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A propósito do Natal gostaria de refletir sobre a nossa capacidade de aceitar o outro tal como ele é. No capítulo 1 do evangelho segundo Mateus, é-nos descrita a genealogia de Jesus; chamo a atenção para três nomes: Tamar, Raabe e Rute. Se já seria escandaloso encontrar nomes de mulheres numa genealogia no primeiro século, o pano ainda fica mais manchado com a história destas mulheres. Tamar foi uma desafortunada pois nunca conseguiu conceber. Os seus maridos morreram sem lhe deixar descendência e, numa estratégia bem conseguida, ela finge-se de prostituta e engravida do sogro. Raabe não precisou de fingir de prostituta, pois era justamente essa a sua ocupação laboral. Rute pertencia à tribo de Moabe, tribo essa que era amaldiçoada pelo povo de Israel.
Três mulheres com histórias dramáticas, mas que foram escolhidas para pertencer à família de Jesus Cristo. Aquele que é Deus que desceu à terra, e que sem mácula alguma morreu e ressuscitou pelos homens e mulheres, escolheu incluir pessoas imperfeitas na sua genealogia.
Será que este tópico não desafia a nossa concepção do que é uma família perfeita? Mais que isso, o Jesus perfeito ensina-nos que deixando ele pessoas imperfeitas entrar na sua família, também nós somos chamados a abraçar a imperfeição das outras pessoas. Jesus é o Perfeito que veio para o imperfeito. E nós estaremos mais próximos dos ensinamentos d’Ele quando declinarmos uma cultura da perfeição e do perfeccionismo para investirmos numa cultura onde as pessoas têm espaço para errar.
Na nossa mesa de Natal estiveram pessoas com alargadores nas orelhas, cabelo com várias cores e com calças rasgadas? Estiveram familiares que conseguiram criar um mau ambiente com as suas perguntas inconvenientes? Posso até apostar que esteve também o sobrinho que está sempre agarrado ao telemóvel; ou que faltou aquele primo que falta sempre porque não concordou com a distribuição da herança há cinco anos. E se estas presenças e ausências forem aceites naturalmente na nossa mesa de Natal? Que não sejam elas que definam as nossas compatibilidades e proximidades ao longo do ano. Relembro-me da música de Jónatas Pires que diz que para o coxo ainda há lugar à mesa (Há lugar, do álbum Tudo é Vaidade). Sem ser de Natal , é das canções mais fraternas que conheço! Enfim, Jesus deu lugar aos imperfeitos na sua família, e nós devemos dar-lhes lugar nas nossas vidas.

Presépio liberiano. Foto: Direitos reservados.
Mais uma vez seguindo o exemplo daquele que deu origem ao Natal, Jesus conseguia ver o coração arrependido e disposto a mudar dos imperfeitos, e dava-lhes uma nova oportunidade. Ou até mesmo aqueles que não queriam nada a não ser o seu alívio físico, Jesus nunca lhes virou a face (um dia ainda hei de escrever acerca de quem Jesus se afastava.)
Espero que este artigo leve, tal como me levou a mim, a pensar sobre a proporção de imperfeição que existe nas nossas vidas. E em jeito de conclusão, deixo três aplicações sobre este assunto:
- Há espaço para sermos imperfeitos e sermos aceites como tal. Mas o problema começa com esta tensão imposta pela cultura de que temos de ser os melhores. Jesus não nos chamou para ser os melhores, mas para sermos satisfeitos com Ele.
- Devemos encontrar lugares para que os imperfeitos se possam aproximar de nós. O filme PS I Love You termina com a frase “se nós estamos todos sozinhos, então nós estamos todos juntos nisso também”. Se todos nós somos imperfeitos, é a imperfeição que nos fará ser próximos e crescer. Aceitemos pessoas imperfeitas, complexas e com histórias dramáticas na nossa vida. Juntos podemos crescer e, se a imperfeição não for diminuindo, pelo menos não estaremos sós.
- Lutemos contra a cultura da perfeição e do perfeccionismo. Existem pessoas que, sobrecarregadas pela exigência de fazer tudo bem, sucumbem às expectativas dos outros, a esgotamentos e às vezes até ao suicídio. Não deixemos que isso aconteça: dos imperfeitos também reza a história!
Débora Hossi é gestora de redes sociais; considera-se peregrina, integra a Missão Evangélica Intercultural e é apaixonada por Jesus e pelos seus ensinamentos.









