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Edição inédita

O nascimento da hermenêutica bíblica com Santo Agostinho

| 07/12/2021

Dois textos de hermenêutica bíblica de Agostinho de Hipona passam a estar disponíveis.

 

Dois textos com as interpretações de Agostinho de Hipona, Santo Agostinho, ao Génesis, o primeiro livro da Bíblia, serão apresentados nesta quarta-feira, 8 de Dezembro, em Lisboa (Igreja da Graça, 15h). Com introdução, tradução e notas de Paulo Ramos, os dois textos correspondem às duas primeiras tentativas de Agostinho de Hipona para traduzir o primeiro livro bíblico – ao todo, ele tentou-o cinco vezes. 

A apresentação das obras estará a cargo de Cristina Pimentel e de Arnaldo Espírito Santo, ambos professores da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Da Interpretação do Génesis – Dois livros contra os maniqueus e Da Interpretação Literal do Génesis – uma obra inacabada são os títulos que a partir de agora ficarão disponíveis, numa edição da Paulinas Editora. Ambos foram redigidos pouco tempo depois do seu baptismo, que ocorreu na Páscoa do ano 387. “Neles encontramos um jovem Agostinho que, apesar da novidade da experiência da fé, domina já com desenvolta paixão muitos dos temas (a bondade da criação, a liberdade do homem, a Trindade e a Graça)”, resume uma informação da editora. A estes temas, ele regressará com frequência, ao longo do seu percurso e já na fase de maturidade intelectual. 

Na introdução, Paulo Ramos nota que, “por remontarem a uma fonte matricial, as obras primordiais nos garantem uma certa pureza virginal” da voz de Agostinho. Nestes dois textos, aparece “um Agostinho ainda em ‘botão’ que, arrebatado por uma série de intuições relativamente à leitura e interpretação do Génesis – e de todo o texto bíblico, na verdade – procura os fundamentos” do pensamento e da sua relação com as palavras. 

No seu trabalho, o tradutor procurou “prestar tributo a esse conjunto de intuições agostinianas quanto à leitura e interpretação que posteriormente estruturarão a relação da Igreja com as Escrituras (enquanto corpus e cânone) e até do próprio Cristianismo não enquanto religião do Livro, mas da Palavra, o Verbo encarnado”. 

A aproximação de Agostinho ao texto bíblico fez-se sobretudo pelo seu entendimento de que a Palavra bíblica merecia um acesso por si, pelo valor do próprio texto, que não fosse motivado apelas pelas necessidades do proselitismo, retórica ou parenética. “Assim, envolvendo-se embora em disputas várias relacionadas com as heresias do seu tempo, a busca daquilo que poderíamos chamar ‘modo de ler’ sobrepõe-se sem qualquer dúvida ao virtuosismo retórico que esses exercícios inegavelmente também representam”, nota Paulo Ramos. 

Ou seja, estamos perante a “emergência de uma atitude exegética que aí começa a ser estruturada e a que o autor regressará em três outras diferentes circunstâncias muito mais tardias” – nos três últimos livros das Confissões (c. 400), num outro comentário ao Génesis (401-415) e no livro XI de A Cidade de Deus (413-426). “Os pressupostos agostinianos para a leitura de um texto bíblico aproximá-la-ão de uma técnica – não ao alcance de todos, como veremos – para a qual converge tudo quanto ao seu dispor for capaz de iluminar os contornos da Palavra inspirada”, explica o tradutor. 

Esse “repetido regresso de Agostinho aos primeiros capítulos do Génesis configura inicialmente não só a intuição de que aquela narrativa encerra um código diverso do das narrativas cosmogónicas do antigo paganismo (que, eviden- temente, o bispo de Hipona conhecia), mas sobretudo que o discurso evangélico e, mais ainda, as cartas paulinas a vêm colocar a uma diversa luz hermenêutica”, exigindo novos modos de interpretação, acrescenta Paulo Ramos. “Com efeito, ao contrário dos mitos greco-latinos – inebriantes comédias explicativas da Razão de um Ser-Mundo – a Criação judaico- cristã apresenta-se como uma oferta (oblatio) necessária de um Ser radicalmente distinto do Mundo criado e em cujo afastamento reside justamente a Razão, enquanto interrogação.”

Da Interpretação do Génesis – Dois livros contra os maniqueus
Da Interpretação Literal do Génesis – uma obra inacabada
Santo Agostinho
Paulinas Editora, 192 pág, 13,50 € 

 

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