofram, eles próprios, de uma certa opressão.” (Rebeca Bonjour, in Cinema Sétima Arte, 25 de Outubro de 2020)

Sendo um filme de animação nem por isso deixa de nos impressionar. Deveria ser mesmo um “murro no estômago”. Baseado no livro homónimo de Yasmina Khadra, conta a história de dois casais, o carcereiro Atiq e a sua mulher Mussarat e os professores destituídos Mohsen e Zunaira, e de como as suas vidas acabam por se cruzar quando Zunaira é levada para a prisão onde trabalha Atiq.

Como se fosse o episódio da “mulher adúltera” apresentada a Jesus, no Evangelho, o filme começa praticamente com o apedrejamento de uma mulher. Mas não estava lá Jesus para mandar olhar primeiro para si mesmos àqueles que já tinham as pedras na mão. Havia apenas o fundamentalismo e o ódio – e o sádico prazer de alguns, a acabar nas crianças divertidas a imitar os adultos – para levar até ao fim a iníqua sentença. A pressão é tal que até Mohsen – um homem bom que sofre com aquela situação de falta de liberdade – acaba a ver a sua mão, como que movida por si própria, a atirar uma pedra. Ele, cuja namorada não faz outra coisa senão manter-se viva e lutar pela liberdade.

Por isso, o mais interessante do filme é esse crescimento interior que, a partir deste episódio, vai acontecer na vida dos dois casais, levando-os mesmo a correr risco de morte, o preço a pagar pela liberdade, pelo amor. É esse amor e a possibilidade da liberdade que Mussarat verá nas lágrimas de Atic e que quase levará a um milagre completo…

Há esperança e há futuro, apesar de tudo, nos pequenos gestos e no desejo de ensinar as futuras gerações.

“É por isso que em As Andorinhas de Cabul o que se passa é para ler nas entrelinhas, nos gestos das mãos que ainda se movem para tocar e acariciar, nos esforços e riscos que se correm por um beijo ou até mesmo ficar a olhar as andorinhas que, alheias às mesquinhas maquinações humanas, volteiam para lá das barras de metal da prisão e anunciam sempre a Primavera, mesmo quando no interior das prisões humanas se instala o mais profundo dos Invernos.” (Cátia Santos, Cinema planet, Jun 17, 2021)

“Achas que voltaremos a ouvir música em Cabul?”, pergunta-se no filme.

 

Título: As Andorinhas de Cabul
Um filme de Zabou Breitman (realização) e Élea Gobé Mévellec (ilustração)
Título original: Les hirondelles de Kaboul
Elenco: Swann Arlaud (voz), Zita Hanrot (voz) e Simon Abkarian (voz)
País: França, 2019
Género: Guerra, Drama, Animação
Duração: 81 min

 

 

Manuel Mendes é padre católico e pároco de Esmoriz (Ovar). Este texto foi publicado originalmente na revista Mensageiro de Santo António.

 

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