O País de Gales sem máscara, através da janela

| 11 Out 2020

Colina de Rhydyfelin, vista de Pontypridd, País de Gales

Colina de Rhydyfelin, vista de Pontypridd, País de Gales. Foto © Filipe Serrazina

 

Enquanto, em Portugal, parte de mim desculpava o número arrasador de vítimas da covid-19 em certos países com o óbvio argumento “claro, têm mais pessoas, vão ter mais casos…”, o país que me interessa a mim, o Reino Unido, encontrava-se entre os lugares mais altos na lista de países com mais infetados. Mas não me preocupei: o argumento anterior relaxava-me.

Preenchi os formulários e tomei as medidas necessárias para poder regressar à minha casa britânica, esperando que tudo fosse avaliado com rigor, seguido por uma quantidade de testes e precauções estritas de segurança no aeroporto. Para minha surpresa, tal não aconteceu. Os testes não vieram e os meus vizinhos de avião certamente não estavam nem a 20 centímetros de distância. Mas claro, um aeroporto é um estabelecimento ocupado e nem tudo pode ser feito. Compreendi. Aterrei, analisaram os meus formulários e segui viagem.

Agora, de volta aos vales galeses, vejo-me forçado a cumprir quinze dias de quarentena e a observar o país através de uma janela. A caminho de casa, vindo do aeroporto, paro no supermercado local para me abastecer para as próximas duas semanas.

Tal como é normal na nossa nova realidade, saio do carro, coloco a minha máscara e fico à espera que a minha colega faça o mesmo. Ela, em retorno, observa-me durante uns segundos e indica-me que não preciso de usar máscara se não o quiser fazer. Confuso e preocupado que o meu inglês possa estar um pouco mais ferrugento do que me lembrava, assumo que ela se refere ao facto de estar ainda na rua e não dentro do supermercado. Portanto, posso tirar a máscara enquanto estamos ao ar livre.

Assim o faço, e começo a dirigir-me às portas. Vejo uma mulher à minha frente a entrar sem qualquer tipo de proteção facial e espero pela inevitável equipa de segurança que a irá mandar embora, mas esta nunca chega. Enquanto volto a colocar a minha máscara, peço uma explicação à minha colega em relação ao que acabei de ver. Ela responde com indiferença: “Eu disse que não precisavas de usar máscara se não quisesses.” Foi assim que percebi onde estava e compreendi, pela primeira vez, os valores exorbitantes de casos que vemos na televisão.

Ao longo das duas semanas que se seguiram, cada vez os compreendi mais. Quer seja através das histórias de clientes desagradáveis de colegas que trabalham em pubs e supermercados, dos convites sem vergonha para festas de 20 ou mais pessoas para celebrar o regresso aos estudos ou do vizinho que me apertou a mão para me dar as boas vindas, não me faltaram provas de que, de facto, os números são bastantes compreensíveis.

Agora, mesmo com a minha sentença de duas semanas cumprida, continuo a observar o país através de uma janela, pois os condados vizinhos tomaram a decisão de fechar novamente as suas fronteiras e o governo viu-se forçado a impor um recolher obrigatório às 22h (e as máscaras são, finalmente, obrigatórias em espaços fechados, ao fim de quase um ano em pandemia). Mas, pelo menos, temos pubs abertos para relaxar e beber uma pint depois de aulas realizadas através de um ecrã, e isso é que importa.

 

Filipe Serrazina é estudante na University of South Wales (Cardiff, País de Gales), em busca de uma licenciatura em Engenharia Informática e de explorar um país que tem tanto para ver.

 

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