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O nó górdio da eutanásia

| 04/06/2022

eutanasia mulher acamada foto c motortion

Mulher acamada: “Seria saudável alargar a discussão sobre a eutanásia: a questão reside na forma de se articular a vida como um todo.” Foto © Motortion.

 

Talvez nem sempre nos esforcemos por encontrar o lugar próprio para um debate sobre a eutanásia. Eventualmente preferimos ou estamos habituados a um diálogo de surdos; aí cada um esgrime o seu ponto de vista de forma dogmática, mas não é possível um encontrar um espaço de diálogo entre as diferentes posições. Portanto, cabe-nos perguntar onde está o nó górdio da eutanásia? Por outras palavras, porque é que cada vez mais a eutanásia parece ser vista como algo moralmente aceitável?

Julgo que temos de colocar a seguinte questão: o que é a vida? De um modo muito imediato, a vida é o trabalho, os outros e o gozo. Os miúdos crescem sob a égide de uma pergunta: o que queres ser quando fores grande? Os adultos vivem à volta da pergunta: em que é que trabalhas? Os velhos estão atormentados porque já não podem trabalhar. Nem sempre o trabalho representa a mesma coisa ao longo de toda a vida. Por vezes, significa emprego, enquanto remuneração. Outras vezes representa um espaço de realização pessoal e de significação da vida, pois qual o sentido da vida se não trabalharmos? É certo que a partir de uma determinada idade ou quando o trabalho (emprego) não representa as nossas espectativas, ele passa a ser um tormento diário e só os fins de semana e as férias parecem salvar a vida da total insignificação. Contudo, e se não nos for possível trabalhar, onde está o sentido da vida? Se eventualmente fico preso a uma cadeira de rodas, a partir da qual pode não me ser possível trabalhar, o meu dia a dia já não tem sentido?

Vivemos sempre a partir dos outros, com os outros e para os outros desde que nascemos. Os outros, quer sejam a nossa família ou os nossos amigos, são um espaço vital. Daí recebemos a energia, alento para a vida ou simplesmente disfrutamos de um espaço de bem-estar agradável e revigorante. É certo que, ainda que nem sempre tenhamos consciência, vivemos suportados numa teia de relações invisível. Imaginemos o que seria da nossa vida sem as pessoas que abastecem os supermercados, recolhem o lixo,… não os conhecemos, mas são essenciais à nossa forma de vida. Portanto, suponhamos que não temos mais ninguém do mundo: poderia a nossa vida ter um sentido? Se perdermos todos os outros na nossa vida, o que resta dela?

Por fim, na mesma medida que nos orientamos para o trabalho e para os outros, em não menor medida ansiamos e procuramos a todo o custo o gozo da vida. Isso passa por mais uma experiência de felicidade, seja o que for que isso represente para cada um: mais uma viagem, mais umas férias, mais um jantar. Disto representa em grande parte a nossa curiosidade pela vida dos mais famosos: sejam as viagens de sonho que realizam, os hotéis em que ficam, em suma, a forma de uma vida que parece bastar. Esta procura pela felicidade, que está presente em grande parte das músicas pop/rock na égide da paixão arrebatadora ou do amor não correspondido, é disso um claro exemplo. Mas uma vez mais: e se isso não for possível? E se “atraiçoados” pela própria vida deixarmos de ter oportunidade de experimentar novas coisas? E se perdermos a autonomia e estivermos limitados? E se a nossa liberdade for coarctada? E se a nossa forma de vida for liminarmente determinada por outras influências e ficar preso a uma cama?

Em todos estes “ses” reside parte deste nó górdio da eutanásia: o horizonte da minha vida. Isto é visível num outro aspeto muito particular: a velhice. Ninguém quer ser velho, porque velho é sinal de decadência física e intelectual. Todos ansiamos que na nossa velhice nos digam: tem um espírito jovem. Só entendo essa afirmação como um envelhecimento saudável, porque nunca ninguém trocou um bom vinho do Porto maduro e envelhecido por um outro novíssimo. Talvez vivamos na ilusão do Peter Pan. Ele não queria envelhecer, desejava ardentemente uma eterna juventude. Talvez vivamos aí.

Nem sempre conseguimos articular de uma forma razoável, entenda-se compreensível ao não crente, a nossa perspetiva sobre a eutanásia. Também nem sempre percebemos o outro lado e rapidamente rotulamos e encerramos a questão com chavões fáceis de articular. Parece-me que seria saudável um alargamento da discussão sobre tema, pois a questão reside na forma de se articular a vida como um todo. Porque se o que conta da vida é a eterna juventude que parece durar sempre e nunca acabar, como equacionar um momento da nossa vida onde já não existem ilusões e a limitação é algo de onde não podemos fugir?

 

Júlio Dinis Lobo é padre católico da Diocese do Porto e pároco de Loureiro e Ul (Oliveira de Azeméis).

 

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