AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Autores - Maria Aldina Brás

O mito de Adão e Eva

| 17/11/2024

Lucas Cranach – Adão e Eva, 1530. Museu Nacional de San Carlos (México) / wikimedia Commons

Um mito desvenda um mistério e quando não é assumido como revelação do mistério, o mito degrada-se, obscurece-se, transforma-se num conto ou numa lenda. Ele não é vivido pelo homem total e, por conseguinte, não consegue transformar uma situação em situação exemplar, universalmente válida [1]. A interpretação do mito de Adão e Eva, narrado no Génesis, sempre se revelou problemática. Podemos interpretá-lo, à luz da semelhança entre homem e mulher, feitos do mesmo corpo, em igualdade de condições, semelhantes tanto em força como em fragilidade [2].

Os mitos não suprimem a racionalidade nem a excluem: revelam e captam a complexidade da condição humana [3]. O mito pode, de certo modo, ler-se, ouvir-se ou visualizar-se como uma obra de arte, uma obra poética ou musical. Pode não ter a lógica de uma demonstração ou não poder ser seguido por sucessivas etapas do raciocínio, mas, de certo modo, pode dar-nos uma sensação imediata, que faz com que o seu sentido salte à vista e penetre inteiramente no espírito.

Deus dá ao ser humano autonomia e liberdade para que governe a Criação e a desenvolva até ao fim dos tempos. Portanto, a tarefa do cientista, especialmente do cientista cristão, é a de investigar com vista a um futuro melhor da humanidade e da terra, como ser livre e responsável. Mas, ao mesmo tempo, o cientista deve ser movido pela convicção de que a natureza, nos seus mecanismos evolutivos, esconde o seu potencial que deixa à inteligência e à liberdade descobrir e actualizar, para alcançar o desenvolvimento que está nos desígnios do Criador. Portanto, por mais limitada que seja a acção do homem, ele participa e é capaz de construir um mundo adaptado à sua dupla vida física e espiritual. Esta esperança e confiança em Deus, Criador da Natureza, e na capacidade do espírito humano, são capazes de dar ao investigador um novo impulso e uma paz profunda [4].

O Papa Francisco declarou à Pontifícia Academia de Ciências que Deus não é um mago e a criação do mundo não é obra do caos, mas deriva de um princípio supremo que cria por Amor.  A evolução da natureza não é incompatível com a noção de criação, pois exige a criação de seres que evoluem [5].

É neste ponto que introduzo a evolução dos outros primatas para o homem. Acredita-se que a redução do número de cromossomas de 48 em primatas para 46 nos humanos modernos, tenha resultado da fusão ponta a ponta de dois cromossomas ancestrais de primatas não humanos, formando o cromossoma 2 humano. Existem provas científicas desta fusão, que terá surgido há 4,5 milhões de anos e já foi descrita há quase quatro décadas [6].

Uma sugestão de árvore genealógica poligâmica semelhante ao gorila de um suposto clã humano moderno no qual o cromossoma 2 foi transmitido, implementado e o seu status único foi convertido em status emparelhado. Um primata portador de apenas um cromossoma 2 que surgiu de novo (quadrado meio preenchido, segunda geração), teve vários filhos (terceira geração) com algumas parceiras do sexo feminino. Ele terá tido descendentes saudáveis com 48 cromossomas (quadrado/círculo em branco) e 47 cromossomas (quadrado/círculo preenchido pela metade), além de múltiplos abortos devidos a desequilíbrios cromossómicos (triângulos preenchidos). As uniões entre indivíduos com 47 cromossomas, portanto, apenas com um único cromossoma 2, tiveram filhos e filhas saudáveis ​​com 48 e 47 cromossomas equilibrados, bem como indivíduos saudáveis ​​com 46 cromossomas (incluindo 2 cromossomas 2, quarta geração). Estes últimos indivíduos terão tido uma fecundidade normal, com acasalamentos dentro do mesmo grupo. A vantagem evolutiva pode ter resultado quer de uma fertilidade aumentada, quer do acasalamento selectivo entre indivíduos com funções cognitivas superiores, devido ao desenvolvimento e função cerebral, as quais podem ter facilitado a disseminação bem-sucedida do cromossoma 2 no homem [7] (Figura e legenda adaptadas de 7).

 

Tratou-se, de um acontecimento inicial único, mas houve depois acasalamento entre parentes, uma vez que nós temos 2 cromossomas 2, tal como para os outros cromossomas (temos no total 22 pares de cromossomas), à excepção do cromossoma X e Y. Este acasalamento entre parentes é bem visível na geração IV apresentada na figura. Conversando sobre isto com o ilustre citogeneticista da U. do Porto, A. Tavares (1928-2016), a quem aqui presto a minha mais sentida, devida e profunda homenagem, opinámos que continuávamos a aceitar o mito de Adão e Eva (mesmo ancestral). Sorrimos!

Existem duas hipóteses ramificadas sobre a evolução da espécie humana. A mais amplamente aceite é a teoria “out of África”, que afirma que o Homo sapiens arcaico evoluiu para humanos anatomicamente modernos apenas em África entre 200 000 e 60 000 anos atrás. Esta hipótese propõe ainda que membros de um ramo do H. sapiens deixaram África em algum momento entre 125 000 e 60 000 anos atrás, e que durante um longo período, esses H. sapiens substituíram populações mais “primitivas” de outros hominídeos na Ásia ou na Europa, como Homo neanderthalensis e Homo erectus.

A teoria concorrente é a hipótese da evolução multirregional, que argumenta que parte ou toda a variação genética entre as raças humanas contemporâneas é atribuível à herança genética de outras subespécies de H. sapiens ou de outras espécies de hominídeos. No modelo multirregional, todas as formas humanas arcaicas em todo o mundo, como H. erectus e Neandertais, bem como as formas modernas, posteriormente evoluíram juntas nas diversas populações de H. sapiens moderno, que são consideradas como constituindo um gradiente único e contínuo [8].

Termino com Albert Einstein, que disse: “A ciência sem religião é manca, a religião sem ciência é cega.” Esta máxima tem sido fonte de debates constantes ​​entre crentes e não crentes, que querem puxar para si o maior cientista do século XX.

 

[1] Mircea Eliade. In: Mitos, Sonhos e Mistérios. Tradução de Samuel Soares para Círculo de Leitores, p. 8. 1996
[2] António Monteiro: Comentário a textos bíblicos: “profecia, essa obsessão pelo cuidado” 6 de Outubro. 7Margens 2024
[3] A dos Santos Vaz: No princípio da Bíblia está o mito. DIDASKALIA XXXVII 2007: 47-73
[4] Papa Francisco. In: Plenary session of the Pontifical Academy of Sciences. Address of his holiness Pope Francis on the occasion of the inauguration of the bust in Honour of Pope Benedict XVI , 27 de Outubro 2014
[5] Big Bang e Teoria da Evolução não contradizem Cristianismo. In:  Ciência e Saúde, 28 de Outubro de 2014
[6] Poszewiecka et al.: Revised time estimation of the ancestral human chromosome 2 fusion. BMC Genomics 2022, 25;23.
[7] Figura e legenda adaptadas de Stankiewicz P: One pedigree we all may have come from – did Adam and Eve have the chromosome 2 fusion? Mol Cytogenet. 2016, 26:9:72.
[8] Ko KH: Hominin interbreeding and the evolution of human variation J Biol Res (Thessalon) 2016, 16:23:17.

 

Maria Aldina Brás é geneticista médica e Professora aposentada da UNL.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This