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Valongo do Vouga, figo, incêndios, casa comum

Manifestações domingo, 22, em 12 localidades

“O país arde, temos de acordar” para garantir uma floresta do futuro

| 20/09/2024

Valongo do Vouga, figo, incêndios, casa comum

Pormenor da destruição causada pelo fogo em Valongo do Vouga (Águeda), 16-17 Setembro 2024, na sequência dos incêndios que assolaram a região. Neste domingo, o apelo é ao “sobressalto cidadão para criar uma floresta com futuro”. Foto © Armanda Branco.

“O país arde, temos de acordar” é o mote para uma dúzia de manifestações que neste domingo, em várias localidades do país, pretende traduzir “um sobressalto cidadão para criar uma floresta com futuro”, como dizem as organizações que promovem a convocatória.

Está em causa a exigência de “uma transformação de fundo no território nacional, combatendo activamente o abandono e a monocultura do eucalipto em Portugal como factores essenciais dos fogos mortais”, acrescentam.

As manifestações decorrem às 17h em Lisboa (Praça José Fontana), Porto (frente à Câmara Municipal) e Braga. Estão também na lista das localidades que já aderiram Arganil, Castanheira de Pêra, Gondomar (frente à Junta de Freguesia de Melres), Gouveia (frente à Câmara), Pedrógão Grande (Memorial das Vítimas), Sertã (Alameda da Carvalha), Torres Novas (Praça 5 de Outubro) e Vila Nova de Poiares (Jardim da Câmara Municipal). Em Coimbra (Praça 8 de Maio) a concentração está marcada para as 16h e em Odemira (Jardim Central de São Miguel) para as 10h.

As concentrações ocorrem “depois de mais um ano de mortes nas chamas, destruição de casas e infraestruturas em incêndios”, dizem os organizadores, entre os quais se incluem grupos como a Climáximo, a Quercus e a Greve Climática Estudantil. “A fixação governamental com a perseguição às ignições esconde no essencial o real problema: Portugal tem um território cada vez mais abandonado e com donos desconhecidos, com a maior área de eucalipto relativa de todo o mundo, um corpo de vigilância e bombeiros subdimensionado e um mundo rural abandonado política, económica e socialmente.”

Já no ano passado estas e outras organizações mobilizaram um protesto “por uma Floresta do Futuro” na consciência de que os fogos “eram e são uma ameaça constante”. “Além dos problemas levantados no mundo rural, em grande medida amplificados pelo poder político, económico e mediático da indústria da celulose e do papel, o país vê uma nova realidade climática impor-se, acelerando um processo de desertificação para o qual os incêndios contribuem decisivamente”, descreve o texto de apresentação das manifestações de domingo. “A nova realidade climática, combinada com a devastação da indústria do papel e celulose, da biomassa e da bioenergia, arrasta o país como uma âncora para o fundo, com a cumplicidade de governos de todas as cores”, acusam ainda.

Daí o apelo a que as pessoas acordem da letargia que “sucessivas gerações de governantes impuseram sobre este tema”, quebrada apenas “nos momentos de consternação, prometendo vagos ajuste para deixarem tudo essencialmente na mesma”.

Está em causa, dizem, a necessidade de  “reduzir drasticamente o poder da indústria das celuloses, da bioenergia e da biomassa, deseucaliptizar a maior parte do território hoje ocupado por eucalipto puro e misturado com pinhal e espécies invasoras, para criar uma verdadeira floresta e bosques resilientes, que aguentem o futuro mais quente, que travem o deserto e promovam uma rehabitação do interior do país”.

 

Amnistia quer esforços redobrados contra alterações climáticas

Árvore

Foto © José Centeio

Nesta sexta-feira, e quando muitas pessoas das zonas mais afectadas pelos incêndios desta semana fazem o balanço aos prejuízos e dramas familiares consequentes, a Amnistia Internacional Portugal divulgou um comunicado em que recorda o sucedido e apela a uma acção mais eficaz no combate às causas profundas dos incêndios.

“No espaço de menos de uma semana, 2024 passou de ser o ano com menos área ardida da última década, para o quarto pior desde 2014. Em poucos dias, registaram- se sete mortes, centenas de feridos e um ainda incontável número de perdas em termos de património florestal e cultural”, começa por recordar o texto da organização.

“A dimensão e as consequências desastrosas” do que se passou esta semana “devem servir de alerta para que as autoridades portuguesas redobrem os seus esforços para combater as causas profundas das alterações climáticas”, diz a Amnistia. Um dos passos necessários é “a eliminação progressiva da utilização de combustíveis fósseis o mais rapidamente possível” e a garantia de uma transição justa.

A organização diz que “está bem documentado como as alterações climáticas criam condições que podem aumentar significativamente o impacto destrutivo de fenómenos como os incêndios”. Portugal, revelam os dados do Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais, é o que tem a percentagem média anual maior de área ardida do seu território desde 2006 a 2023 (1,02%), entre 25 países. Este ano foi pior: “Estima-se que, até agora, terá ardido cerca de 1,57% do território, ou seja, mais de 144 mil hectares.”

A organização de defesa dos direitos humanos acrescenta que se corre o risco de a protecção dos direitos ambientais garantida pela Constituição (artigos 9º e 66º) vir a ser “uma promessa vazia” para as actuais e as futuras gerações.

O comunicado faz ainda referência a vários compromissos legais de Portugal a nível internacional, que devem ser cumpridos “para evitar catástrofes ainda piores” de modo a “enfrentar a tripla crise planetária das alterações climáticas, da perda da natureza e da poluição e resíduos”.

 

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