O Mississippi também é um rio

| 13 Dez 2020

“Esta é a história de um povo, de esperanças e sonhos, de desafios e mudança. Trata-se de uma história americana. Esta história e esta luta que começou há muitos séculos, continua hoje – consigo.” Natchez, Mississippi. Foto © Luís Pinto

 

Embarcámos numa viagem de dez dias. Por estrada. De carro. Nós os cinco e a nova Beaggle, adoptada há pouco. Desejávamos conhecer mais deste país. Rumámos a sul. Virgínia, Carolina do Norte, Carolina do Sul, Geórgia, Florida, Alabama, Louisiana, Mississípi, Tennessee, Maryland. Foram cerca de 4500 quilómetros e 52 horas de paisagens a rolar. E paragens que nos marcaram.

Sinto ainda a ansiedade inicial. A perspetiva das horas no carro. A incerteza das reservas feitas ao telefone. O ainda período de tornados a sul. Os números de infeções a subir. A ambiguidade sobre os cuidados e civismo dos americanos no que respeita à pandemia. E a acrescentar, o rescaldo de umas eleições inacabadas, com muita tensão latente no ar.

Ainda nos primeiros dias da viagem, interrogávamos à entrada de cada Estado: “Este é Trump ou Biden”? À cautela, e apesar da conversa em português, apenas entre nós, num restaurante barulhento no centro de Charleston, a minha filha mais velha referia-se a ele como “laranjinha” nas menções ao ainda Presidente dos EUA. Todos à nossa volta nos pareciam focados numa batalha de votos. De partidos. De fações. Tudo parecia significar uma orientação, uma preferência. Um gesto, uma cor, um estilo de condução ou a decoração de um lugar. Tudo cheirava a política. Da dura. Sem pudor.

E, no entanto, nada surgia mais forte do que uma história. A história deste país. E a natureza. O molde de relevos, cores, vegetação e água. Belos. Com tudo o que a ideia de beleza pode absorver. Para todos os gostos. E a cultura. E as pessoas. A comida. A música. Os quase-dialetos. As casas. Os aromas. A cada quilómetro – a cada milha – uma insinuação diferente. O despertar de uma imagem já vivida no écran. A cada lugar, uma nova explosão de diferença. De novidade. De Estado a Estado, um outro país. E não apenas político. Afinal, o Mississippi também – e ainda – é um rio.

Dos resquícios do som geechee e do gullah de Charleston à pérola de Art Noveau chamada Savannah. Da boémia New Orleans à paciente e contrastante Natchez. Da nostálgica Memphis à irrepetível Nashville, capital da música americana. Estas não são apenas cidades de um país. Na nossa viagem, estas representavam excertos de um mundo novo já descoberto, mas por nós ainda desconhecido. Tantas vezes encoberto na sombra das letras gordas do mundo. Das generalizações sobre aqueles americanos. De cuja história nos sentimos quase sempre espectadores. Diante de um ecrã gigante. Desta vez, porém, intensamente vivo.

Recordo com particular gratidão uma frase lida no Museu dos Direitos Civis. Convertido a partir do Motel Lorraine. O lugar preciso onde foi assassinado Martin Luther King Jr. A frase escrita em letras douradas num fundo negro dizia: This is the story of a people, of hopes and dreams, of challenges and change. It is an american story. This story and struggle that started many centuries ago, continues today – with you.[1]

Como tudo é tão diferente quando Deus se revela nestas viagens. Nesta história coletiva.

 

[1] Esta é a história de um povo, de esperanças e sonhos, de desafios e mudança. Trata-se de uma história americana. Esta história e esta luta que começou há muitos séculos, continua hoje – consigo.

 

Luis Castanheira Pinto é licenciado em economia, tem-se dedicado às questões do conhecimento, aprendizagem e desenvolvimento de competências e trabalha no Banco Mundial, em Washington DC (Estados Unidos). É casado e pai de três filhos. Viveu anteriormente no Porto, Lisboa, Bruxelas e Copenhaga.

 

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal

Intervenção de Borges de Pinho na CEP

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal

Há quem continue a pensar que sinodalidade é mais uma “palavra de moda”, que perderá a sua relevância com o tempo. Esquece-se, porventura, que já há décadas falamos repetidamente de comunhão, corresponsabilidade e participação. Sobretudo, ignoram-se os princípios fundacionais e fundantes da Igreja e os critérios que daí decorrem para o ser cristão e a vida eclesial.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This