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O monstro

| 24/08/2019

O monstro

by | 24 Ago 19 | Entre Margens, Últimas

A solidão é uma espécie de monstro que persegue tenazmente milhares de idosos em Portugal. O problema principal deles nem sequer são os cuidados de saúde, mas a solidão a que os entregamos cada vez mais. 

Mulher idosa a pedir à porta de uma igreja: mais de 90% dos idosos seguidos nos cuidados de saúde primários em Portugal revelam algum grau de solidão e um terço destes evidencia mesmo níveis graves. Foto © Rodrigo Pérez/Wikimedia Commons

 

Segundo a agência Lusa, mais de 90% dos idosos seguidos nos cuidados de saúde primários em Portugal revelam algum grau de solidão e um terço destes evidencia mesmo níveis graves, o que tem implicações nos referidos cuidados. A conclusão pode ler-se em estudo de investigadores do Cintesis – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, em parceria com a Administração Regional de Saúde do Norte (ARS-Norte).

Se nove em cada dez idosos em tratamento médico sofrem de solidão, o país tem um problema sério em mãos e a sociedade está a falhar. A solidão provoca nos idosos um conjunto de problemas de saúde física, mental e emocional. Os estudos apontam para um excesso de medicação nesta faixa populacional, que se agrava nos níveis de solidão mais elevados. Segundo um estudo publicado na revista científica Family Medicine & Primary Care Review: “A solidão leva a um aumento do recurso aos serviços de saúde, como comprovamos através da relação desta com o consumo crónico de medicamentos, especialmente entre os idosos com mais de 80 anos de idade”. Por isso se torna tão importante compreender que a solidão nos idosos provoca maior somatização do seu sofrimento, potenciando assim o risco de sobre-medicação.

A responsabilidade para com os idosos, em particular os mais vulneráveis, pertence a toda uma sociedade. A solidão, só por si, é uma vulnerabilidade nas idades avançadas como é bom de ver. Quando a pobreza e a baixa literacia se juntam a essa condição, então as coisas pioram de vez. Daí a necessidade de se desenvolverem estratégias de combate à situação, com vista a elevar os indicadores individuais de saúde. O estudo concluiu que “ter mais de 80 anos de idade, viver sozinho, possuir um baixo nível educacional (menos de nove anos), estar insatisfeito com os rendimentos e ter uma estrutura familiar disfuncional são os principais factores que se associam à solidão”.

Sempre que as sociedades se revelam pouco dinâmicas e a cidadania é tímida, a tentação é sempre remeter para o Estado todas as responsabilidades sociais. Mas o problema da solidão dos idosos começa nas famílias, que tantas vezes abandonam os idosos ou os ignoram na prática, mesmo quando não cortam formalmente os laços. Se não se faz um esforço em levá-los quando a família vai de férias, se não há interesse em dar-lhes apoio nos momentos e datas que lhes são mais sensíveis, se não há um telefonema, uma visita ou outro sinal de preocupação para com o seu bem-estar e as suas necessidades, eles irão sentir-se descartáveis e sem valor.

Mas as igrejas e demais comunidades religiosas, as associações, colectividades e a vizinhança podem ser activos neste combate. Podem criar espaços e ocasiões de companhia e interação social, promovendo o estímulo à participação na vida familiar, social e comunitária, assim como na ajuda a manter as rotinas diárias de actividade, que muitas vezes se perdem, gerando assim o isolamento que tende a potenciar a degradação pessoal expressa no relaxamento na alimentação, higiene ou vestuário.

É certo que compete ao Estado adoptar políticas que respondam às necessidades duma faixa populacional crescente no país, que promovam um estilo de vida activo depois da reforma e que estimulem o princípio da utilidade social dos idosos, o que terá reflexo directo na promoção da sua saúde. Há que promover o envolvimento no voluntariado social, nas universidades seniores, ou a manutenção da actividade profissional, mesmo em regime de tempo parcial ou até o empreendedorismo sénior.

O cristianismo desde sempre cuidou dos mais velhos, em especial das viúvas pobres. A prática da diaconia iniciou-se na comunidade cristã de Jerusalém nos primórdios da Igreja, através da provisão de alimento para as viúvas pobres (Actos 6:1-6), mas já a Torah recomendava o cuidado com os mais frágeis, incluindo o órfão, o estrangeiro e a viúva, nas prescrições da lei de Moisés, a começar pelos pais: “Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá” (Êxodo 20:12), e que S. Paulo diz aos Efésios ser o primeiro mandamento com promessa (6:2). Mas já o judaísmo do Antigo Testamento recomendava o respeito pelos anciãos, reforçado depois por S. Paulo: “Não repreendas asperamente o ancião, mas admoesta-o como a um pai” (1 Timóteo 5:1).

Aliás, todas as religiões em geral revelam um profundo respeito pelos idosos, do islão às filosofias do Oriente. A falácia dos nossos tempos é que julgamos que o repositório de conhecimento que eles encarnam pode ser agora plenamente substituído pelos suportes de informação contemporâneos. Mas então, e a sabedoria de vida?

Há que regressar às origens da cultura cristã, bíblica e humanista.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na Visão Online.

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