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Luís Martins Ferreira, Padres operários, José Pacheco Pereira
José Pacheco Pereira e o padre-operário Luís Martins Ferreira na apresentação do livro "O Torno e o Altar", da autoria deste último. Foto © António Marujo/7MARGENS

Livro de Luís Martins Ferreira

O padre que construiu bombas, foi despedido e teve salários em atraso

| 29/10/2024

Construiu bombas, foi despedido da fábrica onde trabalhava e teve, como os outros trabalhadores, salários em atraso. Um relevante livro de memórias de um dos poucos padres-operários portugueses, grupo que tentava “aliar a sua fé à actividade política” e que se movia por ideias como “a dignidade do trabalho ou da procura de uma sociedade mais justa”. Na apresentação da obra, Pacheco Pereira contou que pergunta muitas vezes aos mais novos se sabem “o que é um torno” e que lê excertos do Catecismo católico dizendo inicialmente que são textos do Bloco de Esquerda.

25 Abril capitular, 25Abril, Catarina Castel-Branco, Mendo Castro Henriques

Cartaz 50 anos do 25 de Abril, com desenho de Catarina Castel-Branco e frase de Mendo Castro Henriques, para exposição na Galeria Diferença, na Primavera 2024, nos 50 anos do 25 Abril 1974. Imagem cedida pelos autores.

Foi quando trabalhava na Equimetal como torneiro mecânico que, em 1984/85, o chefe Monteiro disse ao também padre Luís Martins Ferreira: “Hoje calha-lhe a si fazer as bombas.”

“O meu trabalho consistia em tornear um furo com uma tolerância rigorosa numa bomba que pesava cerca de 20 quilos, que depois de acabada era enchida com explosivos”, contou o padre Luís na apresentação do seu livro O Torno e o Altar, do qual o 7MARGENS divulgou um excerto em pré-publicação.

Publicada pela Paulinas Editora, a obra conta a experiência de um dos poucos padres-operários em Portugal e foi apresentada nesta terça-feira no Barreiro, perante um auditório de quase centena e meia de pessoas.

As bombas “eram depois exportadas para os dois lados do conflito da Guerra entre o Irão e o Iraque (1980-88)”. Paralelamente, “o ambiente na empresa já não era famoso, pois os salários já não estavam a ser pagos” em dia.

“Este trabalho causava-me muitos problemas de consciência e deixava-me de muito mau humor. Um dia pedi ao chefe Monteiro que me dispensasse desse trabalho. Com o seu vozeirão, respondeu-me: ‘Problemas de consciência todos nós temos. Hoje calha-lhe a si’.

Desde aí, o padre-operário Luís Martins Ferreira passou a “reflectir muito sobre os problemas das muitas guerras que houve nestes 80 anos de vida”. O que o leva hoje a pensar “que o mundo está refém dos construtores, vendedores e traficantes de armas, porque são eles, com os especuladores financeiros, os novos senhores deste mundo em que tantos responsáveis dos negócios e das finanças e da política tem as mãos cheias do sangue de muitos milhões de seres humanos que foram mortos, ou viram as sua vidas destruídas, pelas muitas guerras dos últimos 80 anos”.

Esse foi um dos momentos decisivos na vida de Luís Martins Ferreira, que trabalhou em fábricas em França e em Portugal. O primeiro tinha sido antes da Páscoa de 1967, quando finalizava o curso de teologia no Seminário de Coimbra e se decidira a fazer uma pausa antes de ser ordenado padre para “estar e viver junto das pessoas”. O padre Joseph Bouchaud, superior geral da congregação dos Filhos da Caridade, fez uma conferência aos seminaristas e de tal modo foi convincente que Luís Ferreira mal dormiu e decidiu ir para Paris conhecer a experiência dos padres-operários.

Houve um segundo momento menos de um ano depois, em Fevereiro de 1968, quando começou “a viver a grande dureza do trabalho operário”: levantava-se às 5h da manhã e depois de duas horas de metropolitano, trabalhava oito horas por dia, de pé, “numa oficina muito ruidosa”. Aprendeu “a pensar e até rezar, enquanto substituía as borrachas dos rolos das máquinas de escrever” e tinha também a tarefa de pôr lenha na salamandra que aquecia a oficina. “Um dia em que o fazia, percebi com uma grande clareza que tinha de viver o meu sacerdócio na condição de padre-operário.” Viveria essa condição até à sua reforma em Fevereiro de 2008.

 

Uma experiência que rompeu com o unanimismo católico

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Fotografia na exposição Liberdade. A força que muda tudo, no Espaço Startup Barreiro, onde decorreu a apresentação do livro: houve muitos católicos envolvidos nos sindicatos e na criação da Intersindical, recordou Pacheco Pereira. Foto © António Marujo/7MARGENS

O testemunho do que foi essa vida na dupla condição de padre-operário, uma experiência rara em Portugal, foi transposto por Luís Martins Ferreira para o livro, do qual o historiador José Pacheco Pereira destacou vários aspectos que considera importantes – e, desde logo, a relevância da própria experiência dos padres-operários.

Durante o regime do Estado Novo, recordou, a informação clandestina de vários grupos da Igreja contribuiu “para uma nova consciência dos católicos”, rompendo com o unanimismo da Igreja institucional, que era na época “uma enorme força de apoio à ditadura”.

A experiência dos padres-operários (como também os católicos no sindicalismo) foi uma das que potenciou a mudança, acrescentou o historiador, lembrando ainda o papel da Juventude Operária Católica (JOC) e da Liga Operária Católica (LOC), na formação de sindicatos e da própria Intersindical – referiu, a propósito, os nomes de Manuel Lopes, Kalidas Barreto ou Agostinho Roseta. “Muitos” dos fundadores da actual CGTP “não eram comunistas”, vinham precisamente daqueles movimentos da Acção Católica, exemplificou.

O caso dos padres-operários, iniciado em França na década de 1940, é tratado num dos capítulos do livro. O movimento surgiu no seguimento da criação da JOC pelo padre Josef Cardijn, em 1923, na Bélgica, que seria introduzida em Portugal em 1935. “O pensamento fundador desta é o de que «cada jovem trabalhador vale mais do que todo o ouro do mundo»”, recorda Luís Ferreira no livro. A JOC usava o método da “revisão de vida”, com as etapas do “ver, julgar e agir”, aparecendo como “o primeiro movimento de leigos católico a perceber que a maioria da classe trabalhadora estava longe da Igreja e que, por isso, eram necessárias novas formas de evangelização”.

Em 1941, surge um outro momento chave neste processo: o padre dominicano francês Jacques Loew é enviado pela sua ordem religiosa a trabalhar nas docas de Marselha para estudar as condições de vida dos trabalhadores. Dois anos depois, os padres Henri Godin e Yves Daniel, que antes tinham sido dirigentes da JOC, publicaram o livro France, pays de mission? [França, país de missão?], em que tratavam o afastamento entre as classes trabalhadoras e a Igreja Católica. O livro venderia 100 mil exemplares em quatro anos, sinal da importância que adquiriu na época.

O arcebispo de Paris, cardeal Emmanuel Suhard, criou a Mission de Paris para padres que trabalhassem com operários e em Lisieux foi fundado um seminário específico para formar padres-operários que incluía, entre os seus formadores, o teólogo Marie-Dominique Chenu, que viria a ser um dos mais importantes do II Concílio do Vaticano. No seminário, recorda Luís Martins Ferreira, chegaram a estudar 150 seminaristas.

 

Morte, ressurreição e decréscimo da experiência

Papa João XXIII: o seu magistério deslocou “o centro do campo de afirmação dos católicos” e “Salazar e o seu catolicismo tinham ficado na periferia”. Foto © XXXXXXXXX

Papa João XXIII: depois de ter sido núncio em França, onde conhecera os padres-operários, recebeu um grupo que pediu a reabilitação da experiência. Foto: Direitos reservados

Com a morte do cardeal Suhard, em Maio de 1949, “ganhou força a contestação à existência dos padres-operários”. Logo um mês depois, o Vaticano proibiu qualquer colaboração entre católicos e partidos comunistas e cinco anos depois, em 1954, o Papa Pio XII decidiu acabar com a experiência, contra a vontade de três dos cinco cardeais franceses. A ordem não foi acatada por uma minoria dos padres-operários, recorda o autor no livro.

O Papa João XXIII ainda receberia um grupo de pessoas que queriam a reabilitação da experiência dos padres-operários, realidade que ele conhecia do tempo em que tinha sido núncio apostólico em Paris. Mas seria o Papa Paulo VI, em Outubro de 1965, a reabilitar a experiência, com 52 a voltarem à sua condição de padres-operários.

Luís Martins Ferreira recorda que, no início dos anos 1970 chegou a participar em “encontros com a presença de mais de 1400 padres-operários”. Mas o decréscimo foi-se notando: em 1976, em França, havia mais de 800 padres-operários, em 1987, eram 550 e, em 2005, apenas 80 ainda trabalhavam como assalariados.

“Pelo que vivi na minha longa vida operária posso dizer que sei, pois, por experiência vivida o que é ter mais mês do que salário, o que é viver quase dois anos com vários meses de salários em atraso, o que é o drama de, de um dia para o outro, ser despedido e ficar desempregado”, referiu ainda, no momento final da apresentação do livro. “Foi neste mundo do trabalho que eu procurei servir a Jesus Cristo e anunciar o seu Evangelho de libertação, que é vivido por cada um de nós na solidariedade de irmãos, construindo uma sociedade que luta pela justiça, pela fraternidade e pela paz.”

Na apresentação que fez, Pacheco Pereira sublinhou a importância de o padre Luís Martins Ferreira descrever o trabalho operário” e o que era a vida nas fábricas – não há muitas descrições como esta, afirmou, e hoje há uma grande “ignorância” sobre essa realidade, afirmou, e sobre a pobreza que tantas vezes vai a par, tal como as relações de companheirismo. E contou que por vezes pergunta a gente mais nova “sabes o que é um torno?”…

O historiador da Ephemera partiu daí para referir outras páginas importantes do livro, como as que se referem ao impacto que o 25 de Abril de 1974 teve no reduzido grupo de padres-operários que existia em Portugal, “implicados na doutrina social da Igreja”. Mesmo no plano político, acrescentou, a influência do pensamento social católico é “grande: com Francisco Sá Carneiro” na criação do PPD/PSD, por exemplo, em partidos como o Movimento de Esquerda Socialista (MES), que tinha vários católicos entre os seus dirigentes ou mesmo na propositura de Otelo Saraiva de Carvalho como candidato à Presidência da República. Foi mesmo um padre-operário que convidou Otelo para avançar, tinha dito momentos antes Manuel Pereira Crespo, que viveu também essa condição.

 

O projecto de Jesus com o “reino de Deus”

“Se não comprarem o livro fazem mal”, afirmou Pacheco Pereira. Até porque está “muito bem escrito”.

A propósito de Sá Carneiro e do PPD, o historiador contou ainda que por vezes lê excertos do Catecismo da Igreja Católica a jovens social-democratas dizendo inicialmente que são textos do Bloco de Esquerda e só depois decifrando a sua verdadeira origem.

Os padres-operários, acrescentou Pacheco Pereira, eram pessoas que “tentavam aliar a sua fé à sua actividade política” e que constituíram uma experiência diferente da dos chamados católicos progressistas. Embora pudesse ter motivações semelhantes: os padres envolviam-se “não apenas pela política”, mas também por ideias como “a dignidade do trabalho ou da procura de uma sociedade mais justa”.

Na intervenção com que também apresentou a sua leitura do livro, o padre Manuel Pereira Crespo afirmou-se “convencido de que a experiência vivida por Jesus”, de vida operária possivelmente em Cesareia ou em Séforis, é que estará “na origem do seu projecto de vida pública” de anunciar o “movimento do reino de Deus”, que levaria à prática enquanto viveu: o tema do reino de Deus é o coração da sua pregação, é a utopia do dom da sua vida que galvanizou os seus companheiros e continuou viva depois da sua morte”.

Foi precisamente essa visão que influenciou a escolha de Manuel Pereira Crespo: “ser funcionário” de uma Igreja “cúmplice da miséria e do atraso do povo ou ser seguidor  de Jesus e do seu projecto, o reino de Deus”.

“Sou um incréu, mas respeito muito a genuinidade da fé”, acrescentaria Pacheco Pereira na sua intervenção, para dizer que é essa realidade que faz com que nos dias de hoje a Igreja tenha uma acção importante “junto dos pobres que mais nenhuma outra instituição tem”.

O papel relevante que a Igreja Católica – e nomeadamente o então bispo de Setúbal, Manuel Martins – teve na crise dos salários em atraso e da fome na Península de Setúbal, nos anos 1980 (o excerto publicado pelo 7MARGENS), é outro dos capítulos do livro elogiados por Pacheco Pereira. “Se não comprarem o livro fazem mal”, concluiu. Até porque está “muito bem escrito”.

 

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