Bartolomeu dos Mártires, novo santo português, “apaixonado pela reforma da Igreja”

| 6 Jul 19

 

Frei Bartolomeu dos Mártires, arcebispo de Braga no século XVI, “era um apaixonado pela reforma da Igreja” e o anúncio da sua canonização, com dispensa de milagre, traduz uma “grande alegria” para Braga, de cuja diocese foi arcebispo, para as dioceses que nessa altura faziam parte da arquidiocese minhota (Bragança, Vila Real e Viana do Castelo) e para o país. A 10 de Novembro, será lido em Braga o decreto de canonização, única cerimónia prevista para assinalar o facto.

A declaração foi feita ao 7MARGENS por D. Jorge Ortiga, actual arcebispo de Braga e, nesse cargo, sucessor de Bartolomeu dos Mártires (1514-1590). Acrescentando que esta “grande alegria” é “provocadora e motivadora de comportamentos novos”, Jorge Ortiga estabelece vários paralelos entre a situação da época em que viveu o seu antecessor e a actual: “Tal como no século XVI, vivemos hoje uma situação de crise, debilidades e fraquezas que importa olhar de frente, encarar nos seus contornos e discernir o que devemos fazer para encontrar atitudes novas e responder aos desafios que se colocam.”

O anúncio da canonização do arcebispo e frade dominicano foi feito na manhã deste sábado, 6 de Julho, em Roma: o Papa alargou o culto litúrgico de Bartolomeu dos Mártires “a toda a Igreja e declarou a sua inscrição” na lista dos santos, noticiou a página oficial da arquidiocese de Braga. A decisão já tinha sido tomada na véspera, durante a audiência do Papa ao arcebispo Angelo Becciu, prefeito da Congregação para a Causa dos Santos. Em Janeiro, Francisco concedera a autorização necessária à dispensa do milagre. Tendo em conta este facto, não haverá cerimónia litúrgica, mas apenas a leitura do decreto de canonização. Ou seja, a canonização tem efeito imediato e não precisará de nenhum rito mais, como acontece habitualmente. 

 

Uma ideia de reforma para a Igreja

Bartolomeu dos Mártires “reconheceu a crise e os problemas da época”, diz ainda o arcebispo Ortiga, e “a partir da sua experiência em Braga” levou para a última sessão do Concílio de Trento (1561-1563), na qual participou, a ideia da reforma do catolicismo. O arcebispo português foi um dos que se situou no campo que pedia a reforma da Igreja Católica, na linha do desafio que a Reforma protestante tinha colocado, acrescenta D. Jorge.

Nessa altura, recorda o actual arcebispo de Braga, a Igreja Católica “precisava de readquirir credibilidade” mas, ao mesmo tempo, de dar resposta às exigências de evangelização aos territórios que entretanto se desvendavam aos europeus: Brasil e Américas, África subsariana, Extremo Oriente asiático.

“Hoje também estamos numa situação idêntica, já que a Igreja precisa de uma renovação interna e de percorrer caminhos novos” na sua missão, diz, levando o “evangelho para longe”. O catolicismo precisa de encontrar “caminhos para se tornar válido” para as pessoas. “A Igreja tem um dinamismo próprio, no âmbito interno, na sua atitude” e, ao mesmo tempo, deve “situar-se no tempo, na sociedade em que vive, reconhecendo as aspirações das pessoas e mostrando que o evangelho tem alguma coisa de válido a dizer a essas aspirações.”

A “grande personalidade” de Bartolomeu dos Mártires também se verificou pela sua acção em outros campos como a formação dos padres e dos fiéis católicos. Bartolomeu dos Mártires “tinha uma grande proximidade” para com os padres e as comunidades católicas que visitava e não foi um “arcebispo de corte”, diz Jorge Ortiga, como havia tantos outros no tempo.

O arcebispo de Braga recorda vários documentos que atestam a passagem e as orientações que o seu antecessor deixava “em diversas paróquias depois de falar” com os padres e as outras pessoas que lá viviam. “Isso era uma característica da sua vida, era uma pessoa e um arcebispo presente”, diz.

 

Austeridade de vida como dever dos bispos, celibato apenas disciplina da Igreja

Uma das histórias que se conta habitualmente é que o arcebispo teria defendido no Concílio de Trento uma excepção à regra do celibato para os padres do Barroso, castigados pelo isolamento. Mas o seu principal biógrafo contemporâneo, o também frade dominicano Raul Rolo, que morreu há poucos anos, contestava a veracidade do facto, considerando-a uma “aleivosa infâmia”, a que o escritor e antigo Presidente da República, Teófilo Braga teria dado voz amplificada. Mas, dizia frei Rolo, Bartolomeu dos Mártires, em muitos dos 32 livros que publicou, o arcebispo defendia que o celibato eclesiástico não era uma regra de direito divino, mas da tradição e da disciplina católica: “A castidade não é da essência do estado sacerdotal, mas apenas de conveniência”, escreveu Bartolomeu dos Mártires.

Traduzindo a preocupação do agora novo santo com a formação, refira-se que, quando renunciou ao cargo de arcebispo, em 1581, bartolomeu deixava na extensa diocese de Braga, várias escolas com mais de 400 alunos e mais de 1100 colegiais em classes de humanidades, filosofia e “casos de consciência”.

A sua acção não esquecia a pobreza de muitos sectores da população e do próprio clero, fazendo com que os padres mais ricos partilhassem com os mais pobres e providenciando apoio a muitos desfavorecidos. O que levou a que, quando morreu em Viana do castelo, em 1590, já fosse conhecido como “arcebispo santo” ou “pai dos pobres e dos doentes”. Bispos e padres, dizia ele, eram apenas administradores dos bens da Igreja, que estavam destinados a evangelizar e a socorrer os pobres.

Bartolomeu dos Mártires dava ele mesmo o exemplo: a austeridade de vida eram a sua regra, facto que levou vários outros bispos e superiores de ordens religiosas a pedir-lhe que moderasse o seu rigor. Em casa, afirmava, era ele o estranho “e os pobres os verdadeiros e naturais senhores”. E em 1570, quando a peste se declarou, ele próprio assistiu muitos doentes, com riscos de contágio e contrariando os apelos do rei, D. Sebastião, e do cardeal D. Henrique, para que saísse de Braga – factos narrados na biografia que sobre ele escreveu frei Luís de Sousa, a Vida do Arcebispo.

Os bispos portugueses reagiram positivamente à notícia. O porta-voz da Conferência Episcopal fala de um “grande modelo para a renovação da Igreja”, recordando a nota pastoral publicada há cinco anos, em que diziam que Bartolomeu dos Mártires mostra que “a evangelização e as reformas na Igreja não só são necessárias como possíveis”.

O bispo de Bragança-Miranda, José Cordeiro, fala de frei Bartolomeu como alguém que “encarnou o perfil de bispo ideal”.

Em Viana do Castelo, onde é grande a devoção a Bartolomeu dos Mártires, o bispo Anacleto Oliveira diz que a decisão do Papa deve levar a mais “responsabilidade” da parte das comunidades católicas da região e de todo o país, no sentido de “se sentirem motivadas a seguir o seu exemplo”.

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