O nosso encontro com a História: que significa hoje ser português?

| 2 Mai 2024

“Falo de milhões de homens arrancados aos seus deuses, à sua terra, aos seus hábitos, à sua vida, à vida, à dança, à sabedoria. Falo de milhões de homens a quem inculcaram sabiamente o medo, o complexo de inferioridade, o tremor, a genuflexão, o desespero, o servilismo.”
Aimé Césaire, em “Discurso sobre o colonialismo”. [prefácio Mário Pinto de Andrade]. Colecção Cadernos Livres, n. 15. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1978.

Egas Moniz. Lenda

Lenda de Egas Moniz apresentando-se ao rei de Leão com a sua família – Painel de Azulejo na Estação de São Bento (Porto).

Os países construíram – constroem – a sua identidade a partir de acontecimentos históricos que foram marcantes para a sua vida coletiva enquanto comunidade. E há acontecimentos que por aquilo que representam, factualmente ou simbolicamente, são centrais na definição dessa matriz identitária. Sobre esses acontecimentos constrói-se muitas vezes uma narrativa que tende a glorificar os feitos e os protagonistas como representantes do desejo da comunidade. A narrativa vai sendo absorvida criando mitos que se nos colam à pele de tal maneira que difícil se torna deles nos libertarmos. O que nos impede de termos um olhar mais distanciado sobre a nossa própria identidade. Penso que assim seja com todos os países. E Portugal não será exceção. O que, julgo eu, difere é a forma como cada país se relaciona com a sua História, nomeadamente com os acontecimentos fundadores da identidade, a forma como essa História é transmitida e que configuração as novas gerações absorvem da identidade coletiva num mundo que se tornou global, próximo e quiçá mais distante do passado. Ou seja, de que forma assumimos a nossa História, com o que ela tem de bom, menos bom e até mau, na relação com os povos com quem nos cruzámos.

A História não se resume, como nos foi ensinado durante o Estado Novo, à enumeração dos factos e à sua glorificação, mas exige que sobre eles se tenha um olhar crítico interpretativo, sem que isso os diminua ou apague. As consequências que deles derivaram poderiam ter sido diferentes se as opções tivessem sido outras. Mas no seu contexto foram umas e não outras. Tal visão não levantará grandes problemas, salvo quando se trata de factos fundadores da matriz identitária. Quando se toca no que pensamos ser a nossa identidade, qualquer crítica é vista por alguns (muitos?) como uma conspurcação. Que significa no mundo de hoje ser português? Que imagem temos de nós? A ausência de, como lembrava Eduardo Lourenço no Labirinto da Saudade, “um discurso crítico sobre as imagens que de nós mesmos temos forjado”, criou na sociedade portuguesa vários equívocos que oscilam entre o desejo de grandiosidade e uma espécie de síndrome de subalternidade.

Olhamo-nos não apenas como diferentes – o que é normal -, mas como melhores, superiores: a independência, uma luta entre senhores com laivos freudianos, tornou-se no desejo de um povo e de um território que ainda não existiam enquanto entidades; o Estado Novo não foi tão cruel como outras ditaduras, tratou-se até de um fascismo suave, quase um não fascismo; tentamos humanizar o colonialismo português acreditando que, ao contrário de outros, até nos misturámos com os colonizados (será que quem se misturou tinha alternativas?); quanto ao mercado de escravos sempre existiu e outros lucraram mais do que nós; o 25 de abril foi revolução idílica ao ponto de quase esquecermos (omitirmos) os seus quatro mortos e meia centena de feridos; não existe racismo em Portugal, embora haja quem o seja. Estas são algumas das ideias que perpassam a nossa sociedade e que mostram, de certo modo, que continuamos a pensar-nos como se não existissem outros interlocutores, como se a História fosse um caminho solitário e não um diálogo com outras realidades diferentes daquela que idealizamos. Tendemos a desresponsabilizar, porque o importante são as regras e quem as cumpre, sejam elas quais forem, não merece castigo. Somos apenas nós com a nossa História. Somos nós, os protegidos pela mão divina e não tanto pela arte e saber humanos. Um balançar entre o complexo de superioridade e o de inferioridade.

O problema é que a realidade por vezes se nos impõe de supetão sem que o desejássemos e então está o caldo entornado. O avanço dos radicalismos populistas, o reavivar de ideias retrógradas fora de tempo, uma imigração escravizada em nome de necessidades dúbias e incúria desresponsabilizante, dificuldade em discutirmos a nossa história recente em nome de uma pátria para tantos madrasta…E agora a discussão sobre reparações, compensações, devoluções ou seja lá o que for. Sentimo-nos de novo à deriva sem sabermos ao certo qual o nosso lugar na História que solitariamente adornamos sem a consciência de que existem e sempre existiram interlocutores.

Apesar das imagens de grandiosidade que criámos, nunca deixamos de ser sebastiânicos e essa é por certo uma das nossas maiores fragilidades: na incapacidade de percebermos quem somos e de nos projetarmos no futuro, esperamos saudosamente o milagre de Alcácer Quibir. Não deixa de ser curioso e um sintoma da doença a forma como os partidos se relacionam com os ex-líderes ou o “povo” se relaciona com ex-governantes.

Criou-se a ideia de que Portugal é um menino de bem, com um comportamento exemplar, a quem se perdoam todas as tropelias. .

A nossa projeção no futuro não pode continuar a ser uma caminhada solitária à espera que alguém nos dê a mão, mas antes uma construção dialogante onde o nosso saber e arte se afirmem, mas onde os nossos interlocutores tenham também o seu lugar na História que é a nossa.

Não será esta a oportunidade para nos confrontarmos com a nossa História no sentido de melhor entendermos quem somos e o que pretendemos ser?

 

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