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O Oceano de Deus

| 26/04/2024

Nem sempre lidamos com Deus da mesma maneira. Por vezes apenas estendemos a mão como Moisés e o mar abre-se. Outras vezes caminhamos para as águas, tocamos nelas e o rio abre-se como com Josué. Outras vezes Deus permite que caminhemos sobre as águas por um tempo, como Pedro. E outras vezes somos levados à profundidade do oceano como Jonas.

Moisés. Travessia do mar Vermelho.

Travessia do Mar Vermelho. Nicolas Poussin (1594–1665).Galeria Nacional de Victoria (Melbourne, Austrália) / Wikimedia Commons

De acordo com o relato genésico (1:1,2) as águas estiveram presentes desde a Criação e o Deus Criador movia-se sobre elas. Um autor francês, Nobel da Literatura em 1915, esboçou um conceito sobre a espiritualidade a que chamou “sentimento oceânico”, para se referir a uma sensação de eternidade. A Transcendência, a ligação com o divino, é como se fossemos colocados perante o mar imenso, o oceano. Realmente há muitas semelhanças entre o oceano e a presença de Deus.

 Tal como Deus, o oceano é fundamental para a vida do planeta. O oceano é fonte de oxigénio e fonte de vida, indispensável para o equilíbrio do planeta: “Se o oceano não absorvesse a temperatura teríamos mais 17ºC na atmosfera. É o seguro de vida do planeta” (Tiago Pitta e Cunha). Da mesma forma Deus é o nosso oxigénio, fonte de harmonia e equilíbrio.

 Tal como Deus, o oceano alimenta. O oceano oferece-nos variedade de alimentos como peixe, algas, moluscos. Da mesma forma, Deus alimenta a nossa fome espiritual.

 Tal como Deus, o oceano refresca. Podemos ia à praia, nadar, velejar, fazer mergulho. Da mesma forma Deus dessedenta a nossa sede espiritual.

 Tal como Deus, o oceano abre-nos novas realidades. Cruzando os oceanos podemos conhecer novas terras, novas gentes, novas geografias, usos e costumes, como foi o caso da Expansão Portuguesa. Da mesma forma Deus dá-nos a conhecer outros irmãos neste imenso reino de Deus.

 Tal como Deus, o oceano é imenso. Fernando Pessoa: “E ao imenso e possível oceano/Ensinam estas Quinas, que aqui vês,/Que o mar com fim será grego ou romano:/O mar sem fim é português.” Da mesma forma Deus é mais do que imenso, Ele é eterno.

Tal como Deus, o oceano tem muito para descobrir em si mesmo. O oceano revela-nos uma fauna e flora marítimas riquíssimas, assim como uma orografia marítima fantástica. De mesma forma Deus dá-nos a conhecer as riquezas da sua Graça, sempre nova e surpreendente.

 Tal como Deus, o oceano intimida e desafia. O oceano pode provocar medo, especialmente quando o mar está revolto. Ele intimida-nos e desafia-nos. Da mesma forma há muitos que têm medo de Deus, quando deveriam ter sim, temor a Deus (reverência, respeito). Tantas vezes somos desafiados por Ele, por vezes intimidados perante a sua glória e majestade.

 Tal como sucede na nossa relação com Deus, também o oceano nos proporciona experiências diferentes:

Moisés levantou a vara e estendeu a mão sobre o Mar Vermelho e este se abriu: “E tu, levanta a tua vara, e estende a tua mão sobre o mar, e fende-o, para que os filhos de Israel passem pelo meio do mar em seco” (Êxodo 14:16).

Os sacerdotes que levavam a Arca da Aliança tocaram nas águas do rio com a planta dos pés e o Jordão abriu-se: “Porque há-de acontecer que, assim que as plantas dos pés dos sacerdotes, que levam a arca do Senhor, o Senhor de toda a terra, repousem nas águas do Jordão, se separarão as águas do Jordão, e as águas, que vêm de cima, pararão amontoadas” (Josué 3:13).

Pedro quis caminhar sobre as águas e Jesus chamou-o: “E respondeu-lhe Pedro, e disse: Senhor, se és tu, manda-me ir ter contigo por cima das águas. E ele disse: Vem. E Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas para ir ter com Jesus. Mas, sentindo o vento forte, teve medo; e, começando a ir para o fundo, clamou, dizendo: Senhor, salva-me! E logo Jesus, estendendo a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste?” (Mateus 14:28-31).

Jonas foi lançado ao mar, engolido por um grande animal marítimo, até que foi vomitado em Nínive.

Portanto, nem sempre lidamos com Deus da mesma maneira. Por vezes apenas estendemos a mão como Moisés e o mar abre-se. Outras vezes caminhamos para as águas, tocamos nelas e o rio abre-se como com Josué. Outras vezes Deus permite que caminhemos sobre as águas por um tempo, como Pedro. E outras vezes somos levados à profundidade do oceano como Jonas.

Em qualquer dos casos, a fé é indispensável, tanto para depois nos deliciarmos com o poder de Deus, como sucedeu com Moisés e Josué; como para nos confrontarmos com as nossas fragilidades, como no caso de Pedro; como ainda para encararmos a nossa desobediência, ilustrada pelo exemplo de Jonas.

 

José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.

 

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