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O mundo precisa (mesmo) de um milagre

| 23/05/2020

O mundo precisa (mesmo) de um milagre

by | 23 Mai 20

Sim, sinto que o mundo precisa de um milagre. Um milagre que seja a revelação de um Milagre, isto é, que seja a revelação do verdadeiro Milagre, para toda a humanidade. Porque, como disse em 2017 o excelente padre Anselmo Borges numa entrevista ao jornal DN, precisamente a propósito das tradicionais celebrações das aparições marianas de Fátima, não há senão um e um só milagre: o milagre do Ser. Sim, o milagre da Existência de Tudo, o milagre que é existir algo em vez do nada. Esse é, pois, o Grande Milagre, cujo reconhecimento tem o poder de reorientar as existências humanas na direção de um sentido radicalmente novo e mais humano, que é aquele que nos é proposto pela consciência transformadora do Mistério.

Eu acredito em milagres. E reconheço o quanto o mundo precisa de verdadeiros milagres, milagres deste tipo, que nos transformam e colocam face a face com o Ser, face a face com o Real, com o Transcendente, com a verdadeira natureza da Realidade. Pois, o que é afinal um milagre senão uma manifestação do Milagre? Senão uma revelação, na consciência e para a consciência humana, de uma face do Ser, capaz de transformar, converter, comover, despertar?

E quantos milagres não acontecem assim, irrupções do Belo, do Bom, do Verdadeiro na forma de uma melodia que nos comove e transporta ao limiar da inefabilidade; de um templo que nos fascina e nos eleva e nos transporta para um tempo de não-tempo (i.e. de eternidade) só por nos avizinharmos dele; de uma visão cósmica do universo por cima de nós em noites de céu limpo e estrelado?

Enfim, na forma de uma ação de grande coragem ética, que apesar da circunscrição histórica em que ocorre, de súbito nos fala de princípios e valores intemporais que estão ao alcance de todos, em todas as épocas, e de repente nos sugerem que, tal como na famosa pintura de Miguel Ângelo no teto da Capela Sistina, há momentos em que o dedo de Deus e do Homem quase se tocam, no ponto onde o humano é divino e o divino é humano, sem distinção nem falsa dualidade.

Caramba, como o mundo precisa de um Milagre! Uma irrupção do Ser, uma irrupção, uma verdadeira aparição (interna ou externa, sensível ou imaginária, não importa) de qualquer coisa superior, qualquer coisa maior, qualquer coisa fundamental, de âmbito cósmico, que nos lembre de novo das nossas verdadeiras origens, que nos reoriente individual e civilizacionalmente para uma vida com real sentido, no e para o Mistério.

Mas, pensando bem, não foram afinal irrupções deste tipo, irrupções do Ser, irrupções do Sentido, irrupções do Transcendente no Imanente que, noutros tempos, uns mais recentes outros num remoto in illo tempore mitológico, deram origem às grandes religiões, aos grandes cultos, sempre pela mão de mestres mais ou menos iluminados, cujas consciências se viram, de súbito ou gradualmente, ampliadas, expandidas, por tal irrupção súbita ou mais ou menos gradual? Pois, se calhar! Mas não tarda que as revelações, as irrupções do Ser, sejam deturpadas, expurgadas dos seus elementos incómodos, da sua radicalidade, adaptadas às conveniências de outro real que melhor sirva as conveniências imediatas deste ou daquele poder.

O Homem tem este terrível vício de esquecer aquilo que verdadeiramente importa, para seu próprio prejuízo. Ele tem sede, uma sede às vezes terrível, mas em vez da água da Vida, que dessedenta, continua a privilegiar a do Lethes, que a breve trecho só lhe traz mais sede (quando não o faz mesmo esquecer que tem sede, o que é bem pior…)…

Sim, a humanidade precisa do sagrado, do simbólico, do mitológico e do litúrgico. De qualquer coisa que lhe abra a vida para possibilidades maiores que a vida, pois sem isso não há esperança, sem isso a vida desencanta-se, acinzenta-se, torna-se opaca. E, parafraseando Mia Couto, a vida é demasiado valiosa para ser esbanjada num mundo desencantado. Se a vida, numa perspetiva estritamente imanente, tem o seu fim em si própria, então para quê viver? Para quê lutar por ideais, por valores, por princípios que, no quadro de uma mundivisão estritamente imanentista-materialista, são esvaziados de realidade, são desprovidos de consistência ontológica objetiva?

Não… Os limites de uma vida humana têm de estar para além da imanência estrita do viver bio-social-psicológico. Para mim, que acredito em Deus (i.e. que acredito na Realidade Última onde residem todos os princípios e todos os fins, todos os começos e todos os términos, todos os alfas e ómegas, que é Lei, Criatividade Absoluta, Absoluta Liberdade, Verdadeira Realidade), admito que a finalidade de cada homem não está no homem em si, mas no que, no homem, transcende o próprio homem, sem no entanto deixar de lhe ser absolutamente constitutivo – quer dizer, mais íntimo de si mesmo que ele próprio, para usar as palavras de Santo Agostinho. Assim sendo, os limites, a perfeição de cada um de nós, está simultaneamente em nós, e para além de nós. Está, enfim, em Deus, Ilimitado onde, paradoxalmente, todos os limites se cumprem.

 

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa)

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