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Padre Franco batiza jovem na igreja da Missão de Miruro, onde, há 100 anos, chegaram os primeiros Missionários da Consolata enviados para Moçambique
Padre Franco batiza jovem na igreja da Missão de Miruro, onde, há 100 anos, chegaram os primeiros Missionários da Consolata enviados para Moçambique. Foto: Direitos reservados

O padre que pedalou no meio da guerra

| 02/07/2026

Quando a guerra transformou Moçambique num labirinto de minas e medo, o missionário italiano Franco Gioda continuou a pedalar por trilhos para chegar às comunidades isoladas. A sua história é contada por Diamantino Antunes, bispo de Tete, através de um livro que acaba de lançar.

Diamantino Antunes, Missionário da Consolata e bispo de Tete, em Moçambique, lançou recentemente um livro dedicado a Franco Gioda, um padre nascido há quase 88 anos em Turim, Itália, que perdeu os pais na adolescência e que tinha o grande desejo de partir em missão. Essa vontade levou-o a ingressar no Instituto Missionário da Consolata. Depois de ser ordenado, aos 24 anos, a sua vida dividiu-se entre Itália e Moçambique. Totalizou cerca de 26 anos de missão em terras italianas – onde faleceu em 2021, aos 83 anos – e 30 anos de atividade missionária em Moçambique, onde enfrentou a guerra da independência e a guerra civil.

 

Uma missão sobre pedais

A bicicleta era o seu principal meio de transporte em terras de missão. Numa carta enviada em agosto de 1985 ao padre Norberto Louro, superior provincial da Consolata, descrevia a rotina: “Desloco-me sempre de bicicleta por causa do perigo das estradas minadas. Não sei quantos quilómetros terei feito nos últimos meses, mas estou a constatar que o facto de parar e dormir nas comunidades custa-me, mas tenho que aproveitar este tempo em que as zonas de Nipepe e Maiaca estão abandonadas. O administrador dá-me a autorização e sou praticamente o único a deslocar-me nestas zonas assoladas pela guerra”.

O superior pedia-lhe prudência, mas o padre Franco insistia na importância da presença: “Caro Norberto, não tenhas medo. Não me exponho ao perigo, mas não posso deixar de fazer o que a minha vocação exige.” O cansaço era real, mas a urgência pastoral falava mais alto. “Conheces o drama e a situação de tragédia da gente daqui. Já não há vontade de sobreviver, deixa-se correr; falta até vontade de construir a própria palhota ou de cultivar a terra. O homem está destruído. Portanto, levar a esta gente o anúncio e a esperança de Jesus justifica que se corram todos os riscos, mesmo a vida se for necessário. Ver o padre cansado, esfomeado, sujo, enlameado, a partilhar com eles o perigo da guerra faz compreender concretamente que alguém os ama, os procura.”

 

A presença que gerava confiança

O missionário acompanha trabalhos agrícolas junto de seminaristas do Seminário-Casa Allamano, em Nampula. Foto: Direitos reservados

O livro reúne testemunhos de quem privou com ele. O padre Cassiano Kalima, Missionário da Consolata moçambicano, lembra que o padre Franco “esteve presente no meio do povo moçambicano no tempo difícil da guerra civil”, e também antes dela. “Viveu os momentos que antecederam a independência nacional, viveu a guerra fratricida de 16 anos alastrada em todo o país e que vitimou alguns Missionários da Consolata; foram momentos tristes da história deste povo.”

Quem o conhecia em contexto de guerra procurava protegê-lo, como recorda o padre italiano Sandro Faedi. “Quando todos viviam em alerta, por medo de emboscadas ou assaltos, o padre Franco não deixava de visitar as comunidades cristãs nas aldeias distantes.” Em várias ocasiões “foi surpreendido por ataques de guerrilheiros, tiroteios e saques”. Nestas ocasiões, “os cristãos esconderam-no para que não o descobrissem”. Quando o assalto terminava, cristãos e não cristãos iam saudá-lo e agradecer-lhe: “Deus protegeu-nos da morte, porque estavas aqui connosco!’”

A irmã Janete Vieira de Paiva, Missionária da Consolata brasileira, recorda o dia em que o padre Franco arrancou de bicicleta depois de ter ouvido falar que “os inimigos” tinham “atacado” uma aldeia e que existiam “muitos mortos” e que “estavam a torturar os que sobreviviam”. Ao chegar ao local da tragédia, disse aos “soldados torturadores” para pararem. “Mais ou menos duas horas depois, veio uma bazuca do lado adversário e atingiu um dos chefes, arrancando a mandíbula esquerda. Este facto causou-lhes profundo temor. Correram até ao padre, pedindo desculpas, por não lhe terem obedecido.”

 

O encantador de serpentes

O padre visita a missão do Sagrado Coração de Jesus, em Nova Mambone, em 1995. Foto: Direitos reservados

O padre Ângelo Romano, Oblato de São José, destaca que o padre Franco enfrentou na selva diversos perigos, que incluíram “minas, animais ferozes, cobras e plantas venenosas”. Um dia, o curandeiro de Maúa, reconhecendo o bem que o missionário italiano fazia ao povo, preparou-lhe uma “vacina natural” com veneno de cobra e cinzas, que o religioso ingeriu quatro vezes.

Foi mordido várias vezes por cobras e nunca foi afetado. “Um dia, aconteceu que uma cobra voadora saltou de uma árvore e picou-o. As pessoas ficaram assustadas, à espera do momento fatal, contando até oito, porque depois dessa hora as pessoas morrem. Mas o padre Franco deu uma gargalhada tremenda e continuou a andar. Testemunhas dizem que ele foi mordido pelas cobras cinco vezes e nunca lhe aconteceu nada, nem mesmo uma pequena dor.”

Situações idênticas envolveram outros animais selvagens. “Noutra ocasião, as crianças que o acompanhavam numa viagem contaram que, por duas vezes, foram surpreendidas por um leão, pensando que naquele momento teriam de morrer. Mas quando a fera sentiu o olhar do missionário, virou-se e fugiu.”

O padre Ângelo descreve que em tempos de guerra, muitos foram atingidos por balas, mas ele não. “Dizem que as balas se aproximavam dele e depois se desviavam. Os soldados passaram a ter medo dele.” Segundo este sacerdote natural do Peru e missionário em Tete, numa carta do “temido general Gonçalves”, podia ler-se: “É preciso ter cuidado com esse branco, esse missionário chamado Franco, porque parece que os antepassados o estão a vigiar. Mas se o encontrarem sozinho, evitem olhá-lo diretamente nos olhos e tentem dar-lhe um tiro seguro”. O padre Ângelo refere que nunca ninguém teve a coragem de cumprir essa ordem. “Se os animais o temiam, os homens também.”

 

Juventus nas aldeias de Moçambique

A paixão do padre Franco pela Juventus – clube de Turim, a cidade onde nasceu – também é lembrada por Diamantino Antunes. O missionário “ouvia pela rádio o relato do jogo da sua equipa” sempre que podia e era um promotor da prática desportiva, algo visível na sua preocupação em preparar campos e em criar equipas de futebol. Uma sobrinha do padre Franco – chamada Gabriela – fazia parte da direção do clube e enviou para o tio caixas de equipamentos desportivos da Juventus que “foram distribuídos entre as diferentes equipas da Marávia”, no distrito de Tete.

 

Um país devastado pela guerra

O bispo de Tete explica no livro que, a 4 de outubro de 1992, a Frelimo e a Renamo “assinaram os acordos de paz após 16 anos de guerra civil, que resultou num milhão de mortos e milhões de deslocados internos, uma devastação incalculável e a colocação de dois milhões de minas terrestres”. Depois deste período, o país “precisava de ser recuperado e reconstruído do início ao fim, tanto material como socialmente”. Num contexto de reconstrução, a Igreja Católica “criou infraestruturas de promoção humana”, como escolas, centros para crianças desnutridas e dedicou-se à assistência de pessoas com deficiência, refugiados, doentes e idosos.

 

Artesão da educação

A vida e obra do padre Franco Gioda estão retratadas num livro recentemente publicado pelo bispo de Tete, Diamantino Antunes. Foto: Direitos reservados

Para além da atividade missionária no terreno, Franco Gioda revelou-se um artesão da educação. Enquanto superior provincial da Consolata em Moçambique, teve um contributo decisivo no nascimento da Universidade Católica de Moçambique, um projeto que abraçou como instrumento de justiça e paz, sendo responsável por mobilizar os primeiros missionários para a sua reitoria e docência.

Contudo, o seu testemunho de entrega renovou-se de forma surpreendente em 2010 quando, aos 72 anos, partiu para Moçambique pela terceira vez. Longe de procurar um retiro, dedicou-se à reabertura de missões nos distritos da Marávia e do Zumbo, regiões que enfrentavam um vazio espiritual e abandono de décadas. Com a sua inseparável agenda, mapeou pessoalmente 108 comunidades isoladas – algumas das quais não viam um sacerdote desde 1970 – e fundou a paróquia de Matambo, provando que a urgência de anunciar o Evangelho não conhecia o cansaço da idade.

O padre Ananias Cambo Milissão, vigário do padre Franco na paróquia de São Paulo de Tete, descreve a agenda do missionário como o seu bem mais precioso porque “nela estavam detalhados todos os planos para a missão”, nomeadamente o nome e as distâncias das comunidades, o número de cristãos e catecúmenos existentes, as vias de acesso a cada local, os dias de visita pastoral, os contactos e as pessoas de referência de cada zona, os planos de formação dos animadores e dos catequistas e as necessidades pastorais de cada comunidade.

O livro Padre Franco Gioda: Uma vida portadora de consolação foi publicado pela Consolata Editora, em Portugal, e encontra-se disponível no Consolata Museu, em Fátima.

 

Texto publicado ao abrigo da parceria 7MARGENS/Fátima Missionária.

 

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