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Entre Margens

O Mundo de Francisco

| 06/08/2025

 

O Papa Francisco foi um fruto maduro do pomar da sua casa religiosa: católica, apostólica, romana.

Se olharmos para trás na História, vemos que as religiões têm sido, em muito, a parte mental de comunidades humanas de grande dimensão. Uma religião é um projeto de mundo e um trabalho continuado de dar forma a esse mundo. Em princípio, o nosso mundo-nação. Mas, com o tempo e os projetos imperiais, o projeto ampliou-se para um mundo global. Deste modo, uma religião era concorrente de qualquer outra. E diz-nos o olhar histórico que essa concorrência ganhou demasiadas vezes a forma de guerra religiosa, ou seja, de guerra em que a religião dava forma mental ao projeto de mundo de um país ou de um império.

Os portugueses mais velhos ainda viveram essa experiência nacional de um país de simbiose entre o Estado e a Igreja tanto no governo da casa como na política colonial. No mundo de hoje, há projetos nessa linha: a Índia e a Rússia são dois casos exemplares, alguns estados de confissão muçulmana também, e os Estados Unidos têm na religião cristã, embora em versão plural, essa ambição. E assim por diante. A religião permanece, em muitas dimensões, como parte do cuidado da “nossa” casa nacional e, no mínimo, da nossa casa religiosa.

Papa Francisco saúda migrantes durante uma audiência na Praça de São Pedro, em 2018. Foto Vatican Media

Papa Francisco saúda migrantes durante uma audiência na Praça de São Pedro, em 2018. Foto Vatican Media

O Papa Francisco não assumiu uma atitude de conflito “contra” as outras religiões. Pelo contrário, foram muitos e explícitos os seus gestos – na sequência dos seus antecessores e do Vaticano II – de fraternidade entre as religiões ao serviço da humanidade comum.

Francisco não afirmou que todas as religiões são iguais. Sempre afirmou o caráter único de Jesus Cristo na História da humanidade. Mas também sempre afirmou que Deus é único e Pai de todos. Portanto, quando alguém adora Deus, que é Amor, e quando alguém ama os filhos de Deus, sobretudo os que se encontram na “periferia” da humanidade, está a realizar a obra de Deus.

Dito de outro modo: para Francisco, a Igreja é um serviço à humanidade e, por isso, disponível para colaborar com quantos estão empenhados e disponíveis para essa responsabilidade. Para se saber que serviço é esse, basta ler as palavras de Francisco e seguir os seus passos durante doze anos (e antes deles), mas há algumas palavras-chave que nos ficaram no ouvido: Paz, Esperança, Alegria, Fraternidade, Justiça, Responsabilidade, Cuidado (com a casa comum e com os abandonados nas múltiplas periferias).

O nosso mundo é um, mas dividido e atravessado por múltiplas crises. As religiões são fator de divisão e conflito ou serviço à comum unidade de todos os homens e mulheres. Francisco pede uma Igreja como “tenda de campanha” para “cura” das feridas do estado de guerra em que nos encontramos, uma Igreja de saída ao encontro dos que foram abandonados nas margens. E trabalhou sem descanso por um mundo em que as religiões, na diversidade das suas fés, sejam entre si colaboradoras nesse serviço comum.

Sabemos que mesmo dentro da Igreja Católica há muitos que a veem como ao serviço dos seus e como projeto de um mundo específico seu. Por isso Francisco foi dito como admirado fora da Igreja e combatido dentro. Mas o mundo de Francisco é o mesmo mundo de todos.

Deste modo, o Papa Francisco afirmou um projeto de mundo e um projeto de Igreja ao serviço de “todos, todos, todos” e isso pode ser visto como um projeto de Esperança e uma inspiração para as várias confissões religiosas. Apesar de os homens e mulheres do centro e do topo parecerem nada preocupados com o que se passa nas margens e nas bases. E é curioso, ou talvez não, que Francisco seja louvado por gente simples e mesmo ateus, muito mais que pelas estruturas da sua pertença religiosa e das outras. Sem deixar de ser exemplo e inspiração, ou pelo menos sugestão, para líderes – no centro ou nas periferias, no topo ou em cada um dos andares – de todas as comunidades religiosas.

Quando uma religião deixa de estar ao serviço de um estado de coisas, o mais natural é colocar-se ao serviço de um ideal do que as coisas “devem” ser. O Mundo de Francisco é o mundo de todos nós, já mais de oito mil milhões de pessoas, sem negar a sua casa-mãe religiosa, a Igreja de que foi líder e servidor. E um dos seus serviços talvez mais duradouros foi ter esbatido a contradição entre estas duas missões que assumiu não como técnico, mas como profeta apaixonado, movido pela fé de que é possível o Amor. O mínimo que se pode dizer é que o estado do mundo precisa de uma missão assim universal.

 

José Alves Jana é doutorado em filosofia, professor aposentado, voluntário e dirigente associativo. Contacto: jalvesjana@gmail.com

 

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