O mundo precisa

| 24 Mai 2024

Ajuda, solidariedade. Foto Fzant

“O mundo precisa de humanos que queiram, com lealdade e algum altruísmo, o bem de cada outro.” Foto © Fzant

 

Um destes dias, encontrei um pensamento atribuído a um autor desconhecido, que dizia, numa tradução grosseira, algo mais ou menos assim: “O mundo precisa de pessoas que queiram ser o ombro amigo nas horas difíceis. Precisa de ouvidos atentos para as palavras ditas e também precisa de carinhos em momentos essenciais. O mundo precisa de pessoas que se importam com as outras de verdade”.

O mundo precisa, digo eu, de pessoas felizes para que possam dar o melhor de si mesmas aos outros.

O mundo precisa de gente grande que não se empoleira em deslumbrados holofotes, mas constrói o próprio mérito na forma como, concretamente, dá e se dá.

O mundo precisa de humanos que queiram, com lealdade e algum altruísmo, o bem de cada outro.

Recolhi há já mais tempo uma citação referenciada a Cecília Sfalsin[1] que dizia assim: “Feliz é aquele que não sabota o caminho alheio; que não deseja o que é do outro; que não deseja ser quem não é; que não usufrui daquilo que não é seu; que não prejudica ninguém só para se dar bem. Vive bem quem vive honestamente e só cresce na vida quem sabe dar valor ao que é e ao que tem”.

Estas parecem-me enormes sabedorias. Conhecer as nossas necessidades e as exigências do nosso tempo faz também enorme sentido.

É fundamental percebermos o que traz ao de cima o melhor de nós, já que existimos num palco de mundanidade, em que a ambição por bens materiais se torna o guia de muitas existências, que padecem de uma absoluta amnésia face à sua/ nossa efemeridade.

Mas será que, na realidade, estamos todos mais egoístas?

Li, entretanto, um artigo de divulgação que falava sobre as pessoas da geração Z e dizia que estes jovens (uns são de facto mais novos, mas outros têm já pouco mais de 30 anos), numa grande percentagem, não atendem o telefone e uma das justificações é porque entendem que, em geral, os telefonemas não combinados trazem más notícias. Por outro lado, preferem mandar mensagens do que telefonar. Eventualmente até mensagens de voz, mas falar ao telefone é que não. E estamos a referir-nos aos que andam sempre agarrados ao telemóvel, mas, assim parece, apenas para aquilo que lhes convém.[2]

Eu não sou suspeita a abordar este tema porque nunca gostei de telefonemas e sou do tempo em que só havia telefones fixos. Parece-me, no entanto, que a justificação que é dada é profundamente egoísta, ou seja: porque pode vir uma má notícia que não se quer receber ou que pode dar trabalho, não se atende o telefone. Onde está a solidariedade? Onde está a noção de que outros podem estar a precisar de mim e, se eu não atender, vão ficar sem suporte e sem apoio? Onde está toda esta natural vocação do ser humano que é dispor-se a prestar ajuda?

Ontem ouvi notícias e passei por outros artigos. Um medicamento para o cancro, antigo e muito usado, está esgotado. Duas empresas em Portugal produzem-no. Uma diz que terá mais em 11 de Junho (hoje, dia em que escrevo, é 10 de Maio) e outra no dia 1 de Julho. Motivo? Porque, como é antigo, é barato. Ou melhor, dá pouco lucro. Onde fica, pois, o sentido de missão e de serviço?

Estamos a caminhar por um lugar muito incómodo para o próprio homem e, pior do que tudo, achamo-nos convencidos de que estamos a fazer o percurso certo.

Esta narrativa parece, de facto, uma sombra desesperada, mas, com ela, queria destacar a necessidade de compaixão, empatia e ação concreta para construir um presente e um futuro que nos alente. Realmente, presenciamos desafios como individualismo, indiferença e ganância, que podem gerar desânimo e falta de esperança. No entanto, no meio destes, também encontramos motivos para acreditar num amanhã potencialmente promissor.

A capacidade humana de se conectar com o sofrimento do outro e de lhe oferecer apoio emocional é fundamental para construir uma sociedade mais justa e mais solidária. A compaixão impulsiona-nos a ajudar quem mais precisa, de muitas maneiras, seja através de atividades voluntárias, de doações ou simplesmente oferecendo um ouvido atento. A empatia permite-nos compreender os diferentes pontos de vista e construir pontes entre culturas e grupos sociais.

Por outro lado, a esperança é transformadora. Ela não se limita à passividade, mas à ação proativa para tornar realidade o facto de se vir a ter um melhor amanhã. Podemos contribuir para a mudança através do nosso trabalho, das nossas escolhas, dos nossos consumos, do nosso envolvimento na comunidade, enfim dos nossos hábitos desde que partilhados pedagogicamente.

A chama da esperança tem força para emergir em cada um de nós que possuímos o poder de fazer a diferença, mesmo com somente pequenas ações. Um sorriso, um gesto de gentileza ou uma palavra de apoio podem ter um impacto positivo na vida de alguém. Todos podemos ser transformadores do mundo se não nos desresponsabilizarmos daquela que vamos descobrindo, gota a gota, ser a nossa missão.

Em síntese, o mundo precisa de esperança, compaixão e ação transformadora. Apesar dos desafios que enfrentamos, podemos construir um agora e um a seguir mais justos, sustentáveis, pacíficos e também apaziguadores. Para tanto, temos de trabalhar juntos, mobilizando a coragem que está dentro de cada um. Não vale esquecermo-nos que, ainda que com pequenas iniciativas, nos cabe fazer a diferença.

Não resisto a terminar com Marie Curie: “Cada pessoa deve trabalhar para o seu aperfeiçoamento e, ao mesmo tempo, participar da responsabilidade coletiva por toda a humanidade”.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt 

 

Notas:
[1] Escritora evangélica.
[2] Como sempre escrevo, não podem fazer-se generalizações.

 

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