O naufrágio de Paulo e os naufrágios da humanidade na semana pela unidade ecuménica

| 20 Jan 20

Ali naufragou Paulo há dois mil anos, ali naufragam hoje milhares de africanos e asiáticos que buscam uma vida sem sobressaltos nem guerras na Europa. Da pequena ilha de Malta, no Mediterrâneo, chegam para esta Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que decorre desde 18 e até 25, o tema e os textos de preparação.

Nabil Minas, um sírio cristão, beija terra grega e chora de alegria, a 30 de Outubro de 2015. Minas atravessou o Mediterrâneo com o filho, vindos da Turquia, com um grupo de vários outros refugiados. Foto © Paul Jeffrey/WCC-CMI

 

Foi na viagem para Itália, depois de ter sido feito prisioneiro, que Paulo e os seus companheiros de infortúnio chegaram a Malta. Nos Actos dos Apóstolos (cap. 27 e 28), contam-se as peripécias da viagem. E refere-se que só depois de salvos é que todos souberam que a ilha se chamava Malta. “Os nativos trataram-nos com invulgar humanidade, pois acenderam uma grande fogueira, junto à qual nos recolheram a todos, por causa da chuva que estava a cair e por causa do frio.” (Act 28, 2)

A cena repete-se hoje, tragicamente, dezenas, centenas de vezes por ano, em embarcações muito mais frágeis do que aquela em que Paulo naufragou, há quase dois mil anos. Malta, Lampedusa, Lesbos, Sicília são apenas alguns dos muitos nomes de terra europeia (mesmo se Lampedusa, por exemplo, está mais perto da costa africana e Lesbos muito perto da Turquia) onde aportam milhares de pessoas por ano, procurando fugir à guerra, às perseguições, à violência ou à miséria que assola os seus países.

Repetem-se, também, aliás, os longos dias de jejum e tormentas que Paulo e os seus companheiros de viagem sofreram depois de Creta. Sem comida, navegando à deriva, desidratados e sem horizonte, como se conta nos Actos, a viagem dos náufragos de hoje é em tudo semelhante à do apóstolo.

 

Um cemitério humano

Para muitas pessoas – mais de mil, entre Janeiro e Outubro de 2019, de acordo com a Organização Internacional de Migrações – a viagem acaba de forma trágica, com a morte. Outros milhares têm, no entanto, a mesma sorte do apóstolo e são acolhidos com agasalhos, fogueiras, comida e uma “invulgar humanidade””.

Invulgar? Sim, sobretudo se comparada com a atitude das lideranças políticas europeias, que tardam em encontrar uma solução conjunta para a crise que, muitas vezes, elas próprias ajudaram a criar. São os governos europeus (e dos Estados Unidos) que, com frequência, vendem armas, fomentam as guerras ou exploram recursos de povos que vivem na miséria.

“Enquanto o Mediterrâneo se transforma num cemitério humano e civilizacional, os fiéis cristãos da ilha mediterrânica de Malta recordam-nos as palavras do autor dos Actos dos Apóstolos depois do naufrágio naquela ilha.” As palavras do pastor Odair Pedroso Mateus, director da Comissão Fé e Constituição, do Conselho Mundial (Ecuménico) de Igrejas (CMI), justificavam deste modo a escolha do tema e dos autores dos textos para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, de 2020. Apesar da xenofobia descontrolada, os cristãos de Malta e de outras ilhas ou portos do Mediterrâneo continuam a testemunhar uma “‘humanidade invulgar’ para com os mais vulneráveis”, dizia Pedroso Mateus, citado no serviço noticioso do CMI.

 

Cristãos juntos no socorro e protecção

A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, instituída há mais de 100 anos, passou a ser preparada em conjunto entre o Conselho Mundial de Igrejas (CMI) e a Igreja Católica. Normalmente, os textos e subsídios para a celebração da semana são preparados por grupos, comunidades e igrejas locais, mandatados pela Comissão Fé e Constituição do CMI e o Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, do lado católico.

A semana decorre normalmente entre 18 e 25 de Janeiro, no hemisfério norte, e entre as festas de Ascensão e Pentecostes, no hemisfério sul. O conteúdo é sempre definido a partir de um texto bíblico, tomado como centro da aproximação ecuménica.

O tema deste ano não manifesta apenas uma vontade piedosa de colaboração ecuménica. Estão já no terreno dezenas de iniciativas locais, pela Europa fora, que juntam cristãos de diferentes denominações – católicos, ortodoxos, protestantes, anglicanos, evangélicos… – no socorro e protecção dos refugiados que chegam à Europa. Uma das últimas iniciativas foi divulgada, em Setembro passado, pela Igreja Evangélica Alemã: o fretamento de um navio para salvar pessoas no Mediterrâneo, que se iria juntar às diferentes embarcações de organizações não-governamentais que operam no Mediterrâneo com o mesmo objectivo. A ideia, que seria concretizada através da criação de uma associação, contou também com o apoio da Igreja Católica.

O exemplo, nesta matéria, chega, igualmente, dos que ocupam cargos de responsabilidade: em Abril de 2016, Francisco foi à ilha grega de Lesbos em visita aos campos de refugiados, acompanhado pelo patriarca Bartolomeu e pelo arcebispo Hieronymos, ambos líderes da Igreja Ortodoxa. Nessa altura, o Papa levou consigo para Roma doze pessoas de três famílias. Testemunhando também, com esse gesto, uma invulgar humanidade…

 

(Texto actualizado a partir do artigo publicado na revista Bíblica nº 385, Novº-Dezº 2019)

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