“Todas as conquistas sociais que os trabalhadores portugueses obtiveram com o 25 de Abril são indissociáveis do trabalho do padre Jardim Gonçalves e da LOC” (Liga Operária Católica), considera o sindicalista José Luís Judas, fundador da CGTP-Intersindical. A afirmação aparece no primeiro episódio do novo programa Vidas Com História, da autoria do jornalista Manuel Vilas Boas, que passa na TSF uma vez por mês aos domingos e que tem a colaboração do 7MARGENS – onde o som será sempre divulgado.
A referência já tinha sido noticiada no 7MARGENS, no relato da sessão evocativa do padre Jardim, que decorreu na Casa da Imprensa, em Lisboa, no dia 27 de Janeiro, data em que faria 93 anos, sessão essa que serve de base a esta primeira edição do programa.
José Luís Judas acrescenta que o padre Jardim Gonçalves “é uma espécie de soldado desconhecido dessa luta”. O padre Horácio Noronha, que colaborou com Jardim Gonçalves nos movimentos operários de Acção Católica, recorda precisamente essa “vida dedicada aos trabalhadores” que o padre Jardim teve. “Não numa perspectiva paternalista ou assistencialista, mas para os tornar protagonistas da sua vida, da sua acção, das suas lutas.” E Maria Natividade Cardoso, antiga dirigente nacional e internacional do movimento operário católico, sublinhava que a evolução social de Portugal “não teria existido sem o padre Jardim”, que morreu em 22 de Dezembro, pouco mais de um mês antes do seu aniversário.
Agostinho Jardim Gonçalves nasceu numa Madeira “paupérrima”, uma situação evocada pelo jornalista José Pedro Castanheira, que moderou a sessão. Mas foi aí que bebeu muito do que seria mais tarde: a atenção ao mundo dos mais pobres, dos operários e trabalhadores, a vocação de jornalista, a atenção à realidade da pobreza e da fome (que o levaria a assumir responsabilidades no Comité Católico Contra a Fome e pelo Desenvolvimento, do episcopado francês.
A sua dedicação aos movimentos operários da Acção Católica (AC) foi uma das marcas do trabalho que fez, a par da participação no Sínodo dos Bispos católicos em 1974, sobre a evangelização no mundo contemporâneo, convidado pelo então Papa Paulo VI.
“O culto do belo, uma outra forma sua de chegar a Deus”

Aspeto da assistência no Salão Nobre da Casa da Imprensa. Foto © António José Paulino
Enquanto jornalista, José António Santos recordou o papel determinante de Jardim na comunicação do Patriarcado de Lisboa, na transição do século. E o também jornalista Alexandre Manuel, que o conheceu em 1971, quando fez uma reportagem para a revista Flama sobre a Madeira, recorda no programa a “coragem” do padre Jardim em colocar-se “ao lado dos trabalhadores gráficos e, depois, de fazer autocrítica, quando as coisas começaram a correr mal”. O papel do padre Jardim na fundação da Oikos, organização de “luta contra a pobreza e pelo desenvolvimento” que trabalha em nove países e que apoiou já 300 mil pessoas ao longo da sua existência, foi também recordado por Alexandre Manuel. Bem como a sua intervenção na criação, a par de outros padres e católicos vários, da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, durante a ditadura do Estado Novo.
Fernando Abreu, antigo membro da Juventude Operária Católica, recorda também que foi com o padre Jardim que alimentou a “esperança de que nunca perderia a fé, apesar da hierarquia” católica, sublinhando o “respeito” que o cardeal Cerejeira tinha pelo padre Jardim.
A “inteligência que transportava para as homilias” e a “forma como falava tão fundo de cada um e para cada um” é outra das memórias trazidas neste caso pela jornalista Inês Rapazote. Que resumia: “Foi um homem da Igreja e da cooperação, um coleccionador de amigos, um político, um diplomata, um homem da cultura e das artes – lia tudo, queria ver tudo, comentava tudo. A cultura, o culto do belo era uma outra forma sua de chegar a Deus.”
O padre Peter Stilwell, que trabalhou com Jardim Gonçalves em vários projectos do Patriarcado, recorda que houve um grupo de padres, na década de 1970, que sugeriu na nunciatura (embaixada da Santa Sé) em Lisboa que o seu colega fosse feito bispo. O próprio Jardim riu-se quando soube. Talvez se tenha rido de novo mais tarde quando o seu nome foi de novo falado para ser bispo – mas de Setúbal, noutro momento evocado por Januário Torgal Ferreira, bispo emérito das Forças Armadas e de Segurança.
“Um grande padre, um senhor, um irmão mais velho, um amigo”, evoca Peter Stilwell. Que ao morrer, como recorda o seu irmão Jorge, “disse várias vezes o nome de Jesus – e apagou-se”.
O programa pode ser escutado nesta ligação: https://www.tsf.pt/programa/vidas-com-historia/210/













