Quantas vezes pediu o Papa que rezassem por ele, ao longo de todo o seu pontificado? Quase tantas quantas aquelas em que se dirigiu aos fiéis. E eles acederam aos pedidos, mas talvez nunca de forma tão intensa como nos últimos dias, em que Francisco tem estado hospitalizado devido a problemas respiratórios. Nesta quinta-feira, 27 de fevereiro, será a vez dos jovens portugueses que participaram na Jornada Mundial da Juventude – e todos os que a eles se queiram juntar – se reunirem para rezar pelo Papa, precisamente no local onde o receberam, em festa, naquele agosto de 2023: o Parque Eduardo VII. Mas por todo o mundo multiplicam-se as iniciativas de oração pela sua recuperação.
“Nada melhor do que o local onde nos encontrámos com o Santo Padre em agosto 2023 para rezarmos pela saúde do nosso querido Papa Francisco! Vamos juntar a juventude do Papa no mesmo sítio a rezar!”, desafia o Patriarcado de Lisboa. A vigília decorrerá a partir das 19 horas e espera-se que o Parque Eduardo VII volte assim a ser, por uma noite, a “Colina do Encontro”.
Também a comunidade católica de Gaza – a quem Francisco tem telefonado quase diariamente desde o início do conflito – está a rezar por ele. E o pároco da Sagrada Família, juntamente com um grupo de freiras, crianças e paroquianos, fez questão de enviar um vídeo ao Papa, para assegurar-lhe isso mesmo.
“Caro Santo Padre, aqui de Gaza somos aqueles que estavam na missa de hoje. Está muito, muito frio, mas queremos mostrar-lhe a nossa gratidão, a nossa proximidade, a nossa oração. O mundo inteiro está a rezar por si e está-lhe muito grato, e todos nós desejamos a sua saúde”, diz o padre Gabriel Romanelli no vídeo, que pode ser visto abaixo.
Mesmo internado no Hospital Gemelli, Francisco tem telefonado para o pároco e o seu assistente, o padre Yusuf Asad. Fê-lo nos dois primeiros dias da sua hospitalização – apesar das dificuldades de saúde e do apagão em toda a Cidade de Gaza – e voltou a fazê-lo na segunda-feira, depois de recuperar da crise respiratória que o afetou no sábado.
“Como paróquia da Sagrada Família em Gaza, que pertence ao Patriarcado Latino de Jerusalém, ficamos felizes e comovidos ao ouvir a sua voz. Isso dá-nos muito conforto”, partilhou o padre Romanelli, em declarações aos média do Vaticano. “É uma grande alegria, mesmo no meio de tantas provações, saber que, apesar do seu delicado estado de saúde, o Santo Padre continua a pensar e a rezar por todos e pela paz em Gaza e, ao mesmo tempo, também continua a agradecer-nos pelas nossas constantes orações”, sublinhou.
Do outro lado do mundo, na cidade natal de Francisco (Buenos Aires, Argentina), milhares de fiéis reuniram-se na tarde de segunda-feira para uma missa na Plaza Constitución, um lugar simbólico para o ministério de Jorge Mario Bergoglio, que tantas vezes ali denunciou a corrupção e os dramas do país em discursos e homilias. Bispos, padres, representantes da política e da sociedade civil marcaram presença. A celebração foi presidida pelo arcebispo de Buenos Aires, García Cuerva, que não disfarçou a emoção na sua alocução: “Que a nossa oração seja a lufada de ar de que os pulmões do Papa Francisco precisam. Não reduza a velocidade. Precisamos muito de si!”, apelou.
E se as orações vindas da sua terra natal não são propriamente surpreendentes, o mesmo não se pode dizer das orações que se fazem, ininterruptamente, no Camboja, país de maioria budista, onde os católicos não chegam a 0.2% da população. Mas a verdade é que, desde segunda-feira, a igreja dos Santos Pedro e Paulo, em Phnom Penh, mantém a porta aberta e dá as boas-vindas a qualquer pessoa que queira participar numa vigília ao estilo da comunidade de Taizé: pessoas das mais diversas religiões têm aderido e feito uma pausa em silêncio e meditação por respeito e estima ao Papa, juntando-se à assembleia em oração, conta a agência Fides.
Bahá’ís, muçulmanos e hindus unidos em oração por Francisco

Líderes religiosos rezam pela saúde do Papa no templo budista Mahabodhu, em Colombro, Sri Lanka. 24 de fevereiro de 2025. Foto © Jude Chryshantha
Noutros pontos do mundo, vão-se multiplicando também os gestos significativos de proximidade na oração por parte de personalidades e fiéis de outras denominações religiosas, particularmente tocados pelos esforços de aproximação inter-religiosa realizados por Francisco.
É o caso de A.K. Merchant, secretário-geral do Templo de Lótus, o grande templo Baha’i em Deli, na Índia. “Ficámos a saber pelos média e por alguns amigos pessoais da Igreja católica que o Papa Francisco está gravemente doente”, disse o líder religioso à AsiaNews. “Tivemos a sorte de receber as suas bênçãos e também oramos pela sua recuperação. A.K. Merchant partilhou que “ofereceu pessoalmente ao Papa Francisco no Templo de Lótus” uma oração feita por Baha’u’lllah, o fundador da religião Baha’i. “O Teu nome”, diz o texto, “é a minha cura, ó meu Deus, e a lembrança de Ti é o meu remédio. A proximidade de Ti é a minha esperança e o amor por Ti é meu companheiro. Tua misericórdia por mim é a minha cura e o meu auxílio neste mundo e no mundo vindouro. Tu, em verdade, és o Todo-Poderoso, o Omnisciente, o Omnividente”. “Que as misericórdias divinas”, pediu Merchant, “cerquem o Papa Francisco para que ele se recupere rapidamente”.
Do mundo muçulmano, outro sinal de proximidade chegou de Meca, mais concretamente do imã Yahya Pallavicini, da Comunidade Religiosa Islâmica Italiana (Coreis), que nos últimos anos participou em inúmeros encontros inter-religiosos promovidos pelo Papa.
Tendo tomado conhecimento do estado de saúde de Francisco quando acompanhava uma grupo de muçulmanos italianos em peregrinação a Meca, Yahya Pallavicini divulgou um pequeno vídeo filmado em frente à “estação de Abraão”, uma pedra que, de acordo com a tradição islâmica, contém as pegadas do patriarca. “Penso imediatamente em Francisco como um campeão do diálogo sobre a fraternidade e a amizade com os muçulmanos”, disse o imã Pallavicini. “Neste lugar, aqui, como muçulmanos italianos, também honramos o profeta Abraão, patriarca da adoração do Deus único, em cujo Nome praticamos a fraternidade entre cristãos e muçulmanos. Os melhores votos de paz e saúde ao Papa Francisco”, conclui.
Do mundo hindu, um dos apelos à oração veio de Rajan Zed, um clérigo que vive no Estado norte-americano de Nevada e é presidente da Sociedade Universal de Hinduísmo. Zed convidou todos os líderes religiosos de todas as denominações a invocar a “plena e rápida recuperação” do Papa Francisco. “Devemos invocar”, disse ele, “energia, paz e força para ele, para que possa continuar a inspirar milhões de pessoas em todo o mundo e promover uma sociedade mais compassiva e inclusiva”, com a sua “liderança visionária baseada na humildade, inclusão, coragem moral e orientação para o serviço”. Zed faz votos de que o Pontífice “possa continuar a levar adiante o seu ministério de construir pontes de paz, de defender os oprimidos e os pobres, de liberdade de religião, de alcance global, de diálogo inter-religioso, de coexistência pacífica, de enfatizar valores partilhados e de buscar o bem comum”.
Esta terça-feira, 25 de fevereiro, um culto inter-religioso decorreu no templo budista Mahabodhi em Colombo, Sri Lanka, que o Papa visitou em 2015. Durante essa viagem, Francisco tornou-se o segundo papa na história a visitar um templo budista, depois de João Paulo II. E a visita, decidida espontaneamente pelo Papa à última hora, ficou na memória dos locais, que agora fizeram questão de ali se reunir para orar por ele.
Papa continua a melhorar… e a trabalhar
As preces parecem estar a ser escutadas, tendo em conta que, de acordo com o mais recente boletim clínico (divulgado pelo Vaticano ao final da tarde desta quarta-feira, 26 de fevereiro), o Papa continua a melhorar de forma “leve e contínua”, apesar de o seu prognóstico ser ainda “reservado”. “A leve insuficiência renal detetada nos últimos dias foi resolvida. A tomografia do tórax realizada ontem à noite mostrou uma evolução normal do quadro inflamatório pulmonar. Os exames laboratoriais e hematológicos de hoje confirmaram a melhora observada ontem”, pode ler-se. E Francisco, apesar de internado, vai retomando as suas atividades. “Durante a manhã, o Santo Padre recebeu a Eucaristia. A tarde foi dedicada às atividades de trabalho”, assinala o boletim.
Também esta quarta-feira, o Vaticano divulgou vários frutos do trabalho que o Papa terá levado a cabo ainda antes do seu internamento. Foi conhecida a catequese da habitual audiência de quarta-feira, e a decisão de instituir uma nova comissão permanente para assegurar o financiamento da Santa Sé e promover recolhas de donativos entre instituições católicas e “outros potenciais benfeitores”. A mensagem para a Quaresma, intitulada “Caminhemos juntos na esperança“, foi divulgada na terça-feira.
(Imagem de destaque: Milhares de fiéis encheram a Plaza Constitución, em Buenos Aires, para a missa pela recuperação do Papa. 24 de fevereiro de 2025. Foto reproduzida a partir da conta de X @CrisAlvarezRod)
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