
Xlaxluvar é um neologismo que vem do ronga kuxlaxluva (adivinhar) e leva a terminação de verbos em português ar. Tive, há dias, a árdua tarefa de abrir uma exposição designada O Murmurar dos búzios e as miudezas da alma, da autoria de Pedro Mourana, com curadoria de Jorge Dias. Este artista pintou uma série de quadros a ilustrar poemas de um livro com o mesmo título da exposição, obra da autoria de Rudêncio Morais, O Falso Poeta, seu pseudónimo.
No texto biográfico de Pedro de S. Betrufe Mourana de nome artístico PMourana, pode-se ler que ele é natural da Maxixe, cidade da província de Inhambane, em Moçambique. É artista plástico desde 1979 e tem abordado temáticas que exaltam o amor, a mulher, a poesia, a diversidade cultural, o património cultural, a protecção da criança, o combate à exclusão social, a solidariedade e compaixão como valores perenes da humanidade. Participou em diversas exposições, tanto individuais como colectivas, dentro e fora do país.
Nos quadros expostos foram colocados símbolos que nos permitem leituras aproximadas à intenção daquilo que o pintor desejava transmitir, embora houvesse alguma ligação com o livro a que me referi. Foi possível ver, por exemplo: uma pomba branca, um rato, gatos, um pavão, búzios em diferentes quadros, uma árvore sagrada, uma cadeira num quarto escuro. Estes símbolos, recordam-nos, em diferentes culturas, quase os mesmos significados, nomeadamente: pomba branca – paz, Deus; rato – negatividade e fertilidade; gato – positividade, negatividade, feitiçaria e fertilidade; búzios – poder espiritual (búzios específicos, não qualquer um); árvore sagrada – altar; e cadeira no quarto – segurança e protecção de deuses. Entretanto, devo acrescentar que, nas culturas moçambicanas, para que os ratos signifiquem negatividade é preciso que através deles tenha sido enviado um feitiço. Já os gatos, a partir de determinado tipo de miar que lhes é característico prenunciam algum agouro. São crenças.
Nestes significados não há – e nem é necessária que haja – qualquer verdade científica, além de que ela não é superior à religiosa ou à espiritual. Trata se de uma forma de estar diferente que, trazida para a arte, chama-nos à atenção a um trânsito entre a realidade e a ficção, áreas nas quais em filosofia africana se transita automaticamente, sem necessariamente significar que não haja distinção entre uma e outra área. É que no seu dia a dia, o africano é educado para a vida, através da arte. Os mitos, as adivinhas as estórias, lendas, provérbios, entre outros modos de fazer literatura não esperam um momento certo e demarcado para acontecer. Mourana verteu nos seus quadros uma vertente estética e ao mesmo tempo representação de uma forma de nos fazer ler a vida. Convidou-nos a dialogar com o mundo que nos foi apresentado, até porque do jeito que o fez remonta, em parte, às nossas sociedades tradicionais, das quais nem sempre, hoje, em tempos modernos, nos recordamos.
Abri a exposição com o formato habitual do “abre-te sésamo”; na verdade, com o formato de licença para contar, na cultura ronga, de Maputo, sul de Moçambique, local a partir do qual falava, o karingana wa karingana. Eu disse karingana wa karingana, desejando ter a resposta karingana, por parte dos meus interlocutores, mas muito poucos responderam, tal como esperava. (Sobre esta fórmula, leia-se o meu texto Performance, expressões, palavras: rituais do acto de contar).
Sabia que não teria a devida resposta – tal como seria de esperar, porque fomos habituados a utilizar e a valorizar a nossa cultura, apenas em contextos intramuros. Falo, por exemplo dos nossos nomes tradicionais: Raci, Khudzi, Tinga, Mbata, Sumbi, Nhawugui, Nguile – nomes gitonga; Zambi, Mananga, Nkosane, Fawasse, Yotasse, nomes ronga; Ntsay, Tchanaze, Txassassa – nomes sena, etc. Dos nossos rituais de nascimento: poder baptizar as nossas crianças e poder dar-lhes o “remédio da panelinha”, para apaziguar perturbações trazidas pela lua. Falar do kutxivela, kuyandla, kutxula vito, kubvieketa ou dos rituais pós-nascimento, os que retiram a mãe e a criança do resguardo preconizado pelo pós-parto ou seja ku xlomula mamane, ku humissa mwana, tornaram-se tabu. Dos rituais ligados à morte, kutxinga, kuxlamba kufa, ou seja, apaziguamos a morte, do nosso jeito, mas em fórum doméstico. Não mencionamos isso em nossa vida pública. Já nem falo na abertura para se ir à “árvore sagrada” e pedir bênçãos aos antepassados, porque phalhar tornou-se coisa ultrapassada. E os rituais para donzelar? Desses deixamos de falar, de tal sorte que hoje correm inverdades segundo as quais no sul de Moçambique não existem e que estes são apenas modos de fazer do centro e do norte de Moçambique. Pura inverdade: eles existem. Têm sido feitos, só não têm nomes específicos. Vale-nos, actualmente que, desde 2003, os programas da Escola Pública, passaram a preconizar a introdução de conteúdos locais no ensino. Nos próximos anos, a abordagem a estas temáticas passará a ser diferente.
Todos estes exemplos (de que já falei sobejamente no 7MARGENS) foram trazidos, à luz da leitura da exposição de Pedro Mourana, que nos traz vários elementos simbólicos que convidam ao debate sobre a espiritualidade, sobre as culturas moçambicanas – até, diria, na sugestão do diálogo que nos convida a fazer com outros mundos e outras espiritualidades (sugestivas de uma leitura intercultural, pela partilha do mesmo espaço na mesma exposição). Esta exposição transporta-nos também para o surrealismo.
“Pecado de Adão”

O Pecado de Adão, obra de © Pedro Mourana
Pensando na interculturalidade ou no diálogo inter-religioso, detive-me na diversidade religiosa colocada em três quadros. Um intitulado Pecado de Adão, sugerindo a religião católica apostólica; outro, intitulado Renascer, sugerindo a encarnação da tradição hindu; e um terceiro que mostrava a Cultura Tradicional Bantu (CTB), através de uma árvore frondosa, num quadro intitulado Brado Africano.
Na CTB existe diálogo entre vivos e mortos. Acredita-se na existência de um ente supremo, Deus, mas o diálogo com ele é feito através dos espíritos dos antepassados, que vivem na árvore sagrada e que se acredita intercederem pelos seus familiares, junto a Deus. Há a sugestão da existência de uma encarnação, mas não é dela que se trata. Os espíritos em que se acredita e com os quais se dialoga não representam alguma encarnação. São o renascer para uma outra dimensão. Na tradição hindu, acredita-se numa vida cíclica, na qual, depois de mortos, os espíritos voltam e encarnam uma outra pessoa. Existe alguma similaridade entre a encarnação e o renascimento para uma nova vida.
“Renascer”

Renascer, Obra de © Pedro Mourana
No quadro que segue, apresento uma “árvore sagrada” que, mais do que ter diferentes colorações, nos recorda que, no altar no qual falamos com os nossos antepassados há pessoas, os espíritos aos quais nos dirigimos em prece e com alimentos; o conjunto de rituais que compõem o ku plhaxla nessa árvore integra o alimentar essas caras-pessoas, colocadas, na tela de PMourana, em formato de búzios reveladores do poder que permite interacção entre vivos e mortos e cujas mãos são o suporte para as nossas vidas.
“Brado Africano”

Brado Africano, Obra de © Pedro Mourana
“A chegada dos ratos e o murmurar dos búzios”
Ainda ligado à espiritualidade e ao surrealismo, Mourana critica a sociedade actual que é pregadora de outros deuses. A partir do quadro A Chegada dos Ratos e o Murmurar dos Búzios, no qual a lógica das coisas é, em relação ao que sabemos sobre o mundo, invertida e desafiada: no lugar de Deus, a iluminar as pessoas, há um rato, o que simboliza a fertilidade e ilumina mulheres, desafiando os cânones da iconografia de representação de Deus. Há nisto uma boa loucura!

A Chegada dos Ratos e o Murmurar dos Búzios. Obra de © Pedro Mourana
Além disso, não devo descurar a grande temática desta exposição: a mulher. No quadro Labor e Vaidade, no qual exibe a exuberância do pavão, o artista mostra que o nosso modo tradicional de ralar coco pode ser encarado como um acto de elegância e de beleza, fazendo assim conviver a modernidade e a tradição.
“Labor e vaidade”

Labor e Vaidade. Obra de © Pedro Mourana
Esta é uma exposição que questiona a nossa racionalidade. Está representado o desafio ao nosso conhecimento científico, mas não esperaríamos algo diferente neste artista que, desde a sua tenra idade, em Inhambane, foi apresentado como exemplo de bom desenhador, mais tarde revelou-se um exímio autodidacta na busca do seu caminho para o desenho artístico.
É uma viagem para dentro de nós e para as nossas culturas que o artista nos sugere fazer através da sua pintura. Permitindo-nos ainda melhorar a visão que se tem dos nossos povos, dialogando com a literatura de ficção que nos tem sido sugerida por Paulina Chiziane, Lídia Mussá, Virgília Ferrão, Aníbal Aleluia, Suleiman Cassamo, Carlos Paradona, Aldino Muianga, entre outros. E por outros artistas plásticos, nomeadamente Reinata Sadima, Malangatana, Chissano, entre outros, cujas ideias de mitos, crenças e espiritualidade confluem para o devir e para o legado a deixar para os nossos filhos e à História da Humanidade.
Gostava ainda de destacar o grande contributo que PMourana tem dado à literatura e à música, a partir das obras que tem emprestado para serem capa de livro e de disco, nomeadamente: A Escrita Infinita, de Francisco Noa, 2006; Kukavata, de Gorwane, 2016; Escrever a Terra, de Marcelo Panguana, 2019; Rio da primavera, de Fernando Jorge, 2019; Suturas do Amor, de Rudêncio de Morais, 2019; Pedagogia da Ausência, de Amosse Mucavel, 2020; O Murmurar dos Búzios e as Miudezas da Alma, de Rudêncio de Morais, 2022.
A colocação de símbolos que auxiliam a ler qualquer uma das outras obras ajudou ou sugeriu a uma leiga em arte plástica, como eu, a xlaxluvar os segredos do artista. Para além de ter pretendido aguçar a vontade de conhecer a obra do pintor, desejo ter contribuído para traçar alguns dos caminhos que permitam compreender e divulgar a obra de Pedro Mourana, que é um convite ao diálogo intercultural.
Sara Jona Laisse é docente de Técnicas de Expressão na Universidade Católica de Moçambique e membro do Graal – Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto saralaisse@yahoo.com.br.









