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O “nosso” Deus, também Deus de “todos os outros”

| 30/12/2024

Sagrada Família. André Reinoso

Sagrada Família (Século XVII, segundo quartel) do pintor português André Reinoso. Museu Alberto Sampaio, Guimarães.

 

Permiti-me alguns lampejos de introspeção relacionados com a Sagrada Família, que estamos a celebrar.

1. É justo que vos convide a acompanhar-me à frenética cidade indiana de Varanasi, na margem do rio Ganges, no norte da Índia. Um centro sagrado onde muitos peregrinos anseiam por morrer, para que os seus corpos ou as suas cinzas sejam lançados às águas daquele rio que a todos acolhe.

Dizia o teólogo alemão Johann Baptist Metz que Deus só pode ser o “nosso” Deus se ele pode ser também o Deus de todos os outros. É esse Deus – nosso e “de todos os outros” – cujo nascimento acabámos de celebrar.

Ali, em Varanasi, naquele lugar sagrado do hinduísmo, tínhamos encontro marcado com um padre francês, o único sacerdote católico estrangeiro a viver naquela cidade e a trabalhar empenhadamente no diálogo inter-religioso com hindus, budistas e muçulmanos. Acompanhámo-lo, caminhando ao longo das águas, até que enveredámos por uma ruela estreita, passámos um portão e entrámos num pequenino pátio. Descalçámos os sapatos e entrámos na casa das Irmãzinhas de Jesus (São Charles de Foucauld). Celebrámos a Eucaristia com elas: três padres e duas irmãs.

O sol nascente entrava pela pequena janela e do terraço da casa avistávamos o rio – ali mesmo aos nossos pés – e a vida na margem, com o banho matutino ritual dos devotos do hinduísmo e as oferendas dos peregrinos. Depois da Eucaristia, tomámos juntos o pequeno-almoço. Éramos banhados por uma luz harmoniosa de serenidade e de paz, apesar do bulício de carros, riquexós, bicicletas, motas, vacas, cães e pessoas lá fora, nas ruas movimentadas. E pensei que a paz e a esperança são possíveis, apesar da crueldade dos senhores da guerra.

Somos peregrinos de esperança. Aquele menino que nasceu e é luz brilha como um farol neste mundo de guerras, fome, escuridão e desespero. Como dizia o mestre Eckhart: “A luz brilha nas trevas; é então que a reconhecemos.” Aquele Deus que só pode ser o “nosso” Deus porque Ele é também o Deus de todos os outros, cristãos ou não.

2. Segundo lampejo. Um dia, recebi uma carta preocupante de um amigo meu não cristão. Ele é antropólogo de profissão, mas escreve poemas, nos quais aprofunda o sentido da solidão e da família. E porquê? Porque ele próprio, não tendo família desde a sua tenra idade, passou a infância num orfanato. Uma vez que não tem família de sangue, algumas das muitas pessoas com quem trava conhecimento tornam-se como membros da sua própria família biológica, unidos pelo vínculo afetivo.

O assunto da carta que ele me escreveu era sobre uma dessas pessoas que eram como família sua: um jovem seu amigo que se envolvera no consumo e no tráfico de droga, fora preso num país europeu e fora condenado a sete anos de prisão. O meu amigo pedia, na sua carta dirigida a mim: “Adelino, uma vez que és padre, escreve a esse jovem uma carta encorajadora, para que ele possa converter-se e sair de cabeça erguida da prisão, depois de ter cumprido a sua pena.”

Ao ler aquela carta, a minha memória recuou vários anos, até ao tempo em que eu trabalhava na prisão-escola de Leiria, dando aulas de pintura aos jovens reclusos, a maior parte deles com penas que tinham como razão primeira o consumo de droga: consumo que leva ao roubo e a outras quedas. Eu pensava: “Porquê? A culpa estará apenas nestes jovens?”

3. No século XXI, tornámo-nos detentores de um conhecimento muito vasto. No entanto, o que é dramático é a desconcertante incapacidade do ser humano para pensar com autenticidade e dialogar com interioridade. Corremos o risco de vaguearmos vacilantes, ao capricho de uma aflitiva indigência cultural e espiritual, num doentio culto da banalidade, durante o qual nos vamos esquecendo daquilo que é mais importante para uma existência equilibrada.

As relações humanas tornam-se cada vez mais frágeis. Em vez do diálogo com o outro, que pode ser tenso e conflituoso, escolhem-se coisas, já que essas coisas podemos nós controlar. E essas coisas acabam por ocupar o lugar do humano. Quando escolhemos as coisas em detrimento das pessoas e das relações com o outro, a tendência é a de transformar o próprio ser humano em coisa que possa ser facilmente manuseada e controlada. Mas o ser humano não pode ser manuseado; não se lhe pode roubar a liberdade. Relações humanas saudáveis com o outro é um dos problemas mais complexos no seio da juventude dos nossos dias. Esse era o drama daquele jovem sobre quem me escreveu o meu amigo.

4. Ainda estamos rodeados do clima natalício. Sobre esta quadra, dizia um bispo alemão que o Natal pode ser também um tempo de angústia, solidão e tristeza. Pois pode! É que esta quadra está associada ao calor reconfortante de uma casa e ao aconchego familiar, mas há muita gente que não tem casa nem família. E essa carência é avivada nesta quadra natalícia. Escrevia Henry Nouwen que ninguém pode continuar a viver se não tem, pelo menos, uma pessoa à sua espera.

Dizia-me alguém, um dia: «o conceito de família mudou tanto!» Sim, a realidade familiar mudou muito. E há famílias que vivem verdadeiros dramas, dramas esses que muitas vezes são agravados pelo julgamento excessivamente apressado por parte da sociedade ou mesmo da Igreja, nomeadamente quando nos consideramos mais justos e, como tal, com direito a julgar. O que conduz a mais solidão. E a família deve ser aquele aconchego que vença a solidão. As palavras de Madre Teresa de Calcutá também são interpeladoras: “a maior doença não é a lepra ou o cancro, mas sim a sensação de que ninguém se importa connosco ou que somos indesejados.” A família é o ponto de partida para a superação do isolamento espiritual e psicológico que define a solidão.

Sim, neste tempo em que o conceito de família mudou tanto, precisamos de ir beber aos modelos, como o é a Sagrada Família de Jesus, Maria e José. E todas as mães entenderão aquelas palavras do Evangelho, quando se diz que Maria “guardava todos estes acontecimentos em seu coração”. Todos somos sedentos e famintos de genuína relação familiar, seja ela de sangue, seja ela construída sobre laços de verdadeira amizade (e a amizade só é amizade quando é verdadeira) ou seja ela como aquele pequenino grupo que se encontrou em Varanasi e cada um se sentia ligado por elos misteriosos daquele Menino que é o “nosso” Deus porque é também o Deus de “todos os outros”.

 

Adelino Ascenso é padre católico, membro (e atual superior geral) da Sociedade Missionária da Boa Nova. Desempenha também o cargo de presidente da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal desde 2023.
Este texto é o da homilia feita na Capela do Rato, no domingo, 29 de Dezembro, festa da Sagrada Família na liturgia católica. Os textos bíblicos lidos foram dos livros de Ben Sira (3, 3-7. 14-17a), Salmo 127 (128) (1-2. 3. 4-5), Carta aos Colossenses (3, 12-21) e Evangelho Segundo Lucas (2, 41-52).

 

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