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Luís Martins Ferreira no “Rostos e Rumos”. O padre-operário que rodou a sua vida entre o torno e o altar, e que teve uma bomba nas mãos. Foto © António Marujo/7MARGENS
Luís Martins Ferreira na entrevista ao programa "Rostos e Rumos", parceria entre o 7MARGENS e a TSF. Foto © António Marujo/7MARGENS.

Luís Martins Ferreira no “Rostos e Rumos”

O padre-operário que rodou a sua vida entre o torno e o altar, e que fez uma bomba

Um dia o padre Luís Martins Ferreira teve nas mãos os componentes para construir um obus que seria vendido ao Iraque ou ao Irão, que se confrontavam numa guerra iniciada em 1980 pelo Iraque e que se prolongou até 1988. “Foi a primeira vez que comecei a pensar o que é isto das guerras”, conta ele em entrevista ao programa Rostos e Rumos, uma parceria entre a TSF e o 7MARGENS.

A resposta foi chegando à sua consciência: “É necessário que as empresas que fabricam, vendem e traficam armas continuem a funcionar; [são precisas] guerras e há países que saíram na roleta: todos os que tenham conflitos étnicos, conflitos religiosos, são convidados a ter uma guerra e as guerras são programadas…”

Quando nasceu, em 25 de Outubro de 1943, em São Martinho da Cortiça (Arganil), já os soviéticos estavam em contra-ofensiva, na Frente Oriental, nos palcos devastadores da Segunda Guerra Mundial. “Em minha casa era recorrente a conversa sobre a guerra, porque tinha-se passado muita fome.” Essas histórias, e o facto de o avô ter estado na Grande Guerra 1914-18 despertou Luís Martins Ferreira “para o que eram as guerras”.

Um dia, na Equimetal, a empresa onde trabalhava e que não pagava os salários há sete meses, disseram-lhe para fazer um obus cheio de explosivos. Era a década de 1980 e Portugal vendia armas para os dois inimigos: Irão e Iraque. O Presidente do Iraque, Saddam Hussein, era então “uma pessoa boa, amigo do Ocidente”. Depois, quando eixou de interessar, e foi “preciso o petróleo dele, correu-se com ele e passou de bom a vilão em três tempos”, diz o padre operário. “E é bom não esquecermos que a segunda guerra do Iraque foi decidida numa cimeira nos Açores, em que esteve presente o nosso primeiro-ministro”, na altura Durão Barroso.

“Este trabalho causava-me muitos problemas de consciência e deixava-me de muito mau humor”, contava o padre Luís, há um ano, na apresentação do seu livro de memórias O Torno e o Altar (Paulinas Editora).

“Um dia pedi ao chefe Monteiro que me dispensasse desse trabalho. Com o seu vozeirão, respondeu-me: ‘Problemas de consciência todos nós temos. Hoje calha-lhe a si’.”

“É um escândalo que se vá gastar até 2030 cinco por cento do PIB [produto interno bruto] num país em que há tanta carência social, em que o Serviço Nacional de Saúde não funciona bem”, diz agora Luís Martins Ferreira na entrevista ao 7MARGENS e TSF. “Nós estamos em guerra com quem?”

 

“É isto que quero”

Luís Martins Ferreira no “Rostos e Rumos”. O padre-operário que rodou a sua vida entre o torno e o altar, e que teve uma bomba nas mãos. Foto © António Marujo/7MARGENS.

Luís Martins Ferreira: “Fui despedido. Por razões nenhumas. Porque reclamava pão para as pessoas.” Foto © António Marujo/ 7MARGENS.

Aos cinco anos, em 1948, Luís testemunhou a inauguração de uma serração de madeira, na casa de seus pais; aos sete, vai para a escola, a uns breves 50 metros de casa, depois para o seminário, mesmo se o pai não era muito entusiasta da ideia: Seminário Menor, na Figueira da Foz, Maior em Coimbra. Formação clássica, disciplina rigorosa, batina negra no corpo. Em Roma, dilui-se o latim e adivinha-se a viragem secular da Igreja Católica, após a realização do Concílio Ecuménico Vaticano II.

Conhece o padre Manuel Crespo, nome fundacional da história dos padres operários, em Portugal, que o desafia a ir para França conhecer a congregação dos Filhos da Caridade, cujos membros eram padres na condição da vida operária. “A minha primeira reacção, foi: ‘não; para trabalhar, trabalhava na fábrica do meu pai”. Mais tarde, o superior geral da congregação, padre Joseph Bouchaud, passou por Coimbra. Fez uma conferência aos seminaristas e de tal modo foi convincente que Luís Ferreira mal dormiu e decidiu ir para Paris conhecer a experiência dos padres operários. “Entendi e disse: é isto que eu quero; fui para França.” Acabaria a ter uma experiência de trabalho muito dura, mas da qual não se arrepende.

Ordenado padre na sua aldeia natal, em Setembro de 1968, já vivia em França a experiência de com as teses de um cristianismo imerso na alma operária, com o ambiente escaldante que nesse ano incendiara Maio, nas universidades, escolas, fábricas e ambientes laborais.

De regresso a Portugal, seria um padre e operário em construção: fresador, torneiro mecânico, delegado sindical, dirigente político e formador profissional. Movimenta-se entre a Cova da Piedade, Paço de Arcos, Cascais, Lavradio e Setúbal. Trabalha na Sorefame, Equimetal, Standard Eléctrica e Tecnitools. Vive a condição dos restantes: fica com salários em atraso, é despedido – por razões “nenhumas, a não ser que era uma pessoa incómoda, porque perturbava, porque o padre não era para fazer o que fazia”. E o que fazia? “Reclamava pão para as pessoas.”

Os padres operários, importante movimento quer no operariado, quer no catolicismo do século XX, chegaram a ser 1400 em vários países, na década de 1970, estão hoje em extinção, também em Portugal. Mas sobre essa dupla condição, Luís Martins Ferreira não tem dúvidas de que foi a opção certa: “Jesus de Nazaré era carpinteiro; foi, digamos assim, o primeiro padre operário, que na sua vida assumiu essa condição.” A forma como se vê a si mesmo coincide: “Considero que sou um cristão que por acaso também é sacerdote que assumiu a condição operária; ou seja, assumi, por vontade minha, a condição operária; e decidi viver na condição operária o sacerdócio.” E acrescenta: “O padre é o que celebra a vida, preside à celebração da vida que é a eucaristia.”

Católicos na fundação da CGTP e contra a Guerra Colonial

Luís Martins Ferreira no “Rostos e Rumos”, com Manuel Vilas Boas. O padre-operário que rodou a sua vida entre o torno e o altar, e que teve uma bomba nas mãos. Foto © António Marujo/7MARGENS.

Luís Martins Ferreira no Rostos e Rumos, entrevistado por Manuel Vilas Boas. Foto © António Marujo/7MARGENS.

A dupla condição de padre operário leva Luís Martins Ferreira a recordar que houve católicos na fundação da Intersindical, actual CGTP: dos quatro sindicatos de Lisboa que convocaram a primeira reunião da Intersindical – Metalúrgicos, Lanifícios, Caixeiros e Bancários de Lisboa – os dois últimos, de serviços, tinham sobretudo militantes do Partido Comunista, enquanto nos dois sindicatos operários predominavam militantes da Juventude Operária Católica (JOC), que depois de 25 de Abril de 1974 viriam a aderir ao Movimento de Esquerda Socialista (MES). E é o acordo entre os dois grupos, comunistas e católicos da JOC, a que se juntam outras correntes, que levará à criação da Intersindical. O padre Luís manteve-se fiel ao seu ideário, de que o “sindicalismo deve estar ligado aos trabalhadores das fábricas” e não aos partidos.

Dos pais guarda boas memórias: o pai morreu jovem, com um AVC, aos 62 anos, tinha Luís 29. Ia à missa pelo Natal e Páscoa, “mas não se opôs” a que o filho fosse para o seminário. A mãe, professora, e leitora de Saramago, mostrou ao filho padre que o vencedor do Nobel da Literatura “não tinha razão n’O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Ela tinha percebido melhor o livro que eu.”

“Tinha muito orgulho que tivesse enveredado pela experiência de padre operário” e “nunca disse ‘é por ali ou por acolá’, dizia sempre ‘o teu coração é o teu mestre’.”

Luís Martins Ferreira, Padres operários, José Pacheco Pereira

José Pacheco Pereira e o padre-operário Luís Martins Ferreira em Outubro de 2024 no Barreiro, na apresentação do livro O Torno e o Altar, da autoria deste último. Foto © António Marujo/7MARGENS

Depois da reforma, tem repartido a sua actividade pastoral pelo Hospital Ortopédico de Outão e nas paróquias de Faralhão e Praias do Sado, Palmela e Barreiro, todas na diocese de Setúbal. Defende a memória do primeiro bispo de Setúbal, Manuel Martins, cujos 50 anos de entrada na diocese se assinalaram neste domingo, com uma missa presidida pelo actual bispo, cardeal Américo Aguiar.

Defende, também, a memória dos muitos católicos envolvidos na luta anti-colonial, que considera ter sido “feita sobretudo” por movimentos oriundos do catolicismo militante. Cita os nomes de Nuno Teotónio Pereira, e dos padres Correia (Palmela) e Carlos Póvoa (Alhos Vedros), de militantes da Acção Católica “presos e torturados” ou do “apoio aos presos políticos, dinamizado sobretudo por gente da Igreja” como frei Bento Domingues.

O 25 de Abril de 1974 foi “o dia mais feliz”. Depois de ter visto movimentos sociais em França, tanta pobreza e gente a lutar em Portugal, “obviamente aspirava pela liberdade”.

A entrevista do padre Luís Martins Ferreira pode ser ouvida na página da TSF:

https://www.tsf.pt/cultura/artigo/luis-martins-ferreira-o-padre-operario-que-rodou-a-sua-vida-entre-o-torno-e-o-altar/18012833

No final, pode ouvir-se uma gravação do actor Mário Viegas a ler o poema Operário em Construção, de Vinícius de Moraes.

 

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