O outro sou eu

| 21 Set 2021

Escola Portuguesa, Timor-Leste

“Vivo muito mal com a perda das minhas referências. Mais ainda quando o obscurantismo, a ignorância e o ódio ganham terreno a cada dia.” Foto: Escola Portuguesa, Timor-Leste. © Universe Awareness / Wikimedia Commons

 

Há tanto que me vem à cabeça quando penso em Jorge Sampaio. Tantas ocasiões em que o seu percurso afetou e inspirou o meu, quando era só mais uma adolescente portuguesa da primeira geração do pós-25 de Abril à procura de referências. Agora, que sou só uma adulta que recusa desprender-se delas, as memórias confundem-se com valores e os factos com aspirações. Partilho aqui um pouco deste nevoeiro, na esperança de que se torne mais leve.

Nos dias agitados que sucederam o referendo para a independência de Timor Leste vivia-se, em casa, o último capítulo de um drama familiar que envolvia a saúde (e a vida, em várias alturas) da minha irmã mais nova desde que nascera, em particular os seis ou sete anos anteriores. Costumo dizer que, além das profundas marcas que esses anos deixaram em todos nós do ponto de vista emocional, eles ofereceram-me também a possibilidade de fincar pé em valores e convicções que, de outra maneira, não teriam forma tão concreta: a solidariedade, a empatia, a esperança e a profunda valorização e respeito pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS) que viemos a construir.

Nessa altura, a minha irmã estava internada, em recuperação da última de mais de 10 cirurgias, muito perto da Avenida dos Aliados, no Porto. Eu tinha acabado de fazer 16 anos, estava prestes a começar mais um ano do secundário e os meus dias passavam-se entre o hospital e a nossa Praça, para onde escapava todos os dias, na ânsia de fazer parte da luta por Timor, que me parecia tão justa. Era como se, ao cumprir aquela que já acreditava profundamente ser a minha obrigação cívica e humana, estivesse a continuar, de alguma forma, as minhas obrigações familiares. Havia um balcão improvisado, dinamizado pelo Bloco de Esquerda (se não me engano), um palco e, entre uma coisa e outra, muita gente que circulava em vigília permanente. Havia música, intervenções, comunicados (“a hora mais sombria é a que precede a aurora”, dizia o do Miguel Portas, guardada até hoje no “baú de memórias” que atravessou comigo o portal da idade adulta), propostas de mobilização. Havia emoções, solidariedade e ação. De pessoas para pessoas.

A uma certa altura, por alguma razão que ficou por explicar (talvez pela emoção que tinha estampada no rosto), chamaram-me para subir ao palco juntamente com um grupo de estudantes timorenses – e eu só conseguia chorar e dizer “obrigada, mas eu não sou um de vocês, eu sinto que sou, mas não sou” (se olhar agora para trás, por cima do ombro, sou capaz de jurar que vejo a cara envergonhada do meu primo pela minha figura chorosa).

“El otro soy yo”, célebre frase das vigílias da Praça de Maio, era o que eu sentia e o que me alimentava, antes de voltar a subir ao Hospital. Era o que eu via nas pessoas que me rodeavam na Praça. Era o que eu sentia nas palavras e intervenções do, então, Presidente da República e foi o que vi, ouvi e tentei reproduzir ao longo da vida.

Vivo muito mal com a perda das minhas referências. Mais ainda quando o obscurantismo, a ignorância e o ódio ganham terreno a cada dia. Sinto que me falta o chão e que hoje precisamos de todos, mais do que nunca.

A propósito da morte de Jorge Sampaio tem-se falado muito dos momentos de comoção ao longo dos seus mandatos e da vida pública, no geral, e das várias vezes em que a sua firmeza e persistência foram decisivas para o futuro do País e de tantas pessoas – portugueses, timorenses, sírios e milhões de seres humanos que terão beneficiado dos seus esforços e dedicação aos vários cargos que ocupou depois da Presidência da República.

Será que, quem fica, entende plenamente a importância de saltar do muro e o valor da vulnerabilidade?

 

Ana Vasquez trabalha em Comunicação e Marketing

 

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