O padre que luta no Paquistão contra os 50 graus sem sombra e as inundações de dois mil mortos

e | 10 Dez 19 | Casa Comum, Destaques, Pessoas - homepage, Últimas

O padre Liam O’Callaghan, da Sociedade Missionária de São Columbano, responsável da Comissão Ecológica da diocese de Hyderabad (Paquistão), orientando uma formação em ambiente e ecologia numa escola. Foto © Danish Yakoob

 

Há algumas coisas que o padre Liam O’Callaghan, 53 anos, nunca imaginaria três décadas atrás, quando decidiu integrar a congregação católica da Sociedade Missionária de São Columbano: viver a duas horas da cidade onde se registou já uma temperatura recorde mundial de 50,2º; viver as piores inundações da história do Paquistão, que provocaram quase dois mil mortos (além dos mais de 36 mil milhões de euros de prejuízos materiais); e ver pessoas a morrer em idades jovens – 20, 30, 40 anos – por causa da falta de água limpa.

Liam O’Callaghan, irlandês, também não imaginara que seria hoje o coordenador da Comissão Ecológica da diocese de Hyderabad, no sul do Paquistão.

Em 2015, o padre Liam foi responsável, com outros membros da sua congregação, da tradução para a língua urdu da encíclica Laudato Sí’, do Papa Francisco. Depois desse trabalho, dedicou-se a preparar uma versão resumida do texto para crianças das escolas e paróquias. A mensagem mais importante que ele pretende transmitir com as suas acções é a do “cuidado pelo planeta Terra”, seja em oficinas e seminários temáticos, seja nas comunidades católicas, em paróquias e escolas ou grupos de partilha.

 

Alterações climáticas, o maior problema do país

“Estou convencido de que a mudança climática é o maior problema que enfrentamos no Paquistão hoje em dia”, afirma, numa conversa com a jornalista Sarah MacDonald para o National Catholic Reporter. E os efeitos da emergência climática em algumas partes do Paquistão já são “horríveis”, acrescenta.

Um estudo do Global Climate Risk Index regista 145 episódios extremos, entre 1998 e 2017, já sofridos pelo Paquistão em consequência das mudanças climáticas extremas e que vitimaram mais de dez mil pessoas. O país está entre os cinco mais vulneráveis à emergência climática e, há dois dias, o The Express Tribune resumia: “Padrões climáticos extremos, agricultura reduzida, erosão do mar e períodos secos persistentes provocaram migração generalizada no Paquistão na última década, segundo autoridades e especialistas locais. Mais de dois milhões de pessoas foram deslocadas pelas águas que inundaram um quinto do país em 2010, desencadeando a migração em massa do meio rural para as cidades.”

Liam O’Callaghan dá exemplos da sua experiência própria: “Mês a mês, ano a ano, as temperaturas aumentam. No ano passado, no dia 30 de abril, a cidade de Nawabshah, a duas horas da cidade de Hyderabad (onde vivo), atingiu uma temperatura de 50,2 Cº, um recorde mundial que foi notícia. Nunca em Abril, em todo o planeta, tinha havido um registo de tal valor.

Outro dos efeitos graves está no outro extremo, com as chuvas das inundações cada vez mais imprevisíveis e mais pesadas, provocando quase sempre grandes inundações. Em 2010, as consequências foram as já referidas.

Acção de formação sobre ambiente e ecologia promovida pela Comissão Ecológica da diocese de Hyderabad (Paquistão). Foto © Pat Visanti

 

Falta de água potável, problema crónico

Por causa das inundações, mas não só, encontrar água potável é um problema crónico, refere ainda o padre Liam na conversa citada. Num estudo sobre a situação no país, a BioMedic Research International refere que as actividades humanas “causam doenças transmitidas pela água que constituem cerca de 80% de todas as doenças e são responsáveis ​​por 33% das mortes”.

Também uma comissão de inquérito estabelecida pelo Supremo Tribunal do Paquistão sobre a situação da água em Sindh, em 2017, concluiu que, das 336 amostras de água testadas em 13 distritos da província, 75% eram impróprias para consumo humano.

O Paquistão corre mesmo o risco de ser considerado em “stress hídrico” severo até 2025 e terá graves problemas de abastecimento à população de 207 milhões.

“No terreno, a situação é ruim”, afirma O’Callaghan. “A saúde das pessoas é muito má. Ajudo numa paróquia e, nos últimos dois a três anos, houve um aumento de mortes de jovens, pessoas de 30 e 40 anos a morrerem devido à água suja, às suas vidas opressivas e má nutrição.”

A média etária com que as pessoas morrem, na região, está bem abaixo dos 57 anos da média nacional. “Isso é chocante. Estamos a tentar consciencializar sobre a importância de beber água limpa. E estamos a pesquisar diferentes tipos de filtros de água, aqueles que são acessíveis aos pobres.”

 

10 mil milhões de árvores para florestar um país

Neste contexto, o padre Liam O’Callaghan trabalha tentando sensibilizar para a importância do tema, mas “o progresso é lento, o interesse não é grande” e o seu trabalho é uma “gota de água no oceano”. A formação de activistas ambientais em três escolas da região e várias comunidades é uma das suas prioridades, para os tornar agentes de mudança nas suas famílias e em outras comunidades. Esse objectivo passa pela criação de grupos Mahool Dost (Amigos da Terra, na língua local) que aprendem com oficinas e plantações que desenvolvem.

Os pobres em geral são afectados gravemente – e, como a maioria dos 2,5 milhões de cristãos são pobres, eles estão também entre os grupos mais afectados, pois vivem muitas vezes em áreas sem acesso a água potável, mesmo nas cidades.

A falta de cobertura florestal é outro problema grave com que o país se confronta. “O Paquistão tem um dos níveis mais baixos de cobertura florestal da Ásia, totalizando apenas 1,9% do país, que é quase nada.” Vinte a 25% da área do país deveria ser florestada, afirmam os cientistas, até como forma de evitar inundações tão graves. Por isso é de saudar o anúncio de um plano governamental para plantar 10 mil milhões de árvores no país, nos próximos cinco anos.

Para o padre Liam, há outro desafio importante e paralelo ao seu trabalho no combate às alterações climáticas: conseguir que cristãos e muçulmanos trabalhem juntos para enfrentar esta situação, diz ele, na conversa com Sarah MacDonald. Os cristãos ainda são perseguidos ou discriminados pela maioria, mas também os hindus são “desprezados” e os ahmadis, uma minoria muçulmana, são vistos como não-muçulmanos ou mesmo hereges pela maioria sunita e são o grupo mais oprimido do país.

Talvez pelo modo como os cristãos são olhados, O’Callaghan não conseguiu até agora a colaboração de nenhum imã muçulmano na questão climática. A colaboração tem resultado apenas com ONG [organizações não-governamentais] e várias escolas muçulmanas, além de visitas a algumas mesquitas para tentar “construir relações”. A grande frustração, acrescenta, é não conseguir chegar às pessoas que deveriam ser o alvo – aquelas “que podem fazer a mudança acontecer”.

Acção de formação ecológica da diocese de Hyderabad (Paquistão): o país tem um plano para plantar 10 mil milhões de árvores até daqui a seis anos. Foto © Danish Yakoob

 

(Com o objectivo de publicar histórias sobre acções baseadas na fé contra a crise climática, o NCR iniciou em Novembro a secção Earth Beat. O 7MARGENS agradece a Sarah MacDonald e a Bill Mitchell a disponibilidade e apoio manifestados para a publicação deste artigo)

Continuar a ler...

Artigos relacionados

Apoie o 7 Margens

Breves

Papa avisa contra notícias falsas e louva a Bíblia como “história de histórias”

O Papa Francisco considera que a Bíblia é uma “história de histórias”, que apresenta um Deus “simultaneamente criador e narrador”. Na sua mensagem para o 54º Dia Mundial das Comunicações Sociais, que a Igreja Católica assinala em Maio, o Papa desenvolve o tema “‘Para que possas contar e fixar na memória’ (Ex 10, 2). A vida faz-se história”.

Centro cultural Brotéria já abriu no Bairro Alto, em Lisboa

O novo centro cultural da Brotéria, revista dos jesuítas fundada em 1902 no Colégio São Fiel (Castelo Branco), abriu esta quinta-feira, em Lisboa, junto à Igreja de São Roque (Bairro Alto), mas o programa que assinala o facto prolonga-se nestes dois dias do fim-de-semana.

Vaticano ordena investigação a bispo por acusações de abuso sexual

O Vaticano ordenou uma investigação de alegações de abusos sexuais contra o bispo Brooklyn, Nicholas DiMarzio, que antes tinha sido nomeado pelo Papa Francisco para investigar a resposta da Igreja ao escândalo dos abusos sexuais cometidos por membros do clero na diocese de Buffalo.

Semana pela unidade dos cristãos com várias iniciativas

Várias iniciativas assinalam em Portugal a Semana de Oração pela Unidade os Cristãos, que se prolonga até ao próximo sábado, 25. Entre elas, uma oração ecuménica na igreja de Santo António dos Olivais decorre em Coimbra na sexta, 24, às 21h, com responsáveis de diferentes igrejas e comunidades.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Do Porto a Bissau: um diário de viagem no 7MARGENS dá origem a livro

Do Porto a Bissau: um diário de viagem no 7MARGENS dá origem a livro

A viagem começou a 3 de Fevereiro, diante da Sé do Porto: “Quando estacionámos o jipe em frente à catedral do Porto, às 15h30, a aragem fria que fustigava o morro da Sé ameaçava o calor ténue do sol que desmaiava o seu brilho no Rio Douro.” Terminaria doze dias depois, em Bissau: “Esta África está a pedir, em silêncio e já há muito tempo, uma obra de aglutinação de esforços da comunidade internacional, Igreja incluída, para sair do marasmo e atonia de uma pobreza endémica que tem funestas consequências.”

É notícia

Entre margens

Bispo Jacques Gaillot: o que permanece novidade

Faz por estes dias 25 anos que Jacques Gaillot, arcebispo de Évreux (n.1935), foi dispensado da sua diocese, por intervenção e denúncia de católicos conservadores, manifestantes contra as suas causas sociais, os seus testemunhos e defesas formais em tribunal pelas “periferias,” pelos cidadãos sem documentos, pelos mais frágeis na sociedade. Parténia foi a sua “virtual” diocese sem fronteiras, em sequência. Hoje vive em Paris, com os padres Sanatarianos.

Franz Jägestätter

Foi com imenso agrado que vi o filme de Terrence Malik Uma vida escondida, sobre a vida de Franz Jägestätter, um camponês austríaco (beatificado em 2007) que, por razões de consciência, recusou prestar fidelidade a Adolf Hitler (em quem via incarnada a subversão completa dos valores cristãos) e assim servir o exército nacional-socialista, recusa que lhe custou a vida.

Taizé: continuar o caminho deste novo ano

Estive presente em mais uma etapa da peregrinação da confiança – o encontro europeu anual promovido pela comunidade de Taizé. A cidade que acolheu este encontro foi Breslávia (Wrocław), na Polónia, e nele estiveram presentes mais de 15 mil jovens de todo o mundo.

Cultura e artes

Cinema: À Porta da Eternidade

O realizador Julian Schnabel alterou, com este filme, alguns mitos acerca de Vincent van Gogh, considerado um dos maiores pintores de todos os tempos. Os cenários, a fotografia e a iluminação do filme produzem uma aproximação visual às telas do pintor, no período em que van Gogh parte para Arles, no sul de França, em busca da luz, seguindo todo o seu percurso até à morte, aos 37 anos de idade.

Que faz um homem com a sua consciência?

Nem toda a gente gosta deste filme. Muitos críticos não viram nele mais do que uma obra demasiado longa, demasiado maçadora, redundante e cabotina. Como o realizador é Terrence Malick não se atreveram a excomungá-lo. Mas cortaram nas estrelas. E no entanto… é um filme de uma força absolutamente extraordinária. Absolutamente raro. Como o melhor de Mallick [A Árvore da Vida].

Sete Partidas

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Jan
30
Qui
Encontros de Santa Isabel – “Jesus, as periferias e nós” @ Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa
Jan 30@21:30_23:00

Debate sobre “Aqui e agora”, com Luís Macieira Fragoso e Maria Cortez de Lobão, presidente e vice-presidente da Cáritas Diocesana de Lisboa

Jan
31
Sex
III Congresso Lusófono de Ciência das Religiões – Religião, Ecologia e Natureza (até 5 de Fevº) @ Universidade Lusófona, Templo Hindu, Mesquita Central e Centro Ismaili
Jan 31@09:30_14:00

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco