
“Todas as celebrações a que assisti foram ao ar livre, por vezes dirigidas por um bispo ou por mais do que um padre”. Foto: retirada do site
É o meu rito dominical: nas manhãs do canal France2, saborear a missa católica sem esquecer algumas amostras das cerimónias do islão, protestantismo, judaísmo e budismo, de que procuro tirar o maior proveito.
Todas as celebrações a que assisti foram ao ar livre, por vezes dirigidas por um bispo ou por mais do que um padre. O terreno ocupado parece pertencer a mosteiros, capelas ou igrejas seculares e situadas de acordo com os melhores princípios de beleza e valorizando o interesse histórico.
A missa do XIX domingo do Tempo Comum [da liturgia católica], transmitida ao ar livre, seguindo o costume, era enaltecida pelo feliz aproveitamento da circundante paisagem, harmonizadora do corpo e espírito. Era dedicada e organizada pela instituição Enfants Aveugles. As crianças davam a mão a adultos que as conduziam ao altar. E a 2ª leitura foi lida por uma senhora cega, em texto braille. Toda a gente à volta, em cadeiras de exterior ou em pé ou ainda no mais simples ponto de apoio fornecido pela natureza, manifestava o agrado de ter decidido estar presente, em convívio alegre e enriquecedor de autêntica qualidade de vida.
É tão bom encontrar cerimónias católicas que nos levam com alegria e naturalidade a um especial encontro com o Senhor!
A homilia, a cargo de um dominicano, foi exemplo de partilha espiritual, em voz clara e bem-disposta, como quem se dirige naturalmente a cada participante do grupo. Certamente que não agradou totalmente a todos – nem a mim, que reajo negativamente a algumas expressões de pura especulação teológica, apoiada em nebulosa filosofia e até mitologização do “fenómeno” Jesus Cristo: expressões secularmente e acriticamente enraizadas.
Felizmente, já encontramos teólogos capazes de enfrentar antigas maneiras de representar a vivência mais ou menos popular de alguns artigos catequéticos, hoje sem significado, ou até ridículos. Lembremos que o Papa Francisco alertou para que a “doutrina” católica apenas testemunha modos de pensar prevalecentes numa dada época – e que a imprescindível mudança é um problema tão fundamental como difícil de fundamentar e gerir.
Tomei nota, ao meu estilo, de algumas ideias da homilia:
Precisamos de pão tanto mais quanto mais cansados estivermos. E sobretudo quando não podemos mais. (1ª leitura).
Mas quando estamos cansados, tristes, enfermos ou somos deficientes, vê-se bem que o “pão mais saboroso” é sem dúvida alguma a dedicação (= oração posta em prática) de cada um de nós ao bem-estar, saúde e sobretudo alegria de viver de todos os outros. Não será verdade que uma pessoa cega, de modo especial uma criança cega, experimenta mais vida, mais alegria, mais coragem, mais amor e mais sentido da existência… quando à sua volta sente todos esses sentimentos agradavelmente manifestos?
Só assim podemos estar confiantes de que não contristamos o Espírito de Deus: fazendo com que a nossa vida contribua para fortalecer os alicerces da “vida do mundo”.
Manuel Alte da Veiga é professor aposentado do ensino universitário.
O contacto do programa referido (que não se limita à missa católica) é Le jour du Seigneur – 45bis, Rue de la Glacière – 75013 Paris; courrier@lejourduseigneur.com










