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[À Margem]

O momento de dizer “não” ao populismo e aos perigos da IA

| 19/03/2026

Apesar do seu conceito ambíguo e de se prestar a várias interpretações e leituras, a verdade é que o que apelidamos hoje de populismo parece crescer gravemente, nomeadamente na captura e transformação das várias instituições pilares das democracias liberais. Quanto aos efeitos, começamos a senti-los e, se nos distrairmos e acomodarmos, muitos deles serão dificilmente reversíveis. É verdade que a história da democracia nunca “foi linear, mas sobretudo feita de conflitos intelectuais permanentes” (Pierre Rosanvallon) sobre a forma como as várias correntes a entendiam, tensões e “lutas sociais” intensas com vista à persecução de um bem maior, o bem-comum. Basta lembrar a conquista do sufrágio universal, direitos humanos ou o reconhecimento dos direitos das minorias.

No seu livro Le Siécle du Populisme (Paris, Éditions du Seuil, 2020), Pierre Rosanvallon examina e reflecte sobre as características comuns do populismo de esquerda e de direita, mas não o estigmatiza como patologia. Tenta entendê-lo como elemento inerente às indeterminações, dúvidas e conflitos que minam as estruturas da própria democracia. Rosanvallon analisa o populismo não como uma simples crise ou expressão de descontentamento ou contestação, mas sobretudo como uma ideologia baseada numa visão simplista da sociedade em que existe uma hipervalorização da polarização e da emoção, bem como uma concepção de povo (o povo uno) em oposição às elites distantes e corruptas.

“O populismo, que constitui uma forma de democracia que descrevemos como polarizada, ao instaurar um regime é ameaçada pela deriva para uma democracia autoritária (démocrature) [1]), ou seja, um poder que, no entanto, permanece dotado de uma capacidade (variável) de reversibilidade.”, escreve ele.

Por seu turno, Renée Fregosi, politóloga especializada na América Latina, no livro Les nouveaux autoritaires. Justiciers, censeurs et autocrates (2016), explica que o tipo de regime em ascendência não é a democracia, mas sim a “démocrature” (democradura, em espanhol). Refere-se a um sistema híbrido que vemos a espalhar-se da Rússia à Venezuela, passando pela Turquia e pela Ásia Central e que combina elementos da democracia, como a realização de eleições, com outros derivados daquilo a que ela chama de “justicialismo”.

Importa, pois, clarificar ou desfazer alguns equívocos e ambiguidades quanto ao populismo.

 

Três aspectos do populismo

Primeiro, como escreve Pierre Rosanvallon, “o populismo antes de ser analisado como um problema, deve ser visto como uma proposta de resposta aos fenómenos das democracias contemporâneas.” Pode não ser solução nem a resposta mais desejável, mas ele manifesta-se na ausência de soluções geradas pelas democracias para os problemas sentidos pelas populações, sobretudo as mais vulneráveis, principais vítimas da globalização, sem esquecer os efeitos das alterações climáticas.

Em segundo lugar, não se pode criar uma separação – como aconteceu, por exemplo, com o primeiro mandato de Donald Trump – entre a campanha eleitoral e o exercício do cargo. Essa é uma ilusão e importa não cair no engodo. O que se diz durante a campanha corresponde a uma forma de pensar e a uma agenda que terá no exercício do poder a sua aplicação prática.

Um terceiro aspecto prende-se com a reversibilidade das políticas e das medidas. Penso que esta é uma característica demasiado perigosa que deve merecer a nossa total atenção, pois mesmo que algumas das políticas sejam reversíveis a prazo, as marcas que irão deixar nas instituições e na forma de pensar e organizar as sociedades serão muito difíceis de diluir e, sobretudo, poderão dificultar em muito o diálogo na procura de novas soluções. Além da sua reversibilidade poder ser longa e com custos elevadíssimos para os países e para as populações mundiais. Veja-se o que está a acontecer neste segundo mandato de Trump no que toca a certos aspectos da nossa vida colectiva: relações multilaterais, alterações climáticas, imigração, instabilidade em vários pontos do globo, imposição do poder do mais forte, etc.

Um último aspecto, e porventura um dos mais importantes, prende-se com o desenvolvimento das novas tecnologias e da luta pelo controlo do poder económico, financeiro e, sobretudo, decisório. Existe hoje uma luta desenfreada pelo controlo dessas tecnologias, nomeadamente da Inteligência Artificial (IA). Acresce que a concentração desmesurada de riqueza nas mãos de uns poucos e a redistribuição da pobreza e da miséria pela grande maioria das populações, somando-se às alterações climáticas, representam riscos sobre os quais temos hoje apenas uma muito leve ideia, porque ninguém sabe ao certo o que podem representar.

 

Quem controla a IA?

Poucos terão ouvido falar da Anthropic e ainda menos dos irmãos Amodei. Contudo, Joana Beleza, na sua newsletter do jornal Expresso de 12 de março, publicou um texto que nos alerta para os riscos já hoje evidentes da IA. O essencial da informação resume-se ao facto de, no final de fevereiro de 2026, a Anthropic se ter recusado dar ao Pentágono acesso irrestrito ao Claude, o seu modelo de IA, para usos militares. “Uma linha vermelha que os irmãos Amodei traçaram há anos, quando defenderam que esta tecnologia não deveria ser usada para vigilância em massa nem para armamento autónomo.”

“O secretário da Defesa, Pete Hegseth, classificou oficialmente a Anthropic como um “risco na cadeia de abastecimentos para a segurança nacional” e Trump classificou a Anthropic como uma empresa “da esquerda radical e woke” e deu seis meses às Forças Armadas para abandonarem o modelo Claude. Este não é apenas mais um episódio, mas um sinal dos nossos tempos em que a IA se erige como uma nova forma de poder. “Dario Amodei tornou‑se uma das vozes mais atentas aos riscos e à necessidade de limites claros da tecnologia.”

Também o 7MARGENS publicou há dias uma pequena notícia que, de certa forma, complementa a informação veiculada pela jornalista do Expresso. Ambas nos alertam para os riscos da IA, sobretudo neste período de guerras e de grande instabilidade, nomeadamente quando se corre o risco, hoje evidente, destas tecnologias serem capturadas por movimentos ditos nacional populistas ou de extrema-direita que pululam por todo o mundo. O controlo pelas novas tecnologias e a luta pelo poder parecem ir muito para além das suas vantagens. Que, felizmente, também são muitas.

Sobre a Inteligência Artificial e a guerra “(…) há três fatores que facilitam a diferenciação entre esfera militar e esfera civil: a diferenciação tecnológica, o controlo centralizado, e a magnitude de efeitos. Tecnologias diferenciadas são aquelas que, ou têm utilização exclusivamente militar, ou exclusivamente civil (em contraste com as que têm utilização dúplice). O controlo centralizado refere-se às tecnologias cujo exclusivo da gestão é facilmente garantido por um governo, por oposição às tecnologias de fácil difusão, que, por isso mesmo, escapam ao controlo governamental. Finalmente, a magnitude de efeitos refere-se ao potencial destrutivo de determinada tecnologia. Até agora, porém, nenhuma agrupou os três fatores: utilização dúplice, fácil difusão e enorme potencial destrutivo”.

 

É possível dizer “não”

O problema é que a IA rompe com este paradigma. Para além de “As tentativas de vincular estas novas capacidades a um conceito definido de estratégia e equilíbrio internacional são dificultadas pelo facto de a especialização exigida para obter supremacia tecnológica já não se encontrar concentrada exclusivamente em instituições estatais ou académicas.[2]

Nestas notícias há que sublinhar, em primeiro lugar, a consciência de que vivemos num mundo em que as tecnologias facilmente podem fugir do controlo humano e que, por isso mesmo, importa encontrar formas de evitar que tal aconteça. Segundo, ter a coragem, mesmo assumindo riscos, de dizer “não”. Este é o tempo de dizermos “NÃO” e deixar de fingir que nada acontece e que tudo se reequilibrará de novo. É preciso mesmo aprender a dizer “não”. Os Amodei e Caitlin Kalinowski dizem-nos que é assumir essa posição desde que estejamos dispostos a correr riscos. Não é fácil, mas é possível e a esperança reside sempre na possibilidade de cuidarmos de uma outra forma.

Quando fundaram a empresa, os irmãos Amodei, conscientes dos riscos da tecnologia, decidiram dotá-la de uma espécie de regulamento/constituição que impedisse a sua utilização para além de certos limites, nomeadamente para fins militares. Tratava-se de limitar o poder através da ética, porque a IA não é apenas tecnologia é também, e sobretudo, uma forma de poder. Sendo verdade que a Inteligência Artificial se pode revelar extremamente perigosa e destrutiva, haverá que ter cuidados redobrados num tempo em que as tecnologias procuram ocupar um espaço de poder, político e económico, e de decisão tirando partido de governos populistas mais interessados na defesa dos seus próprios interesses do que no bem comum. Há que impedir que a deriva populista se apodere de meios cuja perigosidade para a humanidade está ainda longe de ser consciente. É o momento de dizer “NÃO”.

Notas:

([1]) O termo “démocrature”, palavra que combina democracia e ditadura, entrou para o dicionário Petit Robert na edição de 2020 (lançada em 2019). Refere-se a um regime político que apresenta a aparência de democracia (eleições) enquanto exerce um poder autoritário, caracterizado pela limitação das liberdades e pela manipulação do sistema judicial. Descreve um “simulacro de democracia”, frequentemente utilizado para caracterizar a deriva autoritária de regimes. O termo foi popularizado no debate público e teorizado em 1987 pelo sociólogo Gérard Mermet.

[2] Henry A. Kissinger, Eric Schmidt, Daniel Huttenlocher. A Era da Inteligência Artificial. E o nosso futuro humano., D. Quixote, 2021.

 

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