Reportagem 7M em São Paulo: O padre ameaçado de morte por abraçar “moradores da rua”

| 5 Mai 19 | Destaques, Newsletter, Sociedade, Últimas

Padre Júlio Lanzarote com “moradores de rua” em São Paulo (Brasil). Foto © Tony Neves

 

Júlio Lanzarote é um padre da diocese de S. Paulo (Brasil). Anima a comunidade paroquial de S. Miguel, na rua Taquari, na cidade que (contando periferias) tem 20 milhões de habitantes! A sua igreja é pequena, mas o seu trabalho pastoral é de enorme dimensão. Pelo menos é isso que pensam os cerca de 60 moradores de rua que ali estavam na manhã de 30 de Abril, terça-feira da semana passada.

O P. Jorge Boran, espiritano irlandês há mais de 50 anos no Brasil, é amigo de longa data do P. Júlio. E, pelas conversas mantidas, percebe-se que a admiração é mútua: o padre Jorge é um das referências incontornáveis da formação de líderes juvenis, autor de vários livros e orientador de cursos de capacitação de liderança; o padre Júlio é uma das pessoas mais conhecidas da pastoral da rua, ou seja, apoia quantos a vida atirou para fora de casa, rasgando as páginas por escrever do livro do futuro.

 

Na rua Taquari, um padre todo-o-terreno

Vários destes homens tentaram sair da rua e encontrar trabalho, mas o estigma já não permite que sejam aceites. Foto © Tony Neves

 

Chegámos à rua Taquari pelas 8h da manhã e já a missa tinha terminado. Um padre, com ar de idoso mas muito mexido, de alva e estola, servia já bolachas e leite a umas dezenas de homens no adro da igreja, num refeitório improvisado. Saudou-nos de corrida, porque não havia tempo a perder. Depois, com a ajuda de voluntários e dos próprios moradores de rua, começou a distribuir roupa, oferecendo mantas a dois mais velhos. Chegou a altura do sabão e das lâminas de barbear. Por fim, e porque é tempo de Páscoa, passou com uma caixa de chocolates.

Pode apreciar-se a simpatia e “paciência de Job” do P. Júlio: nunca mostra a mínima irritação, mesmo quando há gente a abusar da sua bondade. Vê-se bem o ambiente calmo que ali se vive, a mostrar como os ‘sem-abrigo’ gostam e respeitam, apesar de tudo, o padre que os apoia.

Mas este trabalho não se fica por aqui. A conversa que se segue mostra um homem que conhece muito deste mundo da rua, sabe todas as leis nacionais e federais, conhece os abrigos existentes e a forma como neles os moradores de rua se inscrevem, comem, fazem a sua higiene e dormem. Também está a par da corrupção que se instala nestes mundos, com o dinheiro que deveria chegar a este projecto social e se perde nos corredores da burocracia corrupta. E o P. Júlio tem mais dois inimigos de estimação: muitos dos habitantes da área da paróquia que lhe fazem fogo, pois não querem aquela gente à sua porta; e muitos polícias que dão carga dura em cima destes pobres coitados, violando os direitos humanos mais elementares.

O padre Júlio não se fica pelo seu compromisso radical dentro e à porta da Igreja. Ele aposta muito fortemente no impacto das redes sociais, onde é seguido por pessoas de todo o mundo. Causa também mal-estar e contestação, sobretudo quando denuncia a corrupção dos políticos, polícias e funcionários, bem como quando questiona esta sociedade capitalista de consumo que não dá vez nem voz a estes pobres que um dia viram a má sorte bater-lhes à porta.

Assim, para além da contestação da vizinhança, de alguns polícias e responsáveis de obras sociais, o P. Júlio sente que tem a cabeça sempre a prémio, tal o número e o tom dos insultos de que é vítima, tendo recebido já bastantes ameaças de morte.

 

A dor do abandono

Um “show” de malabarismo para mostrar capacidades dos “moradores de rua” na Taquari, em São Paulo (Brasil). Foto © Tony Neves

 

O nosso encontro teve uma segunda parte marcante e muito emocionante, o que não deveria suceder a jornalistas, formados para ficar impávidos e serenos em todas as circunstâncias de reportagem. Não se consegue, confesse-se a fragilidade. O P. Júlio perguntou aos presentes quem aceitava dar a cara numa conversa e em fotos. Ficaram uns 15.

Não se dirá nenhum dos nomes, por uma questão de respeito à privacidade que merecem e pediram, embora permitissem tirar e publicar fotos. A única mulher presente era esposa de um deles. Com coragem referiu o facto de nenhum ‘albergue’ de moradores de rua admitirem casais, porque sempre separam homens de mulheres. Lamentou que só pudesse dormir com o seu marido na rua. Depois, falou um malabarista de semáforo que, para ilustrar a forma como ia ganhando a vida, sacou dos malabares e deu-nos um show. Outro faz de palhaço nos cruzamentos, jogando ao ar três bolas.

Todos, mais ou menos, criticam a pouca qualidade de vida nos albergues. Alguns não admitem quem cheire a álcool ou droga. Outros têm pouca água para banhos e sanitários entupidos. Os lençóis e toalhas que fornecem podem ser usados várias semanas. Em certos albergues, roubam os pertences, não dando segurança aos sem-abrigo que ali vão pernoitar. Todos têm regras rigorosas de admissão, entrada, refeições, banhos, saídas… e muitos não estão em condições de as cumprir. E não o objectivo de gerar de autonomia. Há pessoas sem-abrigo que estão idosas e doentes e precisavam de albergues-hospitais ou lares de anciãos, que não existem.

 

Muitos caminhos para a Rua

A forma como cada uma destas pessoas veio parar à rua muda de sujeito para sujeito. Mas em comum há uma história sofrida de fracasso, tragédia ou abandono. Alguns não conheceram os pais, outros foram por eles postos fora de casa. O álcool e a droga – confessaram vários deles – estão na origem da ida para a rua, mas muitos queixam-se da falta de possibilidade de recuperação da adição.

Alguns dos que tiveram força e coragem para largar a dependência, não encontraram portas abertas para um emprego e acabaram por recair ou ficar na rua sem perspectivas de futuro. O P. Júlio diz que quem passou pela rua ficou marcado para sempre com este estigma e dificilmente encontra trabalho e casa para poder viver com dignidade. Faltam oportunidades mesmo para aqueles que estão disponíveis para trabalhar.

Muitos dos sem-abrigo puxam as famosas ‘carroças humanas’ que enchem as ruas de S. Paulo, transportando tudo, a começar pelo cartão e metal que vão apanhando às portas das lojas ou catando nos contentores. Mas mesmo estes que trabalham muito acabam por ser vergonhosamente explorados pelos donos das carroças e por quem lhes compra o papel, as latas e o metal encontrado.

 

Missão sempre para a frente – até à morte?

Padre Júlio Lanzarote: “Continuarei a fazer o que devo fazer, sempre ao lado dos preferidos de Deus, estes pobres dos mais pobres do Brasil.” Foto © Tony Neves

 

Depois deste desfiar de um rosário de desgraças, o P. Júlio conclui: as soluções são difíceis de encontrar porque S. Paulo tem mais moradores de rua do que 402 municípios brasileiros têm de habitantes: 20 a 25 mil! Hoje há mais sem abrigo do que vagas nos albergues. A rede pública de acolhimento está má porque centros com capacidade para 100 pessoas acolhem mais de 400: quebra a banheira, rebentam as canalizações…

Com tanta regra não há espaço para a aprendizagem da autonomia. Os cursos de formação profissional são residuais. O acompanhamento psicológico é diminuto. Conclui o P. Júlio – para irritação de muitos – que a culpa é do sistema que massifica, oprime e gera um processo de desumanização. Acrescenta ainda que a cidade de São Paulo vive numa cultura do ‘não cuidado’ dos pobres que ficam sem vez e sem voz, à mercê da violência gratuita de muita gente, incluindo agentes de autoridade.

E o que faz este homem, padre das pessoas da rua, perante as ameaças de morte? A resposta sai corajosa: “Nada! Continuarei a fazer o que devo fazer, sempre ao lado dos preferidos de Deus, estes pobres dos mais pobres do Brasil.” Mas lá vai confessando que a sua voz já ecoa longe e que a Comissão Internacional Americana dos Direitos Humanos já exigiu ao Governo brasileiro protecção para este activista. Mas, garante, os riscos continuarão a ser enormes e a cabeça estará sempre a prémio.

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