O MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Lisboa, apresenta a exposição Jeff Wall. Time Stands Still. Fotografias, 1980-2023 (até 1 de setembro). São 63 “composições” fotográficas de Jeff Wall, a sua maior exposição nos últimos 20 anos.
Os trabalhos expostos desafiam-nos em várias dimensões. Desde logo, sobre ‘o que é uma fotografia’, depois sobre o estatuto na imagem na cultura ocidental. Não se trata de ‘chapas’ sobre a realidade do mundo, mas de composições, à maneira de uma pintura de autor, a partir de diversas fotografias. As imagens expostas desafiam-nos também a questionar a dimensão da fotografia, o seu efeito quando exposta em material transparente retroiluminado em caixa de luz, e assim por diante.
Mas o que aqui mais me interessa é aceitar aquelas fotografias como imagens do mundo real, que o são, mesmo trabalhadas de modo artístico. Não é sempre assim que a arte se nos oferece?
Cada imagem revela-nos um mundo habitado. Como fotografia, desafia-nos a imaginar um antes e um depois. Logo, a pensar a vida no seu devir. Cada imagem diz-nos uma casa e as suas personagens como produto da casa que habitam.

Homem num quarto saturado de lâmpadas, apenas algumas acesas, na exposição Jeff Wall. Time Stands Still. Fotografias, 1980-2023, no MAAT em Lisboa. Foto © José Alves Jana.
Olho aquele homem num quarto saturado de lâmpadas, apenas algumas acesas. De um lado a cozinha, do outro o roupeiro, ao fundo talvez a cama, e ele debruçado sobre um objeto de vidro, talvez a chaminé de um candeeiro a petróleo. Qual o antes e o depois? Que homem é aquele que construiu com labor cuidado aquele habitáculo? Quando sair dali, que irá fazer? Que mundo construiu o homem que construiu aquele seu mundo? Que dá estrutura à casa daquele homem? Qual a casa ou o mundo em que ele se fez aquilo que é hoje?
Aquelas personagens num recanto à beira de um viaduto descansam ou refugiam-se? Sobre a ponte, o movimento da cidade; ali, a pausa. Dois grupos distantes e um homem isolado. É assim tão difícil estabelecermos contacto mesmo com quem está próximo?
Aquele rapaz, encostado a uma árvore, olha uma mulher que se afasta. Ele descansa ou está a sofrer por algo que lhe aconteceu? A senhora, que parece ser bastante mais velha, vem donde e vai para onde? Deu pelo rapaz? Está a deixá-lo? Além da idade, que mais os separa? Saudaram-se ou ignoraram-se? Que mundo os separa?
Um homem pratica halterofilismo. Culto paciente e esforçado do corpo, para que seja exuberante. Quanto tempo dedica ao culto da forma interior? É provável que pouco: na vida apressada dos dias comuns não há paciência para esse trabalho invisível, pelo menos a um primeiro olhar, sem oportunidade para um segundo. A carga é pesada, vai ter de deixá-la cair. Metáfora de uma vida ameaçada. Mas também do esforço para mantê-la.

Um homem pratica halterofilismo, na exposição Jeff Wall. Time Stands Still. Fotografias, 1980-2023, no MAAT em Lisboa. Foto © José Alves Jana.
Mas outro homem parou e pratica concentração ao sol sobre o tejadilho de um automóvel. São caminhos diferentes. Caminhos onde se vem de algures, donde?, e se vai para onde se quer chegar, onde? Em qualquer dos casos estamos perante o esforço de existir, de manter a vida que sempre corremos o risco de deixar cair e de assim nos magoarmos.
Uma criança dorme no chão, sob o olhar – vigilante ou apenas curioso? – de um adulto num lugar qualquer de uma rua de bairro. Que aconteceu à criança? Adormeceu de cansaço, apenas reclama um momento de descanso, faz uma birra para chamar a atenção do pai? E como vão reagir o adulto ali próximo e os dois um pouco mais distantes? Aguardam com paciência o momento seguinte, vão irritar-se e intervir repondo a boa ordem, seguem adiante porque não têm nada com aquilo?
E eu, que olho estas fotografias, ou melhor, que observo o meu mundo através delas, que vou fazer agora no mundo? Que me fazem, a mim, estas imagens que, vindas sei lá de onde, me falam do pequeno mundo que é o meu, o nosso? Elas abriram uma janela no meu quotidiano, afinal com que efeito?
A arte não é apenas a prática de um qualquer malabarismo sobre um qualquer material, no caso imagens digitais, mas um questionar o mundo e a nossa vida nele. Entretanto. Entre o ontem e o amanhã.
A exposição está patente até 1 de setembro próximo.










