O Natal é inclusivo ou não é Natal

| 23 Dez 20

O facto de não haver lugar para José e Maria comprova que o princípio da exclusão entre seres humanos esteve presente no palco do nascimento de Jesus Cristo, na Belém de há dois mil anos. Não foi apenas a morte que se revestiu de dramatismo. O nascimento também

Luísa Lopes dos Santos (ao centro, com a guitarra), no dia de Natal, no campo de refugiados de Samos (Grécia). Foto Valentin Herdeg, cedida pelo autor

 

O Evangelista Lucas descreve com algum pormenor o quadro do nascimento de Jesus de Nazaré. Um dos aspectos mais relevantes nele contido é o de que uma mulher no fim da gravidez, acompanhada do seu marido, não conseguiu encontrar um pequeno canto para pernoitar em Belém.

Com efeito, José e Maria andaram a bater a todas as portas daquela povoação mas ninguém se compadeceu com o seu estado e todos lhes fecharam as portas. Reza a Escritura: “E aconteceu que, estando eles ali, se cumpriram os dias em que ela havia de dar à luz. E deu à luz a seu filho primogênito, e envolveu-o em panos, e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem” (Lucas 2:6,7).

Ninguém acredita que não houvesse um pedaço de chão onde o casal, que viajava desde o Norte de Israel, pudesse acomodar-se, mesmo com as estalagens cheias, ou um cantinho em alguma casa particular que lhes servisse de abrigo para passar a noite. Tratou-se, sem qualquer dúvida, dum caso de exclusão.

Dir-se-á que os belenitas desconheciam que estavam a fechar a porta ao Messias de Israel, aquele de quem os profetas haviam predito a chegada há longos séculos, mas também ao Salvador do mundo. Mas a questão é precisamente essa. Nunca sabemos exactamente quem estamos a excluir.

Penso por vezes no quanto a humanidade perdeu com o holocausto nazi, onde milhões de seres humanos foram assassinados pela loucura hitleriana. Basta atentar para a lista dos galardoados com o prémio Nobel para concluir que boa parte deles são de origem judia. Então, quantos prémios Nobel o III Reich sacrificou ao enviar milhões de judeus para a “solução final”? Que benefícios terá perdido a humanidade com o desaparecimento destas pessoas? Quantos avanços científicos para o mundo ficaram comprometidos ou foram retardados no tempo devido a tal loucura? Quantos artistas de eleição perdemos? Quantos inventores, quantos poetas, quantos líderes espirituais? O holocausto nazi não foi só uma desgraça humanitária mas também uma catástrofe para a cultura, as artes e a ciência.

É por isso que o Advento nos interpela a todos, cristãos e não cristãos. Afinal quem são os que excluímos? Para quem não temos lugar na nossa casa, no nosso círculo, na nossa vida? Quem são aqueles por quem temos muita dificuldade de nos mover em compaixão?

Normalmente tendemos a excluir os diferentes de nós, aqueles em que reconhecemos factores diferenciadores, como a cor da pele, a religião, as opções políticas, sociais ou sexuais, mas também os de usos e costumes distintos dos nossos. A dar vazão a essa tendência, e por esta ordem de ideias, teríamos que excluir então a esmagadora maioria da população mundial. É que semelhantes a nós há muitos poucos, se tivermos em conta um conjunto largo de critérios de exclusão.

Por isso é que Jesus não ensinou a amar apenas o nosso semelhante, mas o nosso próximo, que pode ser todo e qualquer ser humano com quem nos cruzamos nos caminhos da vida. E nem sequer nos podemos limitar a considerar o próximo numa perspectiva de passividade. Próximo não é apenas aquele que connosco se cruza casualmente, mas todo aquele a quem eu quero chegar, fazer-me seu próximo. Não se trata duma coincidência fortuita mas duma proactividade, uma consequência da minha vontade.

Depois, tendemos a excluir ainda os que de algum modo nos intimidam, seja pelo seu carisma pessoal, estatuto ou condição, ou os que por alguma razão nos amedrontam. Por outro lado tendemos a descartar também aqueles de quem nos sentimos superiores.

A mensagem do céu nas campinas de Belém não foi apenas a glorificação de Deus (“Glória a Deus nas alturas”), mas também o desejo de paz entre seres humanos diferentes (“paz na terra”), e uma cultura de boa vontade entre esses mesmos seres humanos, tão diferentes uns dos outros (“boa vontade entre os homens”).

A diferença faz parte da dimensão humana. A imposição de normatividade causada por preconceito torna-se, portanto, contranatura e por vezes não passa dum instrumento de controlo sobre os outros. Porém, a diferença não nos impede de convivermos em paz e de trabalharmos unidos pelo bem comum. Pelo contrário, torna-se uma vantagem. Jesus Cristo teve doze discípulos mais chegados (o chamado colégio apostólico) e eles eram todos diferentes entre si, mas ajudaram a estabelecer o reino de Deus na terra.

Por isso, ou o Natal é todo inclusivo ou não é o verdadeiro Natal.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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