O Natal é quando o Homem quiser!

| 24 Dez 2021

vitral natal presepio foto direitos reservados

“É sempre ocasião, assim queira a liberdade do Homem, de tornar presente Cristo no meio do mundo, de fazer o bem, de levar a paz.” Foto: Direitos reservados.

 

É costume dizer-se popularmente que “Natal é quando o Homem quiser”. Inicialmente dito por um poeta (Quando o homem quiser, Ary dos Santos), vulgarizou-se pela canção que lhe deu voz. Esta afirmação, tida por muito certa pela generalidade das pessoas, assumiu um significado que, embora dito por palavras discutíveis, é muito acertado.

Na verdade, é falso, do ponto de vista da Revelação cristã, que o Natal seja quando o Homem quiser. O Natal foi uma vez só e apenas quando Deus quis. Assim o disse São Paulo: “Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob o domínio da Lei, para resgatar os que se encontravam sob o domínio da Lei, a fim de recebermos a adopção de filhos.” (Gl 4:4-5) Os verbos utilizados por São Paulo deixam intuir que o nascimento do Verbo de Deus, ou seja, o Natal, ocorre numa economia de Salvação, no momento considerado adequado por Deus.

É, aliás, comum utilizar o verbo chegar para falar das ações de Deus, podendo dizer-se, como o disse Jesus: “Tomai cuidado, vigiai, pois não sabeis quando chegará esse momento.” (Mc 13:33) O Natal ensina-nos, como de resto toda a economia da Salvação, que os tempos de Deus não se deixam apressar e não se compadecem com imediatismos. Procurar Deus implica viver o tempo de reconhecer que o protagonista da história é o seu Criador.

Então porquê continuar a dizer que o “Natal é quando o Homem quiser”, se o sabemos incorreto? Poderá até soar a um novo pecado de Adão que, não satisfeito com a primeira falha, procura novamente tomar o lugar de Deus no Mistério da Encarnação do Verbo, achando que o mesmo depende da criatura e não do Criador. Não deixa até de ser curioso que, enquanto no pecado original Adão culpa a mulher pela sua falha, no nascimento de Cristo é uma mulher que assume tal projeto de Deus e a ele se mantém fiel até ao fim, enquanto vários homens (nomeadamente os Apóstolos) dele fogem.

Parece-me que este provérbio não quer significar literalmente o que diz, mas significa algo de profundamente correto: é sempre ocasião, assim queira a liberdade do Homem, de tornar presente Cristo no meio do mundo, de fazer o bem, de levar a paz. Os cristãos antigos pensaram bem quando acharam que o Natal é para ser sempre e não apenas um dia do ano. Infelizmente, as mais recentes gerações de cristãos parecem transformar o Natal num qualquer culto pagão, desprovido do seu significado e reduzindo-o a um dia do ano, por sinal, repleto de distrações.

O Natal transformou-se, assim, num dia de família… quando é um dia de Igreja; dia de dar presentes, quando é dia de agradecer o presente de Deus; dia de muito comer e beber, quando é dia de partilha com os que menos têm; dia de ficar em casa, fechado com os meus, quando é dia de celebrar comunitariamente o Mistério do Verbo Encarnado; dia de fuga do mundo, quando é dia de encontro com o outro.

O Nascimento de Jesus – muito distinto do natal comercial que hoje se vive – não é altura de enfeites para esconder podridões, mas, como o próprio Cristo, altura de mergulhar na sujidade do eu e do mundo e, aí, estabelecer uma luz e um lugar de renovação. O Natal perde o seu sentido, não por causa dos centros comerciais e do consumismo, mas pela ausência de liberdade e de consciência dos cristãos em relação à própria Liturgia.

A Liturgia não é um teatro, mais ou menos encenado, para entreter massas. A Liturgia é uma ação do Cristo que, como bom Oleiro, vai querendo juntar, lenta e pedagogicamente, ao fraco barro das nossas existências a força da vida da Fé. Passar da Liturgia à vida é a missão primeira de cada crente e da Igreja. Já Jesus o havia dito: “Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.” (Jo 13:35) Se vamos à Liturgia como quem assiste, então voltamos tão vazios quanto fomos. Pelo contrário, a Liturgia é uma espécie de fogo que deve ir purificando o nosso ser, moldando a nossa existência. Deixemo-nos tocar por Cristo que fala nos gestos e nas palavras, participemos, em vez de assistir. Da celebração litúrgica do Natal de Cristo, façamo-nos Natal para os outros. Que cada um possa encontrar no irmão cristão o Estábulo onde poderá adorar a Deus e visitá-lo.

Então, o Natal é mesmo quando cada um de nós quiser! Não o primeiro – porque esse o foi quando Deus quis –, mas o Natal de que o mundo de hoje precisa, porque nos foi dado da parte de Deus. Não podemos esquecer que São João, no seu Evangelho, diz que o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco (Jo 1:14). No original grego (εσκηνωσεν), diz-se mais do que simplesmente habitar: significa também montar uma tenda, um tabernáculo. A Igreja, enquanto corpo místico de Cristo, é chamada a ser esta tenda, o tabernáculo onde as mulheres e os homens de cada tempo podem encontrar Cristo. Haja Natal em nós, para que cada dia das nossas vidas seja Natal para os outros.

 

Carlos Moreira Antunes é catequista no Patriarcado de Lisboa e jurista.

 

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