[Saborear os clássicos – XV]

O mito de Pedro e Inês

| 23 Mar 2024

“As raízes da cultura estão naquelas obras chamadas clássicas, obras cuja mensagem se não esgotou e permanecem fontes vivas do progresso humano.”
(epígrafe nas edições da Fundação Calouste Gulbenkian)

 

Karl Briullov (Rússia), Assassinato de Inês de Castro (1834), obra exposta no Museu Estatal Russo, de São Petersburgo. Reprodução via Wikimedia Commons.

Karl Briullov (Rússia), Assassinato de Inês de Castro (1834), obra exposta no Museu Estatal Russo, de São Petersburgo. Reprodução via Wikimedia Commons.

 

“O mito é o nada que é tudo”
(Fernando Pessoa)

“Qual será o coraçom / tam cru e san piadade / que lhe nam causa paixam / uma tan gram crueldade / e morte tam sem razam?
(Garcia de Resende, queixume de Inês de Castro, depois de morta, in Trovas à morte de Dona Inês de Castro, séc. XV)

(…) As Adivinhas de Pedro e Inês ficam entregues à imaginação do público, dos leitores, sobretudo aqueles que se preocupam com a descrição de uma identidade nacional e sabem que ela nos é imposta do exterior, primeiro que tudo. Ela é a soma das imagens em que não nos reconhecemos mas que estão presas a nós com singular firmeza e às quais não podemos escapar. Pedro e Inês são imagens dessas.”
(Agustina Bessa Luís, Adivinhas de Pedro e Inês)

 

A condenação à morte de Inês de Castro decidida pelo rei D. Afonso IV e os seus conselheiros teve motivos políticos: a defesa do reino de Portugal contra a ingerência de Castela. Este facto histórico transformou-se rapidamente num mito – o amor eterno, para além da morte.

Aquela “que despois de ser morta foi Rainha”. (Luís de Camões, Os Lusíadas, canto III, 118)

Basta pensar – e ver – os detalhes arquitectónicos rendilhados, plenos de simbologia, dos dois túmulos de pedra, frente a frente, no Mosteiro cisterciense de Alcobaça, dedicados a Pedro e Inês, para onde foi transladado o seu corpo, acompanhado pelo rei e pela corte. Os amantes erguer-se-ão e ver-se-ão um ao outro, no momento do Juízo Final.

O tema do amor eterno foi abundantemente tratado pelos séculos fora, até ao paroxismo, na literatura portuguesa, inclusive no séc. XX – sobretudo em forma lírica, visto esta ser o traço fundamental da nossa literatura: não só em poesia, mas nas formas dramática e narrativa, discursos, conferências, estudos – até de autores anónimos. E ultrapassou fronteiras.

Neste último caso, abandonou-se o lirismo português, por vezes exacerbado e relevou-se a acção sangrenta: a vingança de D. Pedro contra os matadores de Inês ou a cena macabra do beija-mão, da corte, ao seu cadáver, embora este último não tenha fundamento histórico.

 

Referências na Literatura portuguesa  

Eugénie Servières, Inês de Castro implorando clemência ao rei Afonso IV (1822, pormenor). Reprodução via Wikimedia Commons.

Eugénie Servières, Inês de Castro implorando clemência ao rei Afonso IV (1822, pormenor). Reprodução via Wikimedia Commons.

 

Logo no séc. XV, surgem as Trovas à Morte de Dona Inês [vide a citação acima].  No século XVI, as referências mais importantes são a joia lírica na epopeia camoniana que se inicia deste modo:

“Estavas, linda Inês, posta em sossego / (…)  Naquele engano d´alma ledo e cego / Que a Fortuna não deixa durar muito…” (Canto III, 119-135).

No mesmo século, surge a tragédia A Castro, de António Ferreira, que segue o modelo das tragédias clássicas.

Muito interessante, mas pouco lida, é a peça dramática no início do século XX, de António Patrício, Pedro, o Crú, marcadamente simbólica e influenciada pelo saudosismo. [Foi encenada pelo menos uma vez para televisão, numa versão que pode ser vista na RTP]

O discurso é caracterizado pela harmonia dos contrários, o sensual e o espiritual, e as personagens pertencem a um ideal universal e transcendente:

Confidencia D. Pedro ao seu escudeiro preferido, enquanto espera o regresso forçado dos assassinos de Inês de Castro, fugitivos em Castela, que pertenciam à melhor nobreza portuguesa e tinham sido conselheiros de seu pai, D. Afonso IV.

 

Ernesto Condeixa, Pedro e Inês. Reprodução via Wikimedia Commons.

Ernesto Condeixa, Pedro e Inês. Reprodução via Wikimedia Commons.

– “O nosso amor, ainda era pouco, só abraçado à morte se inicia…”.
(…)

– “Logo… depois de os justiçar, vou erguê-la da cova… à minha Inez.”

Face ao sobressalto do escudeiro, continua o rei:
– “Vou bater à cova d’Ela e chamo: – Inez… é em Santa Clara, aqui pertinho… é por lá que se vai p’ró outro reino… (…) Depois a coroação…”

Face ao estupor do escudeiro: “– de Quem, senhor?”, responde-lhe o rei:
– “Da tua Rainha… de Inez…. Do meu amor”.

A descrição da tortura aos dois nobres caros a D. Afonso IV, surge em analepse, contada pelo escudeiro à abadessa do Mosteiro de Santa Clara, em Coimbra, avisando-a que o rei com a corte e o bispo estão próximos dali, a fim de transladar o corpo de Inês de Castro para o Mosteiro de Alcobaça, onde está já o túmulo preparado para o receber:

Escudeiro: “…esperávamos todos – corte e povo… os bobos guizalhavam, guizalhavam, com caras de remorso e de terror… El-rei disse”:
– “Ouves os sinos, Pero Coelho? Ouves os dobres? São por ti; por tua alma… depois requiem de corvos e pitança!” …

E Pero Coelho olhando-o em face, disse:
“Ressuscitasse Ela com mil vidas, que por amor deste ar e desta terra, havia de tirar-lh’as uma a uma!…”

“Naquele instante, garrotado por cordas, seminu, tinha mais olhos de rei do que el-rei mesmo. Ao ver tanta coragem, o rei ensandeceu: açulava Tristam [o carrasco] como um mastim”:
– Eh! Eh! Carrasco!… Arranca…arranca ou vou eu mesmo…corta…corta….  – Nem eu posso contar-vos, tremo ainda”.

Tristam partia-lhe as costelas uma a uma…só se ouvia aquilo no terreiro. Um som assim como galhos secos… Pero Coelho gritou ainda: É o coração que queres!? Procura-o bem, que é um coração leal como um cavalo e forte como um touro…

– “Todos estavam varados de terror. Tristam por fim meteu-lhe a mão no peito…tinha a faca na outra… ainda cortou… E todos vimos, mudos como pedras, o coração jorrando sangue quente. Ofereceu-lhe a el-rei, ajoelhado. E el-rei meu senhor, por duas vezes o mordeu…”

As Freiras: “– Oh!…”

Escudeiro  “… cravou-lhe duas vezes os seus dentes de lobo, muito brancos….  enquanto o rei comia, numa mesa, acenderam uma fogueira e os dois corpos – o do outro condenado estava desmaiado e foi rápida, a sua morte – em todo o terreiro, no ar doirado, só se ouvia a carne a rechinar. Depois voltou-se e ouviram-no dizer”: – Aleluia!…

Mas o rei, num sadismo de louco, antes desta cena, desejou primeiro que os dois réus falassem e expusessem os planos do seu pai e descrevessem como Inês de Castro foi morta. Só Pero Coelho ousou erguer a sua voz, para o rei, sem medo, num tom heroico e apaixonado:
– … [o vosso pai]teve por certo que à vossa roda os Castros conspiravam. Era junto de vós, na vossa sombra, numa segunda corte de estrangeiros que viviam a adular-vos e a trair-vos… o amor tem luz de mais para poder ver. Vós não podíeis ver [fixando-o] nem mesmo agora…

 

Columbano Bordalo Pinheiro, Assassínio de Dona Inês de Castro (1901-1904), obra exposta no Museu Militar de Lisboa, via Wikimedia Commons.

Columbano Bordalo Pinheiro, Assassínio de Dona Inês de Castro (1901-1904), obra exposta no Museu Militar de Lisboa, via Wikimedia Commons.

 

Mas retemperemo-nos com os comentários jocosos de Aquilino Ribeiro na obra Príncipes de Portugal: Suas Grandezas e Misérias, acerca de um episódio da justiça – deveras estranha, mesmo para a Idade Média – feita por este rei:

O caso que deu mais brado nestes arremedilhos do Direito, passou-se no Porto.

O Bispo, autoridade principal da cidade do Porto, roubara a mulher a um dos bons moradores do burgo e vivia com ela de cama e pucarinho… o cornudo fora intimado a não pôr mais os pés na cidade, o que o triste cumpria com medo de que lhe tirassem a vida como lhe haviam tirado a consorte.

O rei soube e não descansou até chegar a esta cidade. Deu ordens no Paço para chamar o Bispo, enquanto mandava embora a criadagem e todos que não eram da casa. Queria estar só ele e o Bispo. Este achou estranho, mas de nada desconfiou.

A igreja lusitana tivera sempre tradições anticelibatárias… lá quanto palmar a mulher do próximo, o caso era mais sério… mas se isto era “o pão nosso de cada dia” entre profanos, que gravame de maior havia tratando-se de uma burguesinha que estava contente da sua nova sorte, amaridada com um príncipe da Igreja?

Mal o bispo entrou, o rei despiu a primeira peça de roupa e ficou numa saia escarlata. E por sua mão tirou ao bispo todas as suas vestiduras… e obrigou-o a confessar todo o seu crime… e em lhe dizendo isto, tinha na mão um grande açoute para o brandir com ele…”.

Quando os lombos do bispo luziram enxudiosos e róseos, empunhou o látego, o fero instrumento que sempre caprichou trazer consigo à laia de nobre espadim. E vibrando-o no episcopal costelado proferia:

– Renega, maldito de Deus, renega a desvergonha em que vives! Renega, se não queres que te faça o canastro em astilhas! 

E ali estalou grande reboliço, o bispo que expunha as suas razões, gemia, chorava, protestava, dava pulo de corça… o babaréu foi de tal ordem que os privados de el-rei decidiram intervir. O escrivão da puridade, Gonçalo Vasques de Góis bateu à porta, clamando:

– Senhor, Senhor, cartas muito importantes de Castela!

E foi a salvação do Bispo.

Bem prega S. Tomás…  Este rei D. Pedro I, averiguadamente dado às práticas homossexuais, adúltero, pois nenhuma espécie de respeito por D. Constança [a Rainha sua mulher, com quem casou] o inibiu de contrair relações íntimas com Inês, e, viva esta e no período de luto – apregoando-se poeticamente a posteriori o mito do “amor fatal” de Pedro… – contraiu relações com Teresa Lourenço, cujo filho, nascido destes amores, foi D. João, Mestre de Avis e depois rei de Portugal [o qual] teve mancebas em barda, como reza o cronista… estava na sua natureza de impulsivo sanguíneo, com manifestações de epilepsia e histerismo agudo.

 

Antecedentes históricos e protagonistas

Quinta das Lágrimas, em Coimbra, lugar dos encontros de Pedro e Inês. Foto © Joananv22, via Wikimedia Commons.

Quinta das Lágrimas, em Coimbra, lugar dos encontros de Pedro e Inês. Foto © Joananv22, via Wikimedia Commons.

 

D. Dinis e o seu filho, o infante D. Afonso. Depois, rei D. Afonso IV.

Afonso Sanches, filho bastardo de D. Dinis: amado e por isso privilegiado. Por isso, provoca ciúmes no herdeiro do trono, o infante D. Afonso que faz guerra contra o pai. A rainha, D. Isabel, a Rainha Santa, pacifica o pai e o filho, sucessor do trono.

D. Afonso IV

Após subir ao trono, exila o seu inimigo, o bastardo Afonso Sanches.

Este, desterrado em Castela, torna-se um nobre proeminente, o Senhor de Albuquerque, na estremadura espanhola, na fronteira com Portugal. Faz amizades com os Castros, família poderosa da Galiza e da alta nobreza. Frequenta a corte do rei de Castela.

Sucede-lhe o filho, D. João Afonso, sempre protegido pelos Castros.

 

Os nobres e os jogos políticos pelo poder

A nobreza ibérica inseria-se num todo, frequentando as várias cortes dos reinos, visto que a noção de país/nação era ainda inexistente.

No século XIV, a crise de sucessão monárquica, nos reinos de Leão e Castela, exacerbou as rivalidades entre os nobres. Os Castros ambicionavam submeter à sua influência as coroas de Leão e Castela… e Portugal!

 

Inês de Castro, educada para destino alto

Inês, criada para os degraus do trono como se cria um falcão para a caça de altanaria – com luva de couro numa mão e noutra um retalho de carne… (…)  Inês estava inscrita, desde que nasceu, no mercado matrimonial, dirigido pelos tutores. (Agustina Bessa-Luís, ob. cit.)

Inês de Castro era filha bastarda do grande senhor D. Pedro de Castro, da Galiza. Criada e educada, juntamente com o seu irmão, Álvaro de Castro, no castelo do senhor de Albuquerque [na região de Badajoz], pelos tutores D. Afonso Sanches e D. Teresa; depois pelo filho destes, D. João Afonso.

(…) Ensinada pelos tutores a ser uma grande dama, protegida pelos poderosos Castros.

Tudo programado para se servirem dela como isco para o Infante D. Pedro de Portugal… (Agustina, ob. cit.)

O infante D. Pedro, nas suas investidas de montaria, corria as terras da Estremadura e provavelmente visitaria o castelo de Albuquerque e os seus tios…

(…) ensinada a andar com leves passos saltitados, jogar xadrez, tocar alaúde, montar a cavalo (…). Assim viu Inês o infante, algum dia, quando ela tinha 15 anos e ele idade aproximada. Ou então ao lado da sua prima, Teresa de Albuquerque [e tia do Infante D. Pedro] a bordar paramentos… (ibidem).

 

Pedro, Constança e Inês 

Roque Gameiro, Dona Constança, primeira mulher de D. Pedro. Ilustração incluída na História de Portugal, Popular e Ilustrada, de Manuel Pinheiro Chagas, via Wikimedia Commons.

Roque Gameiro, Dona Constança, primeira mulher de D. Pedro. Ilustração incluída na História de Portugal, Popular e Ilustrada, de Manuel Pinheiro Chagas, via Wikimedia Commons.

 

Em 1336, o infante D. Pedro casa com D. Constança Manoel de Castela. Uma das damas que acompanham a infanta é D. Inês de Castro. Começa pouco depois o infante D. Pedro a cortejar Inês.

Depois, em 1345 ou 1348/49 (datas incertas, dadas pelos vários historiadores), D. Constança morre de parto, nascendo o infante D. Fernando (herdeiro do reino de Portugal).

Após a morte da infanta, o infante D. Pedro e Inês juntam-se, “fazendo-se maridança”. Entre 1350/54, havia já quatro filhos desta união.

 

Poder, rivalidades e ambição dos Castros

Os Castros e em particular, o irmão de Inês, D. Álvaro de Castro, aliciaram então o infante de Portugal, nos últimos anos de vida do pai, o rei D. Afonso IV, a aceitar as coroas de Leão e Castela. O infante D. Pedro tornar-se-ia rei de Portugal, de Leão e Castela, manuseado pelos poderosos Castros. Inês de Castro tornar-se-ia rainha.

Outros sectores da nobreza portuguesa, afectos ao rei D. Afonso IV e rivais dos Castros, recearam a interferência destes na política portuguesa, pois punham em perigo a autonomia do reino de Portugal.

Estes nobres, da melhor estirpe portuguesa, foram Diogo Lopes Pacheco, figura proeminente na corte de D. Afonso IV; Álvaro Gonçalves e Pêro Coelho.

Em 1355, dá-se a execução de Inês de Castro por estes conselheiros do rei D. Afonso IV, visto que ela era a personagem decisiva para o projecto político ambicioso dos Castros.

Após este acontecimento, o infante D. Pedro, com os Castros, nobres da Galiza e irmãos de D. Inês, foram matando e incendiando tudo o que viram pela frente até chegarem ao Porto.

A rainha-mãe consegue então pacificar o infante D. Pedro com o pai, Afonso IV.

 

 Pedro I, rei de Portugal

Salvador Martinez Cubells, O cadáver de Inês no trono junto de Pedro (séc. XIX), via Wikimedia Commons.

 

Em 1357, D. Afonso faleceu e o infante D. Pedro torna-se D. Pedro I.

Devido ao longo reinado do pai, foi rei só durante dez anos (1357-1367). No leito da morte, D. Afonso sugeriu aos seus conselheiros, actores da morte de Inês, que se refugiassem fora do reino.

Ora uma das cláusulas do acordo entre D. Afonso IV e o infante D. Pedro era a promessa do filho perdoar, esquecer, não perseguir os nobres que executaram Inês.

Aconteceu que devido à crise que assolava Castela, dois nobres desse reino refugiaram-se em Portugal. Entretanto, os três cavaleiros executantes da morte de Inês refugiaram-se em Castela.

 

A Feia Cousa

Assim chama Fernão Lopes à atitude de D. Pedro que acordou com o seu sobrinho – o cruel rei de Aragão e Castela – ordens de extradição aos cavaleiros refugiados nos respectivos reinos:

Muito perdeu el-rei da sua fama por tal escombo [troca]… e [os povos de ambos os reinos murmuraram] que os reis erravam mui indo contra suas verdades.

Só Lopes Pacheco escapou à sanha de el-rei, avisado pelo mendigo que sustentava e fugiu para o reino de Aragão, trocando de roupa com ele.

 

Pedro I, “o Crú” ou “o Justiceiro”

Túmulo de D. Pedro no Mosteiro de Alcobaça. Foto © SaraPCNeves, via Wikimedia Commons.

Túmulo de D. Pedro no Mosteiro de Alcobaça. Foto © SaraPCNeves, via Wikimedia Commons.

 

“Um doido com intervalos lúcidos de juízo” (Alexandre Herculano)

  1. Pedro I protegeu a burguesia e em particular os judeus. Simultaneamente, limitou o poder da nobreza. Gostava de fazer justiça por si mesmo, sem julgamento ou interferência de tribunais, o que lhe valeu aqueles cognomes.
  2. Pedro era muito gago… muito viandeiro… em três cousas el-rei gastava seu tempo… : em fazer justiça e desembargos do reino…; em monte e em caça…; em danças e festas [ao som de trombetas, juntando-se a ele o povo]. (Fernão Lopes, Crónica de D. Pedro).

O mesmo historiador refere que a justiça do rei era em geral subjectiva e injusta.

como el-rei mandou capar seu escudeiro porque [ele, o escudeiro] se apaixonara pela mulher de um corregedor (…) mandou-lhe cortar aqueles membros que os homens têm em mor preço… e como el-rei o amava muito… não ficaria menos sentido se fora sua mulher ou filha… o muito o amasse, mais do que se deve aqui dizer. (ibidem).

Conclui Aquilino Ribeiro, na obra já referida, sobre este caso:

… o esquisito é que lhe engrossaram pernas e seios, no rosto onde havia cerda rija, brotasse penugem loira, e com gostos flácidos e encontros arredondados vivesse o resto dos dias. Assim pagou a traição ao rei o escudeiro amado.

Após a morte de Inês de Castro, muitas mais amantes teve D. Pedro. Em 1360, quis convencer a corte que casara com Dona Inês de Castro, em Bragança, jurando sobre os Evangelhos, referindo datas, mas incertas, como escreve Fernão Lopes:

“… não se acordava [recordava] no dia e mês em que fora… com a bênção de D. Gil, então bispo da Guarda”. 

Ninguém se convenceu de tal facto. Embora Fernão Lopes tenha sido um cronista sério e competente, o que perdurou foi o mito e não a realidade.

 

Túmulo de D. Inês de Castro no Mosteiro de Alcobaça. Foto © SaraPCNeves, via Wikimedia Commons.

Túmulo de D. Inês de Castro no Mosteiro de Alcobaça. Foto © SaraPCNeves, via Wikimedia Commons.

 

 

Nota

Além das obras referidas, foram ainda consultadas:

  • Rui Ramos et allii, História de Portugal (ed. Dom Quixote)
  • José Mattoso, Naquele Tempo – Ensaios de História Medieval (ed. Temas e Debates)
  • O Essencial dos Reis de Portugal – vol. 2, Aletheia ed. Expresso)

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário.

 

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