AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

O pai Abraão tem muitos filhos

| 17/03/2021

Abraão tem muitos filhos. Os judeus reivindicam a herança abraâmica, tal como os cristãos, que se consideram filhos do patriarca no sentido espiritual, e até os muçulmanos preservam a sua memória, considerando-o um dos cinco grandes profetas do islão. 

“Abraão surge como referência comum aos três monoteísmos” (Rembrandt, “Abraão” – pormenor de Sacrifício de Isaac, 1635, Alte Pinakothek de Munique).

 

A propósito da recente visita do Papa Francisco ao Iraque, e mais especificamente à região de Ur, cheguei a ouvir na comunicação social que Abraão era o fundador das três grandes religiões monoteístas. Puro desconhecimento.

Ora, acontece que o patriarca não fundou o islão, nem o cristianismo, nem sequer o judaísmo propriamente dito. Ele foi um caldeu que saiu da Mesopotâmia certamente depois de uma epifania em que Iavé se lhe revelou, caminhou até Harã e veio a tornar-se o líder um clã semita que deu origem ao povo hebreu, com o qual Iavé veio a estabelecer uma aliança através dele e transmissível à sua descendência. Os judeus são indirectamente membros da tribo de Judá, um dos doze filhos de Jacó e patriarca fundador de umas das doze tribos de Israel.

Se Abraão é considerado o fundador da nação de Israel, quem de facto inicia aquilo que veio a ser conhecido como a religião judaica é Moisés, em pleno deserto do Sinai. Apesar de o judaísmo do segundo templo, já nos dias de Jesus, ser algo diferente, o povo judeu insistia em manter Abraão como seu pai espiritual, apesar de, no fundo, ser mais um “pai” étnico que espiritual, o que talvez tenha levado João Baptista a ser tão duro com eles: “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” (Mateus 3:9).

Coisa diferente é dizer que a figura de Abraão surge como referência comum aos três monoteísmos e que as religiões do Livro se revêm nele, cada uma à sua maneira. Mas quem fundou o islão foi Maomé, a fé cristã foi fundada por Jesus de Nazaré, o Cristo, e o judaísmo foi iniciado por Moisés, que foi o primeiro a impor aos hebreus do deserto depois do êxodo do Egipto um templo (portátil), uma lei cerimonial, uma liturgia e uma classe sacerdotal.

Apesar de tudo os judeus reivindicam a herança abraâmica, tal como os cristãos, que se consideram filhos de Abraão no sentido espiritual, e até os muçulmanos preservam a memória de Ibraim (Abraão), considerando-o um dos cinco grandes profetas, junto com Noé, Moisés, Jesus e Maomé, que consideram o último, chamando-lhe o “selo dos profetas”.

Mas quem era Abraão, afinal? O apóstolo Tiago refere-se-lhe como “o amigo de Deus”: “E cumpriu-se a Escritura, que diz: E creu Abraão em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e foi chamado o amigo de Deus” (Tiago 2:23). Mas a vida do patriarca mostra-nos alguns sinais impressivos da pessoa. Antes de mais a personagem revelou estar atenta à voz divina, ouvindo quando Deus o chamou, apesar de não o conhecer à partida visto que vivia em terra de outros deuses e, por outro lado, dispôs-se prontamente a obedecer: “Pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia” (Hebreus 11:8).

Depois demonstrou que sabia esperar o seu momento, já que: “Pela fé habitou na terra da promessa, como em terra alheia, morando em cabanas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa. Porque esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus” (9, 10).

Mas notabilizou-se sobretudo pela sua fé, particularmente no episódio do quase-sacrifício do filho Isaque, o filho da promessa, alcançado quando já não era humanamente possível a Sara ter um filho, dada a idade avançada. Apesar de tudo cometeu diversos erros porque era humano e, como tal, imperfeito.

Temos, portanto, que a grande referência das religiões monoteístas do Mediterrâneo é um homem que falhou em diversos momentos da sua vida, como no caso da viagem ao Egipto, quando mentiu sobre o seu parentesco com Sara, com medo da reacção do faraó, ou quando não soube esperar pelo cumprimento da promessa de ter um filho e forçou artificialmente a situação, com as duras consequências que se conhecem.

Paul Evdokimov (1901-1970) escreveu que Gregório de Nissa vê em Abraão a imagem do homem que caminha para as profundidades misteriosas de Deus sem fazer perguntas. Então, os muitos filhos de Abraão enquadrados nas diferentes correntes monoteístas podiam reflectir um pouco sobre as características daquele a que se pretendem reportar, em termos seminais e imitá-lo, pois assim o diálogo inter-religioso seria decerto muito mais rico, simples, fácil e substantivo.

Caso contrário esse esforço vai resumir-se a uma espécie de conversa entre pedras, invocando a analogia de João Baptista citada pelo evangelista Mateus.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Telmo Ferraz (1925-2026), cem anos a espalhar profecia

Padre da Obra da Rua morreu

Telmo Ferraz (1925-2026), cem anos a espalhar profecia novidade

O padre Telmo Ferraz, da Obra da Rua, celebra cem anos de vida e missão. Membro do clero da Diocese de Bragança-Miranda, nasceu no Mogadouro a 25 de novembro de 1925 e começou cedo o seu sacerdócio de rebeldia e compromisso social. Denunciava a tragédia humanitária provocada pelas condições péssimas em que viviam quantos davam a vida na construção de barragens naquele Trás-os-Montes longínquo e abandonado dos anos 1950. [Texto de Tony Neves]

Joana Lopes: 88 cravos à sua memória

[Entre Margens]

Joana Lopes: 88 cravos à sua memória novidade

No próximo Domingo, 11 de Outubro, Joana Lopes, que nos deixou a 5 de Fevereiro deste ano, completaria 88 anos. A Joana teve um papel importante na resistência católica contra a ditadura, tendo levado a cabo lutas muito importantes em que denunciava a guerra colonial. Tinha também uma atividade cívica intensa, assumindo a defesa de lutas políticas essenciais que não são menos importantes no nosso tempo. [Texto de Filipe Moisés].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.