Ucrânia

O míssil que esburacou a casa do bispo

| 4 Mar 2022

O bispo católico Pavlo Honcharuk, de Kharkhiv, Ucrânia, junto do telhado de casa destruído no dia 1 de Março. Foto © ACN Portugal.

Terça-feira passada, 1 de Março, em Kharkiv, uma das cidades ucranianas que está a ser mais atacada, um míssil atingiu a casa do bispo católico romano, Pavlo Honcharuk, abrindo um buraco no telhado. Ninguém ficou ferido. “Assim, nós também recebemos um destes ‘presentes’”, diz o bispo num pequeno vídeo enviado à fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (AIS).
Apesar dos danos, o trabalho na casa continua: as mulheres preparam refeições quentes que são levadas para duas estações de metro próximas nas quais centenas de pessoas estão abrigadas.
Segundo uma mensagem da Diocese de Kharkiv-Saporischschja, o bispo Honcharuk encontrou refúgio num bunker, com cerca de mais 40 pessoas, incluindo o bispo Mytrofan, da Igreja Ortodoxa Autocéfala da Ucrânia.
Juntos, estes dois bispos têm visitado feridos no hospital e ajudado na distribuição de alimentos, uma cooperação ecuménica possibilitada pela guerra.
Pavlo Honcharuk fala de grandes danos e de muitas mortes noutras partes da cidade. A imagem do ataque com mísseis à Praça da Liberdade, no centro de Kharkiv, deu a volta ao mundo. Um edifício do governo foi destruído e terão morrido pelo menos dez pessoas.
Os militares russos alegaram repetidamente que nenhum alvo civil na Ucrânia seria atacado. Contudo, um segundo vídeo enviado à AIS mostra blocos de apartamentos muito danificados que, segundo o bispo, ficam em frente a uma fábrica destruída. “Eram apartamentos. Todas as janelas rebentaram. Muitas pessoas foram mortas. Os cabos aéreos de uma linha de autocarros foram destruídos”, diz, chocado. Podem ver-se vários carros queimados e crateras nas ruas causadas pelas explosões. Um velho sozinho arrasta-se pela estrada e o bispo pede-lhe para ter cuidado. No vídeo também se pode ver o bispo Honcharuk a olhar para dentro de um carro dizendo: “Aqui houve tiroteio; há sangue.”
A situação em Kharkiv e noutros lugares é cada vez mais crítica. Tendo em vista a escalada da crise, a AIS está a apoiar padres e religiosos na Ucrânia, para que possam continuar o seu trabalho pastoral e caritativo. A fundação pontifícia internacional providenciou um pacote de emergência de um milhão de euros para quatro exarcados [circunscrição eclesiástica para fiéis de um rito específico] greco-católicos e duas dioceses latinas do Leste da Ucrânia que cobrem Kharkiv, Donetsk, Saporischschja, Odessa e Crimeia. De acordo com o presidente executivo da AIS, Thomas Heine-Geldern, o dinheiro será para padres e religiosos que trabalham em paróquias com refugiados, em orfanatos e em lares para idosos.

 

A rezar num abrigo em Kiev
guerra na ucrania, coluna militar, foto acn portugal

Coluna militar na Ucrânia: apesar dos confrontos, na paróquia católica romana de Santo António, em Kiev, um grupo de refugiados diz experimentar a presença de Deus a cada dia. Foto © ACN Portugal.

 

A situação em Kiev, a capital ucraniana, também tem piorado desde o início da invasão. Um enorme comboio militar, com 60 quilómetros de extensão, está às portas da cidade.
Na paróquia católica romana de Santo António, o padre Mateusz relata, numa mensagem áudio enviada à AIS: “Por razões de segurança não posso dizer muito sobre o lugar onde estamos refugiados. Já somos mais de 30, incluindo algumas crianças, e experimentamos a presença de Deus que nos acompanha cada dia.”
Uma cena do Evangelho tornou-se fulcral para o padre Mateusz, que decidiu ficar em Kiev: “Quando os fariseus foram ter com Jesus e lhe disseram que devia fugir, porque Herodes queria matá-lo, ele respondeu: ‘Vão dizer àquela raposa: Expulsarei demónios e curarei o povo hoje e amanhã e no terceiro dia estarei pronto… Um profeta não pode perecer fora de Jerusalém’.” E acrescenta: “Cristo ressuscitou e venceu a morte. Ele está connosco, caminha ao nosso lado e é a nossa esperança.”
Os membros da paróquia de Santo António que se encontram alojados noutros locais podem acompanhar a missa através dos canais digitais. Através das suas homilias, o padre Mateusz procura dar coragem ao povo. “Somos pastores para todos e mais pessoas vêm a cada dia. Deus está realmente a caminhar connosco.”
“Na medida em que conseguimos fazer o essencial – ir às compras, organizar as refeições –sentimo-nos seguros. Continuamos em oração com os nossos irmãos e irmãs e rezamos pela paz”, sublinha.
As mensagens que chegam, através da AIS, dizendo que há pessoas de todo o mundo a rezar pela paz e solidários, são bem acolhidas: “Agradecemos toda a ajuda e apoio vindos de todo o mundo e as palavras de conforto.”
Uma coisa é muito importante para o padre Mateusz e a sua pequena comunidade no abrigo: “Confiamos que as vozes das vítimas da guerra, dos órfãos e das viúvas cheguem a todos no mundo – não para incitar ao ódio nos corações ou para semear amargura. Um cristão deve orar pelos seus inimigos. Guardemo-nos de todo o ódio e violência!”.

 

(A seguir, um pequeno vídeo feito pelo bispo Pavlo Honcharuk, em Kharkiv, mostrando a destruição provocada pelos bombardeamentos )

(Notícia actualizada dia 5 às 16h, com uma nova foto no início e o vídeo.)

 

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